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16 de setembro de 2025

Solidão feminina nas cidades: como criar vínculos em um mundo que nos isola

Espaços públicos e coletivos, como parques e centros culturais, têm papel central na saúde e senso de pertencimento. Como fazer as mulheres chegarem?

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A imagem mostra uma colagem de uma mulher sentada com os joelhos abraçados dentro de uma bolha transparente gigante. A bolha está posicionada no meio de uma rua de cidade com prédios altos ao fundo, sugerindo isolamento.

Acordar muito cedo, tomar um café rapidinho, passar horas no sistema de transporte até chegar ao trabalho. Dedicar grande parte do dia ali, depois demorar mais algumas horas pra voltar pra casa, para chegar e continuar a jornada cuidando da família. Se identificou? Você não está sozinha nessa. 

Um estudo realizado pelo Instituto Ipsos, encomendado pelo Nubank em 2024, mostrou que os brasileiros têm, em toda a sua vida adulta, apenas 26% do tempo livre. Para as mulheres, sobra ainda menos por estarem sobrecarregadas com múltiplas jornadas. Sob efeito da exaustão, fica difícil ter vontade de sair, circular, interagir e estabelecer novas conexões. O que resta é ficar sozinha em casa.

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Só que a solidão não é apenas um sentimento subjetivo. A OMS estima que 871 mil pessoas morram todos os anos em decorrência dela. Isso porque o isolamento aumenta o risco de doenças cardiovasculares, compromete o sistema imunológico e eleva as chances de hipertensão. É uma questão de saúde pública e, no Brasil, ao contrário de outros países do globo, as mulheres se sentem muito mais solitárias do que os homens. 

Um guia para a reconexão

No comecinho de agosto, lançamos, em parceria com a agência de pesquisa e comunicação 65|10, o G.P.S.: Guia Para Socializar. Nesse levantamento inédito, criamos um mapa emocional que conduz a leitora por paisagens simbólicas, que as desafiam no dia a dia, como o Vale da Solidão, o Monte da Insegurança e o Lago do Medo. Depois de atravessar esse labirinto todo, o destino final é uma cidade onde a presença feminina no espaço público cria vínculos e combate o isolamento por meio das comunidades. São nelas que a gente consegue sentir no corpo os efeitos revolucionários de pertencer.

Juliane Borsa, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental de mulheres, foi uma das nossas guias no G.P.S. Ela contou que o pertencimento é uma necessidade psicológica básica de todo e qualquer ser humano, peça-chave para evitar o senso de exclusão. Para Juliane, experiências coletivas atuam como zonas temporárias de reconexão com os outros e consigo mesma. É a partir desse encontro que elaboramos vivências. 

Conversar com Juliane nos lembrou de um conceito criado no fim dos anos 1980 e que voltou a pipocar nas redes sociais: os “terceiros lugares”. 

Leia Mais: A rua como antídoto para a solidão


O terceiro lugar das mulheres

Ray Oldenburg, sociólogo estadunidense, foi quem escreveu primeiro sobre isso, no livro “The Great Good Place”, publicado em 1989. O “terceiro lugar” nasce com a separação do lugar em que moramos (primeiro) do lugar onde trabalhamos (segundo). Com essa mudança, os espaços dedicados a reunir gente para conversas e diversão passaram a ter uma função social muito relevante.

Ray fez uma listinha com as características desses “terceiros lugares”: as pessoas podem entrar e sair livremente dele; o status social, a classe ou a profissão importam pouco, todes são bem-vindes; o diálogo é mais importante do que o consumo e o espaço precisa ser acessível, conveniente e acolhedor. Além disso, ajuda a criar identidade. É onde você pode se sentir você mesma, sem as máscaras que às vezes precisamos colocar no trabalho, por exemplo.

Quando desenvolveu a ideia, o sociólogo se referia a cafés, bares, clubes e bibliotecas. A distração era o objetivo. No entanto, é importante lembrar que esses espaços nunca foram igualmente acessíveis a todos: fatores como classe social, gênero, raça e território sempre influenciaram quem podia frequentá-los e se sentir pertencente. De lá pra cá, o acesso à internet foi democratizado, enfrentamos uma pandemia e o isolamento físico que se impôs deixou marcas profundas na maneira como nos conectamos com a rua e com o outro. 

A solidão foi declarada como epidemia global e ter espaços de convivência verdadeiramente inclusivos, onde é possível integrar diversas comunidades e fortalecer vínculos, se tornou essencial para a saúde física, mental e social. 

Para as mulheres de hoje, o “terceiro lugar” equivale a comunidades que funcionam como redes de apoio e pertencimento. São espaços que abrem as portas para a convivência, onde a troca cotidiana fortalece vínculos e cria conexões capazes de sustentar a vida coletiva.

Leia Mais: ‘Vai sozinha?’: perrengues que a mulher passa quando sai só


O paradoxo da rua

É inegável que as trocas com outras mulheres se estabelecem por meio da internet. Para muitas, é no digital que acontece o primeiro passo para se conectar com grupos de interesse. E para quem tem problemas de saúde física ou mental, ela pode ser o único ponto de conexão. No entanto, a presença física é feita de gestos, olhares, toques e sons que produzem um tipo de afeto e de empatia que o virtual não consegue acessar totalmente.

Para além das condições psicossociais e físicas, as condições urbanas são fatores limitadores da nossa circulação no espaço público. Ruas mal iluminadas, transporte precário, medo da violência e desigualdades de classe e raça criam barreiras para muitas mulheres poderem usufruir da cidade. Quantas vezes a gente deixa de participar de um encontro porque o trajeto é perigoso? Quantas de nós ficam de fora porque o custo do ir e vir é inviável?

É justamente nesse ponto que aparece o paradoxo: a rua pode ser lugar de risco, mas é também onde as comunidades se materializam. Criar vínculos, portanto, exige que a gente elabore estratégias para driblar o medo e o perigo, cobre o poder público por melhorias e ocupe a rua do jeito que der, mesmo que ela não esteja pronta para nos receber. Isso passa por observar espaços ao redor com potencial de receber encontros, como uma sala emprestada na escola pública perto de casa ou a autogestão coletiva de uma praça, por exemplo.

Leia Mais: O direito à amizade feminina 

Como encontrar minha turma?

Descobrir qual é esse seu espaço de conforto passa também pelas pessoas que o frequentam. Podemos começar pelas amigas que já temos ou alguém da família. Comunidades também surgem de interesses em comum com pessoas desconhecidas, como livros, esportes, atividades manuais. Já pensou em quantas conversas simples começam a partir disso?

Se a vontade para interagir estiver baixa, festas de rua, encontros maiores em centros culturais e eventos no bairro valem como um começo nessa investigação para encontrar um grupo. São experiências informais de convivência e dá para participar sem gerar grandes expectativas. O simples fato de ser vista pode ser a fagulha para seguir adiante.

Esses passos individuais, no entanto, se conectam a uma dimensão coletiva: sob a ótica das mulheres, os terceiros lugares não são apenas territórios de lazer, mas de solidariedade. Pertencer é um direito urbano. Para exercê-lo, o poder público precisa nos garantir espaços acessíveis e seguros, mas nós podemos também dar o primeiro passo. Preparada?

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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