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27 de outubro de 2021

Nosso feminismo não é só para mulheres

A cobertura d’AzMina inclui homens trans e pessoas não-binárias - e isso não apaga a violência contra mulheres cis
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Se você acompanha nosso conteúdo, seja no site ou nas redes sociais, deve ter notado que cada vez mais nós, da equipe da Revista AzMina, nos esforçamos para evitar falar apenas em mulheres, escolhendo termos mais inclusivos como “pessoas com vagina”. Como se trata de uma mudança, achamos que vale a pena explicar o que está rolando e contar que isso é uma decisão editorial importante.

Quando AzMina começou, lá em 2015, nós da equipe entendíamos a enorme necessidade de um jornalismo que fosse declaradamente feminista, que se posicionasse contra o machismo da sociedade e da mídia. Na época, isso significava para nós abordar com cuidado e responsabilidade, mas sem tabus, as diversas opressões que afetavam as vidas das mulheres brasileiras – fossem elas cis ou trans e de qualquer orientação sexual, incluindo as demandas das mais diversas mulheridades. 

O feminismo da Revista AzMina sempre foi interseccional. Isso quer dizer, bem resumidamente, que não partimos do pressuposto de que “mulher” contém uma categoria única de pessoas, mas sim diversos grupos, que enfrentam opressões variadas (além de gênero, de raça, classe e orientação sexual) e que precisam ser combatidas de muitas maneiras. No Brasil, por exemplo, jamais poderemos dizer que mulheres brancas e negras têm exatamente as mesmas questões, né? 

Bem, seis anos se passaram desde a nossa primeira reportagem. E nesse tempo, muita coisa mudou e nós aprendemos muito. Nos últimos tempos, tivemos que refletir algumas questões sobre as quais não pensamos lá atrás. Será que o nosso feminismo que abordava apenas mulheres estava sendo inclusivo? E as pessoas não-binárias? E os homens trans? 

Sim, acreditamos que o nosso feminismo inclui homens trans, transmasculinos e pessoas não-binárias. 

Mas ora, ao deixar de falar somente de “mulheres”, não estaríamos negando as opressões de gênero que mulheres cis sofreram historicamente? Não seria isso um apagamento?

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Não, e explico. É inegável que mulheres cisgênero sofreram e sofrem inúmeras opressões por terem nascido com útero, ovário e vulva. É impossível falar em feminismo sem falar sobre todas as questões ligadas à reprodução e as demais violências que a sociedade relaciona a ela, como a do estupro, da violência doméstica, da esterilização forçada, do casamento infantil, da sobrecarga das tarefas de cuidado, da falta de autonomia reprodutiva, do apagamento da sexualidade, etc. 

Mas isso não exclui também outras vivências e para abordar esses temas também não precisamos negar as identidades de tantos outros grupos que não se identificam como mulheres cisgênero.  

Além das mulheres cis, existem outras pessoas com útero, que menstruam, que engravidam e que passam por algumas dessas opressões, como homens trans ou pessoas não-binárias. Assim como existem mulheres que não passam por essas questões ligadas à reprodução. 

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Muitas pessoas não se identificam como mulheres, mas sofrem com o machismo e a violência de gênero. E nós da Revista AzMina acreditamos que o nosso feminismo, que se reflete na nossa linha editorial e em tudo que fazemos, deve ser pensado para combater toda violência de gênero. No fim das contas, é a divisão da sociedade em dois grupos – homens e mulheres – e é a definição de papéis e de poder a partir desses grupos que dá origem tanto à opressão das mulheres cis, quanto de pessoas trans. Sem esquecer que toda essa conversa precisa vir sempre acompanhada do recorte racial e de classes, né? 

Então, incluir em nossa cobertura e na nossa linguagem toda a diversidade de pessoas que se identificam como mulheres e também pessoas que enfrentam opressões por menstruarem ou engravidarem é essencial para que nosso jornalismo seja verdadeiramente inclusivo. E isso, de forma alguma, exclui ou invisibiliza as questões das mulheres cis, só soma. Jamais negaremos toda a violência que atinge toda pessoa que nasce com vulva. 

E o que muda na prática?

Pouco muda em relação ao que você já tem visto no nosso conteúdo. Mas reforçamos aqui nosso compromisso com uma cobertura cada vez mais inclusiva, com esforço para visibilizar as questões de toda a multiplicidade de existências abarcadas por essa nossa visão de feminismo. 

Isso aparece nas nossas pautas, como a matéria desta semana sobre câncer de mama e pessoas trans ou o vídeo sobre linguagem neutra que publicaremos na sexta. Mas também como recorte em tudo que fizermos daqui pra frente. Assim como há anos a perspectiva racial passa por tudo que fazemos, agora esse olhar de identidade de gênero para além das mulheres também passará. Isso inclui quem produz e faz AzMina: queremos pessoas trans e não-binárias na nossa equipe, fixa e de frilas. As vagas são divulgadas nas nossas newsletters e redes sociais, e para enviar sugestões de reportagens como frilas, aqui tem o caminho.

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Tudo se reflete, por fim, na linguagem. Adotaremos a mais neutra possível sempre. Ainda é algo em construção, não há regras definidas, mas há muita gente pensando e estudando. E estamos acompanhando esse movimento. Com certeza, de hoje em diante, vamos sempre pensar se “mulher” é mesmo a palavra correta para o que queremos falar ou se o melhor seria, por exemplo, “pessoas que menstruam”. 

Isso não quer dizer, necessariamente, usar palavras com o final “e”, tampouco  que não o faremos. Como disse, isso ainda está em construção. 

Considerando que somos profissionais de comunicação com trajetórias construídas na binariedade do português por muitos anos, sabemos que será um desafio, de constante reflexão e, muito provavelmente, alguns erros. Mas estamos nos propondo a encará-lo. 

Imaginamos que muita gente vai discordar dessa nossa posição e estamos aqui para dialogar. Mas por favor, pedimos que isso aconteça na base do diálogo e não da violência. 

Lá atrás, em 2015, quando AzMina surgiu, dissemos que queríamos trabalhar para construir um mundo onde nenhuma pessoa encarasse mais dificuldades por ser mulher. Hoje, entendemos que, no mundo que queremos construir, dificuldades ou vantagens não serão baseados no gênero das pessoas, seja ele qual for. 

Helena é jornalista formada pela USP e com pós-graduação em roteiro pela FAAP. Já atuou em diversos veículos, como UOL, M de Mulher, Veja São Paulo e a Revista Sou Mais Eu. Especializada em cobertura de gênero, direitos humanos, diversidade e sexualidade, é editora chefe da Revista AzMina e também escreve a coluna quinzenal sobre sexo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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Desde 2015, AzMina está do lado das mulheres e da luta pelos nossos direitos. E, ao nosso lado, nós tivemos muitas leitoras e leitores, que financiam o nosso trabalho e acreditam que jornalismo feminista deve chegar a todos. Graças aos nossos apoiadores, impactamos a vida de milhares de mulheres e produzimos cada vez mais conteúdos e projetos. Nossas reportagens, vídeos, podcasts, campanhas de conscientização e projetos como o PenhaS e o Elas no Congresso são totalmente gratuitos.

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