logo AzMina

Mulheres com deficiência têm sexualidade sim!

por Leandra Migotto Certeza
23 de outubro de 2019
Em pleno século 21 ainda somos infantilizadas, ignoradas, discriminadas e não temos acesso à saúde sexual, por meio de exames preventivos e consultas
sexualidade
Foto de Vera Albuquerque para o Projeto Fantasias Caleidoscópicas.
Descrição da imagem: foto integrante de um ensaio em preto e branco. Leandra está com roupa de renda preta sensual e transparente deitada sob um fundo cinza, parecendo flutuar. Virada de lado e com um olhar sedutor, tem os pés suspensos no ar, com um leve toque de ‘ingenuidade’. 

Segundo o IBGE (2010), 25 milhões de brasileiras possuem alguma deficiência, seja física, intelectual (síndrome de Down entre outras), visual, auditiva, múltipla (união de duas ou mais deficiências), mental (problemas psíquicos) ou surdocegueira (deficiência única que apresenta cegueira e surdez). A maioria destas mulheres é infantilizada, protegida e cuidada de forma assistencialista, sem autonomia, acessibilidade e respeito às suas particularidades e necessidades.

Ainda há uma visão extremamente preconceituosa e limitada da sexualidade da mulher com deficiência, como se ela fosse desprovida do direito de usufruir uma vida plena em todos os sentidos.    

Eu sempre fui vaidosa mesmo em meio a gessos, dores, formas contorcidas, e falta de pernas. Em meio a uma sociedade impregnada de supostos “valores morais”, infestada de pré-conceitos sobre o que é “certo” e o que é “errado”, apenas fui eu mesma, sem medo de ser FELIZ.

Mas com o passar do tempo comecei a ter vergonha de assumir que eu me amava. Pensava: o que as pessoas vão dizer? Sei que não sou mais criança (há muito tempo toquei meu corpo e senti vida pulsando!), mas ainda tenho tamanho de uma. E me tratam como se fosse…  Sexo? Eu? Como? Não posso, mas quero. Quero tanto! Minha ‘mãe’ (interior?) dizia que eu ficava feia de saia. Meu ‘pai’ (interior?) não queria que eu usasse batom. 

Quando eu tinha 14 anos, tinha vergonha de me mostrar como era: uma menina que estava desabrochando. Seios que cresciam em meu pequeno corpo, quadris que se alargavam junto as minhas curtas pernas, pêlos que apareciam em lugares ‘proibidos’, e principalmente a grande vontade de beijar na boca! Então, por que temia tanto mostrar a todos que gostava de mim mesma sendo diferente delas? Não sei… Até hoje me pergunto, porque sofri tanto me preocupando com a opinião dos outros, se no fundo eu me gostava… Mas como também dizem os especialistas, só construirmos nossa imagem pelos olhar dos outros.

Leia mais: Quais mulheres cabem no seu feminismo?

Dei meu primeiro beijo na boca só aos 21 anos. Antes os meninos riam de mim. Não se aproximavam, e sempre se afastaram das minhas investidas. Cheguei a ouvir que eu era uma ‘aberração da natureza’. E o terrível e doloroso sentimento de inferioridade continuou me perseguindo… Procurei ajuda psicológica e descobri que não havia nada de errado em gostar de mim mesma como eu era.

Eu sei que nasci em uma sociedade que só valoriza o equilíbrio, a beleza perfeita, o linear, a sincronia, a coerência, a igualdade das formas que não existe nesse Planeta! Mas para mim a beleza é a forma CALEIDOSCÓPICA que TODAS as pessoas têm. Todos os seres humanos são DIFERENTES. Todos sem exceção! 

O mais difícil foi mostrar para minha família e amigos que eu cresci. Que não era criança e nem assexuada. Quando comecei a namorar o meu atual marido ouvi comentários terríveis que me fizeram rasgar por dentro. As pessoas que eu mais amo na vida não acreditavam que eu pudesse ser, simplesmente, FELIZ.

Por que será que os pais de pessoas com deficiência não aceitam que seus filhos têm sexualidade? Por que será que é tão doloroso para eles assumirem que seus filhos podem ser felizes se realizando na cama (no sofá, no chão, na escada, no elevador, no…) com seus corpos, simplesmente, diferentes? Espero que um dia, todos aprendam que a simetria e a perfeição foram conceitos criados por eles mesmos, e, portanto, podem ser destruídos a qualquer momento! 

Leia mais: Por que tantas mulheres odeiam suas vaginas?

Porém, estamos muito longe disso. Para Márcia Góri, mulher com deficiência física e fundadora da ONG Essas Mulheres, a violência contra as mulheres com deficiência começa nos atendimentos dos profissionais de saúde. Em entrevista à Revista Reação, ela afirmou que em 90% dos casos, os profissionais de saúde estão completamente despreparados para as demandas dessas mulheres.

Vitória Bernardes, mulher com deficiência ativista integrante do Coletivo Feminista Helen Keller, também aponta o despreparo dos profissionais de saúde: para ela ser mulher com deficiência, especialmente se for congênita, é ter seu corpo manipulado desde muito cedo por médicos, fisioterapeutas, cuidadores, familiares. Vitória comenta, na página do Coletivo em redes sociais, que isso acontece antes mesmo destas mulheres serem ensinadas sobre consentimentos, limites, violências, discriminações e crimes. 

Minha experiência na ginecologista

Aos 18 anos, fui obrigada a ir há uma ginecologista da família. Uma mulher amarga, estúpida e totalmente antiética que enfiou um livro de anatomia na minha cara e me tratou como criança. Proibiu de eu ter relações sexuais, e ainda afirmou – olhando nos meus olhos e apontando o dedo para o meu nariz – que eu não poderia fazer NADA com meu corpo sem antes falar para alguém da minha família.

A péssima profissional ainda teve a cara de pau de perguntar se eu já tinha namorado um garoto. Quis saber, em detalhes, tudo o que eu tinha feito com ele. Obrigou-me a contar tudo. Coagiu-me. Não respondeu nenhuma pergunta que fiz. Não esclareceu nenhuma dúvida. Não me informou sobre os métodos contraceptivos e os que evitam doenças sexualmente transmissíveis. E o pior de tudo, nem quis me examinar para saber se eu tinha alguma doença. Saí de lá muito assustada, frustrada e com medo. Não desejo ao pior inimigo o que passei naquele consultório. Infelizmente, eu nunca vou esquecer.

O que eu passei na década de 90 ainda acontece hoje. Deborah Prates – única pessoa com deficiência visual a compor o Instituto dos Advogados Brasileiros em 173 anos de existência – relatou na internet um caso bastante emblemático. Uma parturiente surda deu a luz a um bebê e não sabia que estava grávida de gêmeos. Após o nascimento da primeira criança, por ignorância da equipe médica, que não conseguiu comunicar-se com ela em Língua Brasileira de Sinais, a segunda criança acabou morrendo.

Leia mais: Como é feito um aborto seguro?

Ainda bem que depois do que aconteceu comigo eu busquei outros profissionais de saúde para fazer meus exames preventivos. Pois as chances de uma mulher com deficiência ter câncer de mama, por exemplo, são as mesmas do que qualquer mulher. O grande problema é que a lei ainda não é cumprida, pois existe uma enorme falta de capacitação de profissionais e de adaptação de equipamentos para mulheres com deficiência. 

A lei 11.664, de 2008, garante a todas as mulheres o direito a assistência integral à saúde, incluindo o acesso aos exames citológico do colo uterino e a mamografia. No entanto, a maioria dos serviços de saúde não conta com recursos humanos capacitados para lidar com as especificidades das mulheres com deficiência, nem com estrutura física e equipamentos adequados que garantam acesso aos exames de saúde. 

A Lei 13.326, aprovada em 2016 (que atualiza a lei de 2008), assegura o acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento dos cânceres de mama e colo de útero no SUS (Sistema Único de Saúde) a todas as brasileiras. Segundo o Artigo 2: § 2º Às mulheres com deficiência serão garantidos as condições e os equipamentos adequados que lhes assegurem o atendimento previsto no caput e no § 1º.

Leia mais: Ginecologia natural: autonomia e autoconhecimento

Porém, para que a legislação saia do papel, os hospitais terão que treinar as pessoas encarregadas de operar os aparelhos, para garantir a acessibilidade das pacientes, e as salas de exames de imagem também devem ser equipadas com rampas de acesso, intérprete da Língua Brasileira de Sinais e cadeiras adequadas para quem tem deficiência física, segundo o médico Raphael Haikel Júnior, diretor do Hospital do Câncer de Barretos (SP), em entrevista ao portal da Câmara dos Deputados. 

O que você precisa saber sobre a sexualidade de mulheres com deficiência

Quando eu me tornei adulta, consegui pensar sobre tudo o que aconteceu comigo, e resolvi tomar as rédeas da minha vida sexual de uma vez por todas! Mas como, infelizmente, muitas outras mulheres com deficiência ainda passam por situações terrivelmente humilhantes como a que eu passei, me sinto na obrigação de alertar a sociedade que:

  • Mulheres com deficiência NÃO são assexuadas e não devem ser infantilizadas, pois têm sentimentos, desejos, direitos e necessidades sexuais iguais às mulheres sem deficiência.  
  • Mulheres com deficiência (principalmente as com deficiência intelectual) NÃO são hiper-sexuadas, com desejos sempre incontroláveis e exacerbados; 
  • Mulheres com deficiência (principalmente as com deficiência física) NÃO têm disfunções sexuais relacionadas ao desejo, à excitação e ao orgasmo;
  • Mulheres com deficiência têm o DIREITO de escolherem se irão ou não gerar ou adotar filhos com ou sem deficiência;
  • Mulheres com deficiência têm direito a todos os exames preventivos e consultas médicas com acessibilidade física e comunicacional;
  • Mulheres com deficiência têm o TOTAL direito de realizar fantasias sexuais com pessoas sem deficiência que possuem desejo específico por sua deficiência (chamadas de devotes);
  • Mulheres com deficiência NÃO PODEM SER CRIMINALMENTE esterilizadas (principalmente as que possuem deficiência intelectual e/ou mental);
  • Mulheres com deficiência têm direito a viverem plenamente em sociedade com suas identidades de gênero, LGBTIQ+, sem qualquer tipo de discriminação ou preconceito;
  • Mulheres com deficiência têm o TOTAL direito de viver sua sexualidade somente por prazer, sem o objetivo de reprodução; 
  • Mulheres com deficiência têm o TOTAL direito de realizar quaisquer fantasias sexuais, se masturbarem e manterem relacionamentos sexuais somente por prazer com o apoio de terapeutas especializados e/ou profissionais do sexo. E isto NÃO DEVE NUNCA SER considerado pecado, ou ser julgado por outras questões morais. Na Alemanha, Holanda, Dinamarca, Suíça, Áustria, Itália e Espanha os terapeutas sexuais trabalham livremente. No Brasil, infelizmente, ainda não é uma realidade.
Leia mais: O que falta em uma mulher com deficiência?

Para saber mais sobre o tema:  

  • O Projeto Vozes Femininas para a criação de uma comunidade informada, potente, capacitada e confiante de líderes femininas
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher