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Soraya é uma mulher de ascendência palestina, de cabelos longos com raízes grisalhas, que usa óculos e um lenço palestino no pescoço
30 de setembro de 2025

“Não há luta feminista sem Gaza”

Mulheres palestinas enfrentam genocídio e lideram a resistência anticolonial, desafiando estereótipos e chamando o mundo à solidariedade

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No centro da imagem, uma pessoa aparece com o rosto coberto por um lenço tradicional preto e branco, deixando apenas os olhos à mostra. Ao redor, outras figuras em preto e branco também usam lenços e algumas seguram megafones, em expressões de protesto.
Ao fundo, tremula uma bandeira palestina diante de um padrão geométrico em tons de cinza. Grandes flores vermelhas, semelhantes a papoulas, ocupam o primeiro plano, criando um contraste intenso com o preto e branco das pessoas.
A composição transmite uma forte sensação de resistência e luta, destacando as cores vermelho, verde, preto e branco, associadas à bandeira palestina.

Sete a cada dez mulheres mortas em conflitos no mundo em apenas um ano são de Gaza. Os dados são do relatório divulgado em junho deste ano (2025) pelo Centro de Inovação e Análise de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) e remetem à importância de ouvir as vozes palestinas. 

Não há luta feminista sem Gaza.” Este foi o título de uma extensa carta escrita por mulheres palestinas que integram o coletivo Gaza Group em 2024, como um chamado à luta anticolonial e anti-imperialista no Dia Internacional da Mulher — 8 de março. Ali, elas expressavam como legado o sumud (termo árabe que significa firmeza e persistência, resiliência como resistência). 

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Feminismo bem informado

Estamos aqui hoje pelos homens, mulheres, crianças e jovens de Gaza, pelos nossos avós, guardiões da nossa história e memória, e por todos aqueles que fizeram de Gaza um berço popular para a sua resistência corajosa. Defendemos o tijolo, o mar, as ruas, as árvores. Defendemos as memórias do passado, bem como esperanças para o futuro que fazem de Gaza a nossa casa”, destacava a carta.

De lá para cá, o coletivo foi silenciado por um genocídio que não cessa. A cada hora, uma menina e uma mulher seguem sendo assassinadas pelas forças de ocupação israelenses em Gaza. Os dados subestimados e conservadores divulgados em 12 de setembro de 2025 pela ONU Mulheres dão conta de pelo menos 28 mil meninas e mulheres mortas no atual genocídio — que já dura quase dois anos — e mais de 78 mil feridas.

A própria relatora da ONU para Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, afirmou em conferência de imprensa, que este número pode ser dez vezes superior. O total de palestinos assassinados em pouco menos de dois anos por Israel pode somar por volta de 680 mil — ou seja, mais de 30% da população, a maioria mulheres e crianças.

Falta tudo, de comida a absorventes

Com a fome decretada oficialmente em Gaza, imposta pelo bloqueio israelense criminoso e servindo de arma ao genocídio, 250 mil mulheres e meninas estão morrendo por falta de alimentos. Os dados aterradores da ONU apontam ainda que mais de meio milhão de palestinas, de todas as idades, enfrentam desnutrição aguda — dentre elas, 55 mil gestantes e lactantes.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 180 mulheres dão à luz todos os dias em Gaza. Elas têm seus filhos num local em que hospitais e maternidades foram total ou parcialmente destruídos. E as bombas não param de cair sobre as cabeças de todos os palestinos. 

Quando as gestantes precisam de cesariana, a cirurgia é feita sem anestesia. Não raro elas têm seus filhos e em seguida embalam os corpos mortos desses recém-nascidos. Os abortos espontâneos, também segundo dados oficiais, cresceram 300%.

Tudo falta em Gaza, de medicamentos a água e alimentos a absorventes. A ONU Mulheres denuncia que quase 700 mil mulheres em idade reprodutiva têm de lidar com a menstruação, muitas vezes em instalações superlotadas ou inseguras.

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Prisões políticas quase dobraram em dois anos

Além disso, o número de presos políticos quase dobrou nestes quase dois anos. Segundo a Associação de Direitos Humanos e Apoio aos Prisioneiros Palestinos (Addameer, na sigla em inglês), até o início de outubro de 2023 eram 5.200. Desde então, ultrapassaram 11 mil palestinos submetidos a torturas inomináveis, dentre os quais cerca de 50 mulheres e 400 crianças. 

Testemunhos de mulheres encarceradas evidenciam o estupro como arma por parte das forças de ocupação israelenses. Essa estratégia não é novidade: foi assim nos genocídios das aldeias de Deir Yassin e Tantura, na Palestina, em 1948. O ano marca a pedra fundamental da contínua Nakba — catástrofe com a criação do estado colonial e racista de Israel em 78% do território histórico da Palestina, mediante limpeza étnica planejada.

No artigo “As mulheres de Gaza durante o atual genocídio: mulheres, guerra e resistência, da pesquisadora e escritora palestina Madlin al-Halabi, publicado pelo Instituto de Estudos Palestinos, as mulheres são o “contorno da sociedade”. Como agentes da produção e reprodução da vida, consequentemente, elas são alvo central de Israel na sua busca por erradicar o povo palestino do mapa.

Além das ameaças de abuso sexual e estupro instrumentais, balas e bombas genocidas miram nos corpos femininos. É o que se vê historicamente na contínua Nakba e desde 7 de outubro de 2023 na busca de solução final sionista*: a limpeza étnica avançada na Cisjordânia e o genocídio em Gaza.

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Um projeto que busca exterminar o futuro

A pesquisadora Madlin observa que a ação e a retórica genocidas são parte do projeto colonial sionista, mencionando a declaração em 1956 de Ariel Sharon, então comandante do Exército de Israel e apelidado de “carniceiro”. “Mulheres e crianças palestinas são de longe mais perigosas que os homens porque a existência de uma simples criança significa a sobrevivência de diversas gerações futuras”, declarou Ariel, que foi primeiro-ministro de Israel de 2001 a 2006.

Refugiados palestinos da Nakba em 1948 citam palavras de outra liderança sionista, Golda Meir, que ocupou o cargo de primeira-ministra de Israel entre 1969 e 1974: “Quando vejo uma mulher ‘árabe’ grávida, tenho dor de cabeça.” É dela a célebre frase, repetida sem meias palavras hoje por seus seguidores: “Os palestinos não existem.

Essa retórica para o genocídio norteou discursos de lideranças sionistas, inclusive mulheres. “Matem todos! Estuprem! Gaza, um cemitério! São animais humanos!”, virou um lema a partir da ação coordenada da resistência palestina em 7 de outubro de 2023. 

A desumanização é parte da incitação ao genocídio em Gaza, que reverberou em propaganda mentirosa de guerra que deu aval ao extermínio. O que vemos é um silêncio, omissão e cumplicidade internacionais históricas dos poderosos, com destaque para as armas e bilhões de dólares do imperialismo estadunidense, mas também europeu.

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Sumud contra a indignidade da ocupação

As cenas em Gaza são de desolação, dor, sangue, destruição, fome e sede. Na recusa à indignidade da ocupação e genocídio, sumud — firmeza e persistência — continua a ser a regra. É o que mulheres e homens palestinos têm protagonizado, em meio a perdas inomináveis. Resistência para o povo palestino não é uma escolha, é existência, sob constante ameaça de apagamento. 

O protagonismo das mulheres palestinas evidencia ao mundo que elas não estão alheias às lutas anti-imperialistas e anticoloniais. Não são submissas por natureza, uma massa absolutamente uniforme. Não são exóticas nem terroristas.

Em meio ao genocídio, as mulheres palestinas enfrentam sofrimento atroz, ao lado de seu povo. E ao mesmo tempo lutam contra a desumanização, as caricaturas, os estereótipos que servem à tentativa de extermínio, fazendo jus ao legado daquelas que as antecederam. Seus passos vêm de longe. Seu pioneirismo na luta contra a colonização de sua terra vem desde os primórdios do projeto colonial sionista, ainda no fim do século XIX.

São heroínas desconhecidas e em sua maioria invisibilizadas pela história, como ocorre em todo o mundo. E neste momento, têm pautado a solidariedade internacional com o povo palestino como parte inseparável da luta pela emancipação feminina, contra toda forma de opressão e exploração. 

Uma dessas vozes é da jovem jornalista palestina Bisan Owda, que conclama a mobilização diretamente de Gaza enquanto transmite o genocídio de seu próprio povo. Elas ensinam: “Ninguém será livre até que todas sejamos livres. Não há futuro sem Gaza. Não há luta feminista sem Gaza.

* Sionismo é o movimento político surgido em fins do século XIX, com fins coloniais. Sionistas são identificados como defensores do estado de Israel, seus apoiadores, além dos próprios colonizadores de terras palestinas.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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