- Perfis masculinistas no X publicam conteúdos de apologia ao estupro e à pedofilia, tratando crimes sexuais como “piadas” e frequentemente permanecendo impunes, apesar das denúncias;
- Comunidades online abrigam esses perfis que misturam misoginia com conteúdo neonazista e racista, promovendo a ideia de superioridade masculina e incitação à violência contra mulheres;
- O X falha em remover os conteúdos denunciados, permitindo a exposição de adolescentes a conteúdos de abuso, apesar das políticas da plataforma contra pornografia infantil e abuso sexual.
*Atenção: Esse texto possui algumas descrições de perfis violentos que podem provocar gatilhos.
No dia 8 de outubro, por volta das 19h, o perfil do X “Mulher para mim é depósito” publicou uma música em que ameaça estuprar uma usuária da plataforma. O vídeo exibe a foto de perfil da vítima ao fundo, cita a faculdade onde ela estuda e diz que a pessoa por trás do perfil irá até lá para estuprá-la e matá-la. A postagem foi denunciada, mas, até a publicação desta reportagem, o vídeo continuava disponível na plataforma e tinha mais de 3.100 visualizações.
Esse tipo de postagem não é exceção; o perfil citado é apenas um entre centenas de contas anônimas da rede social X (antigo Twitter) que publicam conteúdos de incentivo à violência sexual contra mulheres e crianças. A página faz parte da chamada “bolha da resenha”, um grupo masculinista organizado na plataforma. Entre outros discursos de ódio, os membros da “bolha” fazem publicações de apologia ao estupro e à pedofilia.
Durante 15 dias, a reportagem d’AzMina mapeou e acompanhou diversos perfis desse grupo. As contas fazem postagens que podem ser enquadradas como diversos crimes, que vão de apologia ao estupro a ameaça e pornografia infantil, mas tratam os conteúdos como se fossem somente piadas e memes. Ao investigar seguidores e páginas seguidas, também encontramos diversos perfis que se dedicam unicamente a descrever situações de abuso sexual.
Nosso mapeamento na rede encontrou e registrou 256 posts que tratam de violência sexual como “piada”, fazem ameaças ou descrições que fetichizam os crimes de estupro, abuso sexual e pedofilia. Apesar de denúncias de usuárias, os perfis e posts raramente são retirados do ar pela plataforma.
Comunidades abertas reúnem perfis masculinistas
Os perfis que fazem esse tipo de post estão concentrados principalmente em três comunidades abertas na plataforma: “Valentões da internet”, com 3.700 membros; “A tropa”, com 4.300; e “Grande oriente da bolha”, com 4.700. Apesar do alto número de membros, boa parte dos usuários nessas comunidades não produz esse tipo de postagem, apenas consome. Estupro não é o único assunto dos grupos; alguns perfis se dedicam a conteúdos racistas, antissemitas e neonazistas, mas o que predomina é a misoginia. Ser masculinista é o que une estas comunidades.
O masculinismo é um movimento ideológico que tem como base a misoginia, ou seja, o ódio às mulheres, segundo Bruna Camilo, doutora em Ciências Sociais, autora da tese Masculinismo: misoginia e redes de ódio no contexto da radicalização política no Brasil. Ela explica que os grupos masculinistas defendem a ideia da superioridade do homem e estão sempre alinhados à extrema-direita. “São grupos baseados na ideia de que, à medida que os direitos das mulheres avançam, os dos homens retrocedem”, afirma Bruna.
É possível encontrar organizações masculinistas desde a década de 1970, mas com as redes sociais, esses discursos se propagam de forma mais rápida e se popularizam. Para a pesquisadora, nessas plataformas o acesso a ideias de superioridade chega mais facilmente a homens ressentidos, que “enfim, encontram justificativa para odiar mulheres publicamente.”
Apesar de não se identificarem nominalmente, os autores por trás da “bolha” parecem ser, em sua maioria, homens jovens, alguns ainda adolescentes. É o que indicam as publicações que citam rotinas escolares ou a vida universitária. Muitos deles se definem como incel (abreviação de celibatário involuntário que se refere a homens que não conseguem ter relacionamentos românticos ou sexuais) ou red pill (movimento que defende que os homens estão sendo enganados por um sistema que favorece as mulheres).
Leia Mais: De Zuckerberg aos red pills: a misoginia de ‘voltar às raízes’
Perfis naturalizam estupros e pedofilia
Os nomes de algumas das contas desses perfis demonstram a naturalização com que tratam crimes graves. “Katy estuprada da Silva”, “Molestei 7 crianças PCDs da Silva” e “Chuparam minha buceta quando eu era bebê” são alguns exemplos.


Para Bruna Camilo, essa naturalização é reflexo do que acontece na sociedade:“o estupro é feito para dominar aquela mulher ou aquelas mulheres”, contextualiza. Ela explica que há uma radicalização: os conteúdos começam como piadas, memes e escalam até chegar a uma misoginia escancarada, com postagens que defendem a “legalização do estupro” e comemoram mortes e agressão de mulheres.
Ameaçar ou desejar que mulheres sofram estupro é uma prática comum desses perfis. A violência sexual contra mulheres lésbicas como forma de tentar mudar suas sexualidades – o “estupro corretivo” – também é exaltada por grupos masculinistas, afirma Bruna Amato, mestre em Psicologia Social. Ela dedicou seu mestrado a pesquisar o ciberativismo masculinista na formação de grupos de ódio e extrema-direita no Brasil.
As violências sexuais são tão banalizadas, que várias dessas contas defendem que mulheres têm fantasias com estupro. No dia 20 de outubro, uma das contas acompanhadas pela reportagem chegou a publicar que mulheres têm “fetiche em estupro”.
A conta que fez a publicação foi suspensa da plataforma, pois a vítima que teve sua foto utilizada organizou um mutirão de denúncias do perfil. No entanto, no dia seguinte, o responsável pela conta criou outra página, que logo foi divulgada pelos membros da “bolha” na tentativa de conseguir retomar seus seguidores. A nova página segue no ar, ainda mais dedicada a compartilhar conteúdos misóginos e de apologia ao estupro.
Contas com grande alcance e pouca sanção
Durante o período de apuração, apenas mais uma conta que estava sendo acompanhada pela reportagem foi suspensa pelo X: a “Princess Core”. Era um perfil dedicado a postar pornografia, com legendas que descreviam situações em que a usuária seria abusada sexualmente pelo pai, indicando que ela gostava da situação. Não era possível identificar se as pessoas envolvidas nos vídeos sexuais que publicava eram maiores de idade, mas as mulheres estavam sempre com roupas que remetiam a crianças.
Apesar dessa suspensão específica, existem diversas outras contas com o mesmo tipo de conteúdo. Uma delas contém publicações com fotos de mulheres de chupeta e posts com frases como “na casa do papai só pode usar vestido pra ele me estuprar sempre que quiser”. Assim como a conta @cryx…, que tem mais de 11 mil posts e 3 mil seguidores.
A maior página desse tipo encontrada foi o perfil Domınıc, que possui mais de 90 mil seguidores. Quem administra simula ser um pai que abusa sexualmente da filha. A linguagem desses dois perfis é muito parecida com a dos masculinistas da bolha. Eles também se referem às mulheres como “depósito de porra”, que apenas devem servir sexualmente aos homens. Seja tratando como “piada” ou usando a desculpa do fetiche, a mensagem é a mesma: mulheres são inferiores e os homens têm direito de subjugá-las pelo estupro.


A única medida de segurança adotada pelo X nesses dois perfis é que os posts de vídeos pornográficos são marcados como conteúdo sensível. A ausência de moderação pode configurar omissão pelo X, segundo Bianca Orrico, da SaferNet. Desde junho de 2025, as redes sociais podem ser responsabilizadas judicialmente por manter no ar conteúdos criminosos. O Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que posts com incitação à discriminação de minorias, crimes sexuais contra pessoas vulneráveis, pornografia infantil e crimes contra crianças e adolescentes devem ser retirados do ar, sem necessidade de decisão judicial.
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Adolescentes expostos a conteúdos sexuais e de automutilação
O acompanhamento dessas contas foi feito com um perfil falso, dedicado a isso, criado pela reportagem no dia 9 de outubro como um homem de 18 anos. No entanto, o X permite que adolescentes a partir de 13 anos tenham perfis na plataforma. Para confirmar se adolescentes podem acessar conteúdos desse tipo, no dia 20 de outubro, criamos outra conta, como sendo uma menina de 13 anos.
Os únicos conteúdos que não aparecem são as pornografias explícitas. Todas as outras postagens problemáticas, mesmo em perfis ou posts marcados pela plataforma como conteúdo sensível, podem ser acessadas normalmente. Descrições sexuais, publicações falando sobre incesto, conteúdos de automutilação e de apologia ao nazismo apareceram para o perfil adolescente.


Devido à violência extrema do conteúdo dos prints coletados durante a reportagem, optamos por inserir apenas alguns na reportagem, caso ache importante ver o restante do material, clique aqui.
A exposição frequente de adolescentes a esses conteúdos pode levar à dessensibilização, à naturalização de comportamentos de risco e ao reforço de crenças que violam direitos fundamentais. É o que explica Bianca Orrico, psicóloga e doutora em Estudos da Criança, que trabalha na SaferNet, ONG que atua na defesa dos direitos humanos na internet.
Ter acesso tão cedo a conteúdos extremistas e violentos também pode gerar ansiedade, depressão, isolamento social, autolesão e suicídio, informa a psicóloga. Além disso, favorece a cooptação de adolescentes para a formação de grupos online que reproduzem e amplificam a violência.
Para combater esse tipo de discurso entre jovens, é fundamental pensar e discutir os modelos de masculinidade. “Deve-se pensar e atuar sobre o problema da socialização dos meninos”, defende Bruna Camilo. E Bruna Amato ressalta a necessidade de tratar pessoas que fazem esses discursos como o que são: criminosos. A popularização de termos como incel e redpill criaram identidades com as quais esses homens e adolescentes se identificam e têm a sensação de pertencimento. No entanto, são termos que designam ideologias misóginas, ligadas ao neonazismo e a massacres em escolas.
Discursos radicais chegam às salas de aula
Termos usados por grupos misóginos como incel, redpill, “homem alfa” e “homem beta” também chegaram às salas de aula. É o que relata Thereza Cristina Viana, professora de sociologia no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, com alunos na faixa entre 13 e 17 anos.
Entre os alunos de Thereza, a maioria usa redes sociais e outras plataformas, principalmente X, Instagram, TikTok, YouTube e Discord. Geralmente, esse uso não é supervisionado nem controlado pelos pais ou responsáveis.
Thereza é professora há 16 anos e sempre tratou sobre gênero e sexualidade em sala de aula. Ela nota uma diminuição do discurso misógino entre os alunos, e que quando existem são mais camuflados que há alguns anos atrás. Entretanto, diz que ainda há resistência dos alunos para tratar sobre igualdade de gênero, principalmente dos meninos. “Tentam sempre rir, brincar, nunca levar a sério a discussão.”
Além de ser professora, Thereza é mãe de um menino de 13 anos. Ela diz que o controle do uso de telas do filho “é uma luta”. Ele possui acesso apenas ao WhatsApp e ao Youtube. A plataforma de vídeos tem o tempo controlado por um aplicativo, mas ela diz que o filho sempre tenta burlar o limite. “Eu converso, tento educar, mas muitas vezes é a proibição mesmo que funciona. No que depender de mim até os 16 anos ele não estará dentro de nenhuma plataforma.”
Perfis cometem múltiplos crimes
No dia 5 de outubro um vídeo criado com inteligência artificial de um influenciador de esquerda beijando e acariciando uma criança foi publicado na conta “Dio Odiador de Pobres”. O vídeo, por si só, é um crime. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê criminalização para quem produzir conteúdos, mesmo que montagens, de crianças em situação pornográfica.
A divulgação de pornografia infantil é um dos principais crimes cibernéticos cometidos no Brasil. Só em 2024, a Central da SaferNet recebeu 49.596 denúncias desse crime. Já no ano de 2025, até julho, cerca de 64% das denúncias recebidas pela organização envolveram conteúdos digitais de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. O que representa quase sete em cada dez denúncias.
No X, em 2024 foram feitas 2.229 denúncias de pornografia infantil, o que torna o site o segundo mais denunciado, atrás apenas da Dood Stream, uma plataforma de hospedagem e compartilhamento de vídeos. Desde 2020, o X está no top 4 dos mais denunciados por pornografia infantil, tendo ocupado o primeiro do ranking por dois anos seguidos: 2021 e 2022.
Além da divulgação de pornografia infantil, as publicações desses perfis do X podem ser enquadradas em diversos crimes diferentes, conforme Daniela Felix, advogada especializada em Direitos Humanos, Gênero e Violências.
Há publicações que podem ser classificadas como apologia ao estupro e ao estupro de vulnerável, com base no artigo 218-C do Código Penal que criminaliza conteúdos contendo cena de estupro – de vulnerável ou qualquer outra pessoa – ou que induzam a prática dessa violência sexual.
O mesmo artigo também criminaliza a divulgação de imagens íntimas sem autorização. Uma publicação da conta “Mulher para mim é depósito”, feita em 9 de outubro, mostra fotos íntimas de uma mulher e diz que as enviará para quem pedir. Essa postagem também foi denunciada ao X, mas continuou no ar.
Outras publicações podem ser configuradas como crime de ameaça, tipificado no artigo 147 do Código Penal. Já a exposição de dados pessoais, como endereço, viola a Lei de Proteção de Dados. Além disso, há imputação de crimes e uso indevido de imagem, violações na esfera civil.
No entanto, é difícil que esses crimes sejam solucionados, diz Daniela Felix. O principal motivo é que esses sujeitos utilizam VPN para mascarar a sua localização. “A pessoa acaba desistindo porque não são ações baratas.” A advogada explica que são necessárias muita investigação e etapas de judicialização para conseguir as informações dos autores para a responsabilização.
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O X pode ser responsabilizado
Dada a dificuldade de identificar os autores de publicações criminosas, o caminho que tem funcionado melhor é a responsabilização das plataformas. “Se eles aceitam todo tipo de conteúdo, então que eles indenizem pelos conteúdos que autorizam serem publicados”, defende a advogada Daniela.
No X, as políticas de moderação são opacas. Os relatórios de transparência deixaram de ser divulgados em 2021. Então não há como saber quanto conteúdo foi retirado do ar, quantas contas foram banidas pela plataforma e os motivos.
De acordo com as políticas da plataforma, não podem ser publicados vídeos sexuais que aparentam ter sido produzidos sem o consentimento dos envolvidos. O X também diz ter tolerância zero para qualquer forma de exploração sexual infantil, mesmo as produzidas por IA generativa. No entanto, o levantamento feito pela reportagem mostra que não faltam publicações violando essas políticas.
Essa reportagem denunciou cerca de 50 perfis e posts que fazem apologia ao estupro e que publicam vídeos que simulam estupros. Apenas uma conta foi suspensa: a “Putinha comunista”. Assim como os outros perfis, esse publicava pornografia e descrições de abuso sexual de mulheres e crianças, mas neste caso apenas pornô de mulheres trans. Era uma conta de extrema-direita, mas que usava comunista no nome como “piada”.
O ECA Digital, Lei 15.211/2025, impõe às plataformas obrigação de remoção imediata e comunicação às autoridades de conteúdos relacionados à exploração, abuso sexual, sequestro e aliciamento de crianças e adolescentes. O descumprimento dessas obrigações pode gerar responsabilidade administrativa e civil.
A reportagem tentou entrar em contato com X no e-mail da assessoria de imprensa global e não houve resposta. A plataforma não tem assessoria de imprensa no Brasil desde 2024. A repórter também enviou e-mails para o Ministério das Mulheres e para o Ministério Público Federal, questionando sobre a atuação dos órgãos quanto aos conteúdos misóginos na plataforma X, mas não recebeu respostas até a publicação dessa reportagem.
Como denunciar?
- Ao verificar postagens criminosas, o primeiro passo é fazer capturas de tela e salvar os links ou mídias. Com essas informações é possível realizar uma denúncia no site do Ministério Público Federal ou da Polícia Federal.
- As postagens também podem ser denunciadas nas plataformas em que esses conteúdos estão hospedados. No entanto, a remoção fica a critério da moderação.
- No caso de imagens de abuso sexual infantil ou exploração sexual de crianças, a SaferNet Brasil também aceita denúncias. Basta denunciar o endereço da página no formulário disponível em www.denuncie.org.br. A denúncia é anônima.
*Edição: Jane Fernandes, Joana Suarez e Helena Bertho /// Artes: Lays Cantanhêde