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19 de fevereiro de 2020

Quando o assediador é o presidente da República

Bolsonaro insultou repórter da Folha de S.Paulo com insinuação sexual
 Jair Bolsonaro insultou a repórter Patricia Campos Melo com insinuações sexuais
O presidente Jair Bolsonaro insultou a repórter Patrícia Campos Melo com insinuações sexuais

A jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo, é alvo hoje da velha ferramenta usada pelo machismo para desqualificar uma mulher: colocar a sua moral em dúvida. Patrícia fez apenas o seu trabalho: investigou e reportou fatos. Como eles não eram favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, eles saíram em ataque direto à pessoa da jornalista

São atos e falas absurdos e muito simbólicos do que temos hoje no país: um governo e instituições que não respeitam nem a imprensa, nem as mulheres.

No fim das contas, o ataque a Patrícia é um ataque a cada uma de nós jornalistas mulheres. 

Ataques à imprensa e às mulheres não são novidade nesse governo. Mas o nível de absurdo não para de escalar. É aterrador que, em pleno 2020, um presidente da República acha que é aceitável agredir moralmente uma profissional para desqualificá-la. Aqueles que se sentiram ameaçados pelo trabalho de Patrícia não foram atrás de desmentir suas reportagens ou apresentar provas de que estão certos. Não. Recorreram ao velho recurso de desqualificá-la como “mulher de bem”. 

Essa atitude não é nenhuma forma inovadora de se atacar uma mulher. Historicamente, quando se quer desqualificar a atuação de uma profissional, não é seu trabalho que se torna alvo de críticas ou análises, mas sim sua moral. O mesmo não acontece com homens. Quem nunca ouviu falas sobre alguma mulher “ter dado” para o chefe para conseguir uma promoção? É a mesma ferramenta de assédio moral que visa não só desqualificar a profissional, mas colocá-la no lugar de “vadia” ou da mulher que não é digna de respeito, e assim diminuir o valor daquilo que ela faz e diz. 

O caso de Patrícia ganha contornos ainda mais preocupantes pelo fato dela ser jornalista e pelo histórico dos ataques que já sofreu. Depois de publicar reportagem denunciando caixa 2 na campanha do presidente em 2018, ela sofreu ataques nas redes sociais e foi alvo de uma ação movida por Bolsonaro contra a Folha de S. Paulo e a repórter – ação rejeitada pelo Tribunal Superior Eleitoral em setembro de 2018. 

A ação foi uma tentativa institucional de intimidação contra a jornalista, ferramenta também comum usada pelo atual governo para tentar censurar a imprensa, como aconteceu com a Revista AzMina em 2019, quando a ministra Damares pediu abertura de investigação por conta de uma reportagem sobre aborto seguro. 

Como o uso dos meios institucionais não funcionou como forma de intimidação contra Patrícia Campos Mello, partiu-se para o uso do machismo e do assédio moral como ferramentas para causar medo. 

Nós mulheres sempre vivemos com medo de que nossos corpos e nossas sexualidades sejam usadas contra nós no ambiente profissional. Não é à toa que mulheres que chegam a posições de poder, historicamente, tendem a se “masculinizar”, assumindo roupas e comportamentos considerados mais masculinos, para evitar essas questões. Mas isso é insuficiente, porque a maior parte desses ataques não tem a ver com a realidade ou os fatos, mas se baseia no mais puro machismo. 

Os envolvidos em um escândalo mentem, colocam um falso comportamento sexual da jornalista sob os holofotes, e tiram o foco daquilo que devia ser relevante: as denúncias investigadas pela CPMI das Fake News – notícias falsas essas que influenciaram as últimas eleições.

E assim vão testando os limites de Patrícia: até onde ela aguenta? A repórter sofreu um ataque mentiroso (existem provas mostrando que o próprio depoente – Hans River do Rios Nascimento – a convidou para sair com ele) durante um depoimento dado no Congresso, que foi repercutido pelo filho do presidente, que é Senador, e depois pelo próprio presidente, gerando também uma série de ataques virtuais. Tudo isso pouco mais de um ano depois de outra onda de ataques e uma ação na Justiça. Agora a repórter vive sob a ameaça do que pode vir a seguir, da proporção que os próximos ataques podem tomar, enquanto precisa gastar seu tempo e energia provando que tudo que foi dito sobre ela era calúnia. 

A equipe da Revista AzMina se solidariza com Patrícia Campos Mello e repudia os ataques que ela vem sofrendo. Ser jornalista no Brasil atual é complicado. Ser mulher no Brasil atual é complicado. Ser os dois é desgastante e o que Patrícia está vivendo mostra o quanto é urgente que algo seja feito para responsabilizar os políticos brasileiros. Afinal, qual é o exemplo que está ficando para a população quando o presidente – a principal figura de Estado que deve trabalhar por uma sociedade sem violência e igualitária – comete assédio abertamente e nada acontece? 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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