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1 de dezembro de 2021

Maid: A dor que tem que ser branca para comover o Brasil

Surpreende que o país seja tão indiferente a tudo que vivem as domésticas negras
série maid e a dor branca

Você com certeza já deve ter ouvido falar, recebido a recomendação ou até assistido a série Maid, produzida pela Netflix. Ela está no Top 10 de conteúdos mais populares há semanas. Posts, podcasts, textos e falas de recomendação se multiplicam a cada dia.

A série conta a história de Alex, uma jovem mulher branca de vinte e poucos anos de idade, mãe de uma criança pequena, que tenta escapar de um relacionamento abusivo. Para isso, ela decide trabalhar como faxineira, e então o roteiro detalha toda uma série de violações que marca essa trajetória: pagamentos baixíssimos e insuficientes para sua subsistência e de sua filha, violência por parte do pai da criança, falta de clareza da sua própria condição de vitimizada na violência doméstica, fome, doença, perdas e dor – lidando com um nível de sofrimento e violência que ninguém deveria vivenciar.

O Brasil é o país com a maior população de trabalhadoras domésticas do mundo, são cerca de 6,7 milhões de mulheres ocupando essa função – desse total, mais da metade é negra. Somente em 2013, após intensa resistência de classe, foi aprovada a proposta de emenda constitucional nº 72, a “PEC das Domésticas”, que igualava o direito das trabalhadoras domésticas aos direitos das demais categorias de trabalhadoras e trabalhadores. As resistências foram abomináveis e incluíram questionamentos sobre a necessidade de pagar um salário (mínimo) e de limitar a quantidade de horas de trabalho.  E essas foram as coisas mais leves ditas sobre o tema.

Apesar da alteração legal, pouco mudou, de fato, na realidade das trabalhadoras domésticas. A maioria segue na informalidade, recebendo muito menos do que o necessário para sua sobrevivência, muitas vezes levando consigo suas filhas e filhos que, ou se convertem em brinquedos para as “crianças da casa”, ou em “ajudantes da mãe”. Cabe lembrar que o trabalho infantil doméstico, considerado pela OIT uma das piores formas de trabalho infantil desde 2001, ainda não foi eliminado, e a maioria das crianças empregadas é menina e negra.

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Não me recordo de ter visto anteriormente uma comoção parecida com a que foi provocada pela série MAID, e fico me perguntando o quanto disso tudo se origina no fato de a protagonista ser branca. Num país em que, como consequência direta da escravidão, tem-se uma maioria de trabalhadoras domésticas negras – faxineiras, diaristas, babás – vivendo em condição de subemprego, exploração, pobreza e fome, a dor precisa ser branca para comover alguém. 

Afinal, quando a dor é das pessoas negras, ela sequer é percebida como dor, é mais um “sempre foi assim”, que estabelece a subalternização dessas vidas e um lugar de naturalização – mas que, quando é vivida por pessoas brancas, passa a ser nomeada de sofrimento. 

A convivência com as senzalas, com os pelourinhos, a integração das mulheres negras escravizadas às casas – não na condição de trabalhadoras livres, mas de alguém que lá trabalha e serve, mas é “como se fosse da família” – são os ingredientes que produzem a intensa tolerância da sociedade brasileira à injustiça e iniquidade. Fatores esses que marcam a vida de gerações de mulheres negras trabalhadoras domésticas, dizendo que esse é seu lugar. 

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Se a autora do livro que deu origem à série, Stephanie Land, passou dois anos limpando casas e fez o Brasil chorar, mulheres negras passam gerações no mesmo trabalho. Importante lembrar que uma delas foi uma das primeiras vítimas letais da covid, após contrair a doença de sua patroa e patrão que voltaram da Europa. Outra perdeu o filho, que havia levado consigo para o trabalho, mas foi abandonado sozinho num elevador, enquanto ela levava para passear o cachorro da família empregadora. Muitas foram estupradas, sofreram agressões físicas, foram encontradas em condição análogas à escravidão, mas eu não vejo o Brasil se comover. 

Então, eu diria que, para mim, não é surpreendente que o Brasil esteja comovido com a história de sofrimento de uma jovem trabalhadora doméstica branca, e acredito que devemos estar, porque nenhuma violência deve ser tolerada. O que é surpreendente é o país ser tão indiferente a tudo que vivem as domésticas negras.

Sou negra, mulher, nordestina e feminista. Sou professora, trabalho há muito tempo com organizações não governamentais. É isso ai, ongueira mermo!  Sou ativista dos movimentos de mulheres negras e defensora de direitos humanos. Adoradora de paçocas e mãe de Marquinhos.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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