
Quando falamos de visibilidade trans, a gente costuma ver muito material sobre sofrimento. Só que hoje, Dia da Visibilidade Trans de 2026, vai ser diferente. A Código Não Binário, AzMina, o IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) e a FONATRANS (Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros) decidiram contra-atacar.
Nós processamos a Meta, o X, o Google (dono do YouTube) e a Bytedance (dona do TikTok) pela omissão na proteção das pessoas comunicadoras LGBTQIA+ nas redes sociais. No processo pedimos, além de mais transparência, a reforma dos algoritmos, canais de denúncia e R$100 milhões de indenização por danos morais coletivos, para tentar reverter parte do estrago que causam à nossa população no Brasil.
Lançar esse contra-ataque no Dia da Visibilidade Trans pra nós é muito importante e simbólico. Em maio de 2024, o Podcast LGBTQIA+ Entre Amigues, da Código Não Binário, foi alvo de uma onda massiva de ataques online depois de levar para as redes uma introdução do termo Boyceta.
Criado numa batalha de rima entre pessoas dissidentes de gênero no centro de São Paulo por Roberto Inácio — uma pessoa transmasculina nortista —, o termo Boyceta representa uma ruptura nas normas coloniais de gênero. A palavra nomeia experiências e corpos transmasculinos que rejeitam a categoria homem trans mas não rejeitam suas genitálias. São sim boys com buceta.
Caru de Paula, Fabian Algarte e Ian Habib contam essa história muito potente no episódio especial Boyceta do Entre Amigues, que colocamos no ar logo depois do nosso podcast e o entrevistado Jupi77er serem alvo de dezenas de milhares de conteúdos e comentários irônicos, hostis e transfóbicos.
Um podcast estreante que achou um algoz no TikTok
A gente não esperava nada disso. Éramos um podcast estreante, pouco conhecido, mas que descobriu no algoritmo do TikTok seu primeiro algoz. A rede impulsionou deliberadamente o conteúdo para milhões de pessoas – sem qualquer controle sobre os comentários odiosos. E o deputado federal Nikolas Ferreira fez um react ao corte com a palavra boyceta, inaugurando um período muito difícil das nossas vidas.
Nikolas não falou praticamente nada no vídeo. Mas seus mais de 20 milhões de seguidores entenderam que um corpo transmasculino, gordo, periférico e feliz seria digno de risada e chacota. A partir deste momento, milhares de reacts parecidos pipocaram em todas as redes — e nem todo mundo teve o cuidado juridicamente calculado de não dizer nada.
Youtubers de extrema-direita gastaram vídeos inteiros de 30, 40 minutos, dissecando cada trecho do episódio, as imagens e identidades de Jupi77er e de nós duas, Veronyka e Amanda. Incluíram também vídeos e cortes de episódios com outras pessoas entrevistadas.
Milhares deles vieram nos nossos canais comentar, rir, diminuir, desumanizar, tratar como doentes, desejar a morte — nossa e de todas as pessoas LGBTQIA+. Até gente da própria “comunidade” ficou contra nós, dizendo que estávamos indo longe demais “inventando palavras chulas” e atrapalhando os grandes esforços deles de serem aceitos pela cisgeneridade.
Não foi fácil. Mudou nossas relações com as redes sociais, afetou gravemente nossa saúde mental, mudou a direção do nosso ativismo. Recebemos apoio de lideranças históricas da comunidade LGBTQIA+ (sendo a co-deputada estadual Carolina Iara uma das primeiras a se pronunciarem), buscamos apoio emergencial filantrópico e nos coletivos e ativistas LGBTQIA+ e dos direitos digitais no Brasil e fora dele. Precisamos nos proteger, nos curar, nos fortalecer – de maneira jurídica, tecnológica e psicológica, e organizamos nossa raiva!
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Anatomia de onda de ódio: um relato dos danos e reações aos ataques
O relatório Anatomia de Onda de Ódio conta todo o nosso processo de entender o tamanho dessa onda, os vídeos mais violentos e como as redes falharam em nos proteger. Denunciamos 98 conteúdos de grande alcance feitos com as imagens do nosso podcast para nos ridicularizar, xingar e diminuir e denunciamos às plataformas — tanto por discurso de ódio quanto por violação a direitos autorais.
O padrão de resposta foi assustador: apenas 8% das denúncias por discurso de ódio foram acatadas e resultaram em remoção dos conteúdos, nas denúncias por direito autoral, removeram 56% — o que demonstra uma preferência pelo direito de propriedade sobre a dignidade humana. O YouTube, por exemplo, não removeu nenhum vídeo denunciado por discurso de ódio.
Precisávamos analisar 12 mil comentários deixados nas postagens do Entre Amigues em 3 redes sociais. No YouTube, mais de 80% dos comentários eram hostis, no TikTok mais de 70%. Essa análise só foi possível porque usamos programação para raspar os nossos dados, o que as redes sociais sequer oferecem, criando o primeiro conjunto de dados abertos de ódio anti-LGBTQIA+ em português.
Depois nos deparamos com um problema: quem poderia encarar essa experiência terrível de ler milhares de comentários nojentos e odiosos? Decidimos treinar um modelo de Inteligência Artificial para fazer o trabalho ao invés de expor mais pessoas da nossa comunidade (as únicas capazes de entender esse tipo de ódio) a esse sofrimento.
Inteligência artificial para identificar discurso de ódio contra pessoas LGBTQIA+
Assim nasceu a TybyrIA, o primeiro modelo de IA em português brasileiro para identificar discurso de ódio contra pessoas LGBTQIA+. O nome homenageia Tybyra do Maranhão, primeira pessoa vítima oficial de LGBTfobia no Brasil, durante a colonização do nosso território.
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TybyrIA vem pra lembrar que tecnologia não precisa repetir colonialismo digital: é uma tecnologia totalmente aberta e gratuita, com código, modelo, dataset e metodologia públicos. Nossa IA prova que modelos pequenos e especializados (SLM), que não têm o mesmo impacto ambiental dos grandes modelos (LLM), podem substituir os famosos serviços de IA (como o ChatGPT) em tarefas específicas.
Mostra também que tecnologia pode sim ser comunitária, feita por e para as comunidades mais vulnerabilizadas e orientada à transformação e criação de um mundo melhor.
O caso do Entre Amigues é apenas um entre os inúmeros dados de violência digital e discurso de ódio contra pessoas LGBTQIA+ nas redes sociais que nós juntamos pra ir atrás de quem permite que isso tudo aconteça. A Ação Civil Pública questiona o modelo e a arquitetura de lucro das plataformas e mostra que a moderação de conteúdo é seletiva e baseada em interesses comerciais.
Mudanças reduziram drasticamente a proatividade da moderação
O Centro de Combate ao Ódio Digital demonstrou em 2024 que 97% das ações de moderação da Meta eram proativas até 2024. Com as mudanças anunciadas pela plataforma naquele vídeo do Zuckerberg ano passado, esse percentual caiu drasticamente, afetando potencialmente 277 milhões de conteúdos de ódio.
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A análise técnica demonstra que algoritmos são projetados para permitir conteúdo que gera engajamento mesmo que ele seja de ódio, e que plataformas se beneficiam economicamente destes conteúdos através de impulsionamento e monetização. Além disso, evidencia que removeram coordenadamente proteções específicas contra LGBTfobia de suas políticas, permitindo patologização e discriminação.
O Brasil lidera o ranking de mensagens de ódio contra a comunidade LGBTQIAPN+ no X (37,67%). Uma pesquisa brasileira de 2024 com pessoas da comunidade indica que 93,9% delas já tiveram contato com discurso de ódio online ou desinformação.
Ação contra Meta, X, Google e TikTok
Nossa ação exige que as empresas sejam condenadas a elaborar e seguir um Plano de Devida Diligência em Direitos Humanos específico para a população LGBTQIA+. Um documento que inclua a revisão de algoritmos que amplificam ódio, canais de denúncia dedicados, transparência via relatórios semestrais públicos, auditoria independente e parcerias com sociedade civil.
Queremos visibilidade não apenas sobre a violência que sofremos, mas sobre a nossa capacidade de criar soluções civilizatórias corajosas e inovadoras, com tecnologia de ponta, produção de dados e na liderança de processos de regulação. Quem melhor para falar da violência digital e propor soluções do que as pessoas que estão todos os dias sendo atacadas?
*Revisão de texto com uso de IA
