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31 de maio de 2021

Romance puro, SQN

Denunciar a gordofobia é romantizar a obesidade?
Arte: Bárbara Miranda/AzMina

Pode reparar: é só falar um tiquinho que seja da opressão e da violência que pessoas gordas sofrem que do nada brota um ser, fiscal da vida alheia, formado na faculdade de medicina da internet, para se manifestar:

– OBESIDADE É DOENÇA!

– PAREM DE ROMANTIZAR GENTE DOENTE!

Pois é. No tribunal da gordofobia, a gente é julgada e condenada sem direito à defesa, com base em um argumento que, bem, mesmo que fizesse 100% sentido, de nada justificaria a acusação – e o punitivismo que vem com ela.

Primeiro que somente o peso determinar a condição de saúde de alguém é algo que vem sendo questionado pela própria comunidade médica. No Canadá, por exemplo, com um dos sistemas de saúde referência em todo o mundo, os protocolos que identificam a obesidade já são outros, como apontado neste guia publicado no Canadian Medical Association Journal em agosto do ano passado. A atenção básica em saúde canadense está de olho inclusive naquilo que é chamado de GORDOFOBIA MÉDICA, quando pessoas gordas deixam de ser tratadas porque são consideradas desenganadas, levando ainda muitas delas a evitarem os consultórios e agravarem suas patologias, relacionadas ou não ao peso. Esse dado, entre tantos outros estudos, foi divulgado também na Nature Medicine, neste artigo de março de 2020.

No estudo da Nature, outro dado relevante é citado: o fato de que o estigma associado à obesidade tem, na verdade, desenvolvido muito mais transtornos nas pessoas gordas que as próprias doenças que, de costume, são associadas a elas, como diabetes, pressão alta e problemas no coração, por exemplo. E isso nos leva ao próximo ponto em questão.

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Isso porque, ao contrário do que muita gente pensa, a gordofobia não está apenas relacionada a uma questão estética. Como sistematicamente aparece em uma série de relatos de Lute como uma gorda, de Maria Luísa Jimenez, as pessoas gordas são  segregadas da vida em sociedade, preteridas no mercado de trabalho, violadas em seus relacionamentos, privadas em seus direitos, para citar apenas alguns exemplos. Nesse sentido, a gordofobia vem acompanhada do desenvolvimento de uma série de distúrbios por quem a sofre.

Os mais frequentemente identificados são os transtornos alimentares. As formas graves de bulimia, anorexia e compulsão alimentar, em alguma medida, iniciaram com práticas indiscriminadas de dietas, como aponta, entre tantos outros, este estudo desenvolvido por pesquisadoras da Universidade Federal do Ceará. Além desses, no entanto, há ainda o vício em medicamentos, álcool e substâncias ilícitas, e distúrbios silenciosos, como transtornos dissociativos de imagem, que eu mesma tive, por exemplo, quando perdi uma grande quantidade de peso em um curto espaço de tempo.

Foram 12 quilos em 20 dias, com uma dieta inventada da minha cabeça que consistia em uma única refeição diária de uma cabeça de brócolis cozida no vapor, sem sal, azeite ou qualquer outro tempero. Era aquilo. Se eu sentisse muita fome, pegava uma bolacha dessas água e sal, mastigava até ela perder todo o gosto e cuspia fora. Na época eu morava com a minha família, mas foi incrivelmente fácil esconder esse comportamento de quem quer que fosse. 

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Foi tudo tão rápido que meu cérebro não processou o emagrecimento e eu olhava para a imagem refletida do meu corpo no espelho e simplesmente não me reconhecia. É uma sensação muito estranha, que até hoje não sei se consigo explicar. Confusa, não demorou muito tempo para outras consequências do que eu tinha feito aparecerem. Meus cabelos e unhas caíram e eu fiquei anêmica. Nada saudável, não é mesmo? No entanto, quando as pessoas me viam, me elogiavam com a frase: “Muito bem. A saúde em primeiro lugar!”.

Associar indiscriminadamente magreza à saúde e gordura à doença, apenas a partir de um diagnóstico visual de quem muitas vezes nem te conhece ou tem intimidade é, hoje, um dos pilares no qual se sustenta a gordofobia. No entanto, o que não se justifica é a violência que, com esse argumento, passou-se a aceitar que pessoas com corpos gordos sejam tratadas. Falar em “romantização da obesidade”, na verdade, é só mais um jeito de negar dignidade às pessoas gordas, de negar a elas o direito de existir. E disso a gente já tá é cheia.

Agnes Arruda sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma… E isso inclui os meios hegemônicos de comunicação. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação, dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia. Hoje dá continuidade a este trabalho, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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