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Macho-embuste do estádio: seus dias estão contados

por Amanda Célio
17 de setembro de 2019
O futebol carrega consigo uma masculinidade tóxica e frágil ao mesmo tempo
Gritos homofóbicos nos estádios de futebol agora podem gerar punições ao time. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Se por muitos anos expressões como “bicha” e “viado” eram vistas como tentativas de provocação “aceitas” para desestabilizar o adversário num estádio de futebol ou dentro de campo, hoje, ainda que tardiamente, proferi-las pode gerar punições ao clube. 

O futebol carrega consigo uma masculinidade tóxica e frágil ao mesmo tempo. 

Estes espaços sempre foram ocupados por homens machistas que associam um jogo de futebol ou uma pelada a um momento que é só seu e de seus amigos. Ali, parece valer de tudo, xingar sem peso na consciência e colocar pra jogo o seu lado mais homofóbico e misógino, sem também ser julgado por isso. O futebol se fundou, então, como um esporte viril, de Machão com M maiúsculo e com uma escarrada no final. 

O macho-embuste de estádio é aquele seu conhecido que fala que futebol é coisa para homem, que zoava aquele colega de escola que não gostava de jogar futebol na hora do recreio e o chamava de menininha. Ele cresceu e faz o mesmo no estádio. E ele não está sozinho. Afinal, experimenta ser gay, afeminado e ir torcer para o seu time na arquibancada de qualquer estádio brasileiro. Provavelmente você será expulso ou alvo de muitas piadinhas homofóbicas, mesmo que esteja ali torcendo para o mesmo time. Só mesmo a homofobia para ultrapassar a empatia incontestável do clubismo.

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A mesma masculinidade tóxica e frágil que ataca os homossexuais, também recai sobre as mulheres, mas de forma diferente. Se você for mulher, ou será invisibilizada ou sofrerá possíveis situações de assédio. Pra casa, sem uma dessas duas sensações você não volta. Ou por acaso é habitual que os torcedores homens comentem com outras torcedoras mulheres sobre o jogo em andamento: “porra, tem que melhorar o meio-campo pro segundo tempo, você não acha?”. Isso é super comum entre homens. Será que eles acham que nós não saberemos dar informações ou opiniões interessantes sobre o jogo?

A ideia do futebol como um esporte varonil, aliás, é uma das razões que bloqueou, por muito tempo, o desenvolvimento da modalidade feminina. Isso me levou a reflexão de que as jogadoras que mais sofrem dentro e fora de campo são justamente aquelas cujo a aparência e o comportamento não exprimem a virilidade “exigida” pela prática futebolista.

E por culpa dele (do macho-embuste) e da cultura machista e homofóbica que nos envolve, é que dificilmente temos no Brasil jogadores gays assumidos. Uma das pessoas que mais sofreu com a homofobia no futebol foi o jogador Richarlyson, que sempre negou ser gay. Ele passou por clubes como Atlético Mineiro, Grêmio, São Paulo e em todos foi alvo de homofobia. 

Em 2011, por exemplo, uma encaminhada contratação de Richarlyson para defender o Palmeiras foi barrada pelos torcedores do clube por ele “supostamente ser homossexual”. O atleta está sem clube atualmente e se aventura nas quadras de vôlei num time amador do interior de São Paulo. 

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Mesmo que eu tenha te deprimido até aqui, alegro-me em dizer que a homofobia nos estádios pode estar com seus dias contados. Recentemente, vimos a primeira vez em que um jogo foi paralisado pela arbitragem devido a cânticos homofóbicos. O árbitro cumpriu uma instrução do Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol (STJD) que recomenda a paralisação de jogos em caso de cânticos homofóbicos da torcida. Lembra do “bichaaa”, reação comum da torcida adversária quando o goleiro adversário bate um tiro de meta? Esse grito também será penalizado e passou a ser oficialmente considerado discriminatório. 

Desde junho, a Fifa cobrou rigor as confederações diante de manifestações homofóbicas em estádios. Essas mudanças nas entidades esportivas, questionadas há tanto tempo por nós, reflete também a criminalização da homofobia equiparada ao crime de racismo, aprovada em junho pelo STF. 

A maioria dos times brasileiros tem aderido às campanhas contra a homofobia nos estádios, principalmente nas redes sociais dos seus clubes. Porém é preciso analisar com cautela, já que as campanhas surgem, principalmente, com o medo das possíveis punições que podem ocorrer se os cânticos e gritos homofóbicos continuarem. Há cinco anos o Corinthians lançava um manifesto pedindo para que a torcida deixasse de gritar “bicha”. Outros times também fizeram campanhas parecidas. 

Acontece que na hora de falar com as diretorias dos clubes, a maioria é contra a punição em casos de homofobia. Toda essa dissonância foi revelada por uma matéria do Estado de São Paulo que mostrou que de todos os times da Série A do Campeonato Brasileiro apenas o Bahia concorda com a penalização de manifestações homofóbicas que partem da torcida. 

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Para além das campanhas de conscientização das torcidas, que são bem-vindas, é necessário que as diretorias, jogadores e os clubes no geral entendam que somos o país que mais mata pessoas LGBTQI++ no mundo. Que não apenas povoem seu marketing de ideias e ações contra a homofobia, mas que sejam parte delas. Que sejam os exemplos.

E que aprendam com o Bahia o mínimo que se espera de um clube de futebol e de seu presidente sobre a penalização da homofobia nos estádios. “Eu não chamaria de orientação. A palavra é formação de uma nova cultura de tolerância, abraço às pessoas mais diferentes possíveis. Acho positiva a punição. É o mecanismo correto para desestimular a ação homofóbica da torcida”, afirmou Guilherme Bellintani.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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