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14 de junho de 2021

Pandemia do preconceito

Ativismo gorde garante direitos quando gordofobia mostra cara
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Começou tão logo as medidas de isolamento e restrição de circulação por causa da pandemia de Coronavírus tiveram início: a ideia de que as pessoas gordas só têm esse corpo porque ficam em casa o dia todo e comendo tudo o que veem pela frente ganhou força, e o medo de engordar na quarentena virou assunto. Ser gorda é, em primeira instância, ser julgada pela imagem, a partir do que essa imagem representa socialmente e, no caso, preguiçosa e descuidada com a própria saúde. Não foi como se as pessoas precisassem se preocupar com um vírus mortal sobre o qual pouco se sabia, para o qual não havia cura e nem vacina até então. O mais importante era saber como não ganhar uns quilos a mais durante um momento tão atípico de nossa história… Porque, né?; Deus me livre engordar!

Não demorou muito e foi a vez de obesidade ser apontada comorbidade associada à Covid. É a sentença de morte que vem quando seu IMC, obtido a partir da relação do seu peso com sua altura, está fora do que é considerado normal. Não tem muita explicação tirando a associação da obesidade com diabetes, pressão alta e cardiopatias, essas sim quantitativamente relacionadas às complicações da Covid-19. No entanto, nunca é demais ressaltar que não é regra que todas as pessoas gordas desenvolvam essas doenças, e que elas também acometem pessoas magras… Mas que o tratamento estigmatizante só vai para quem habita o corpo gordo, e os olhares julgadores, dedos apontados e longos discursos sobre ser pela nossa saúde surgem de todos os lugares.

Antes ainda de descobrirem a vacina, circulou que ela não funcionaria em corpos gordos. É o que consta nesta matéria do VivaBem UOL, ilustrada com a imagem de um homem gordo, de feição triste, sentado na cama em um quarto escuro, bem ao gosto da estereotipização da pessoa gorda. O estudo só demonstra o quanto a medicina, de partida, já considera o corpo gordo como doente a partir de um critério extremamente subjetivo como é o IMC, que apesar de numérico, não dá conta da diversidade dos corpos e das condições às quais esses corpos estão sujeitos; condições essas que interferem no peso corporal e que não há dieta, nem exercício no mundo, que sejam capazes de alterar tal cenário.

Foi quando começamos a ver pessoas gordas morrendo com Covid e não de Covid. É o caso de Renan Ribeiro Cardoso, de 22 anos, que morreu à espera de um leito, prolongada porque os equipamentos de saúde disponíveis não comportavam o seu corpo. Essa falta de equipamentos, que vão de simples aventais passando por macas e aparelhos para realização de exames, é uma das faces da gordofobia médica, que insiste em negar tratamento adequado às pessoas gordas, culpabilizá-las e puni-las por seus corpos. Assim, quando pessoas classificadas com obesidade grau 3, também chamada de obesidade mórbida, entraram na lista de prioridades para vacinação – ignorando ainda o questionamento sem qualquer fundamento dos fiscais de comorbidade alheia -, que outra expressão desse preconceito veio à tona: a privação do direito à vacina.

Leia também: Denunciar a gordofobia é romantizar a obesidade?

Sendo o IMC superior a 40 a única exigência para a vacinação pelo SUS, uma balança e uma fita métrica no próprio local de aplicação da vacina bastariam. No entanto, exige-se das pessoas gordas um laudo médico que constate a condição. Foi preciso superar o trauma gerado por anos de violência em clínicas e consultórios, reconhecer o privilégio que é ter acesso ao atendimento médico nos dias de hoje e ir em busca do tal laudo, mas isso não foi suficiente para muitas pessoas gordas; esta autora inclusa. Os relatos de que os médicos estavam dificultando o acesso ao documento sob uma pretensa problematização do uso do IMC como critério para definir a condição de saúde de alguém começaram a surgir, como consta nesta matéria de O Globo e também nesta da Folha de S.Paulo

Quer dizer: Agora, doutor, o senhor resolve implicar com isso?

Justamente agora que o que foi condenado em mim esse tempo todo pode fazer a diferença na hora de salvar minha vida?

Foram palavras que passaram pela minha cabeça quando o médico com o qual eu me consultei me encaminhou para um hemograma completo e um teste ergométrico. Confusa com o que havia acabado de viver, me calei, mas depois entendi que o que ele não queria mesmo era que eu me vacinasse, não sob o seu aval.

Foi um mês nessa novela, me expondo ao risco da contaminação ao ter que ir a consultas, postos de saúde e clínicas para a realização dos exames solicitados. Entre vergonha, confusão e sentimento de culpa, foi com uma dica do projeto Saúde Sem Gordofobia que eu finalmente consegui o laudo médico no qual meus 113 kg, meu 1,62 m e meu IMC 43 estão lá registrados. Não teve vantagem, não teve jeitinho, não teve truque; teve a superação de muitos conflitos, internos e externos, uma vez que ser gorda também é questionar se você merece algo que, por direito, já é seu.

Com tanto barulho, no entanto, alguns municípios, como Mogi das Cruzes, em São Paulo, já têm alterado seus protocolos de vacinação, diminuindo a faixa do IMC e realizando a pesagem na hora de se vacinar. Uma grande conquista depois de tanto perrengue. Vitória. E sim, eu entendo que lutar contra a patologização do corpo gordo e me vacinar justamente pela faixa do IMC soa contraditório. No entanto, a compreensão de que meu corpo é preterido pelo sistema, mesmo ele estando saudável, é latente… E para lutar é preciso estar viva. Que todas possamos estar.

Agnes Arruda sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma… E isso inclui os meios hegemônicos de comunicação. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação, dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia. Hoje dá continuidade a este trabalho, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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