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Técnicas de futebol: os desafios das mulheres à beira do campo

A CBF escolheu uma mulher para assumir a seleção brasileira feminina após o bom desempenho de equipes lideradas por técnicas na Copa do Mundo
por Dayana Natale
2 de agosto de 2019
A sueca Pia Sundhage é a segunda mulher a assumir o comando da seleção feminina de futebol (Crédito: Lucas Figueiredo/CBF)

“Jogue com o seu melhor pé”. Assim estreou na língua portuguesa a sueca Pia Sundhage, nova técnica da seleção brasileira feminina de futebol, em uma postagem em rede social. Essa é a segunda vez que a seleção feminina será comandada por uma técnica mulher. Coincidência ou não, o movimento ocorre logo após a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019, onde se destacaram seleções treinadas por técnicas mulheres.

No começo da competição elas eram minoria. Das 24 seleções, apenas nove eram lideradas por mulheres. Mas na fase mata-mata, os holofotes se voltaram para elas. Nas quartas de final, cinco das oito equipes eram comandadas por treinadoras. E assim se seguiu até a final, disputada por Estados Unidos (liderada pela técnica Jill Ellis) e Holanda (comandada por Sarina Wiegman).

Apesar da conquista, as mulheres ainda são poucas na liderança de times profissionais de futebol no Brasil, tanto nas equipes femininas quanto masculinas. Dos 20 times masculinos que disputam o Campeonato Brasileiro pela série A neste ano, nenhum é treinado por uma técnica.

Uma treinadora é encontrada apenas na segunda divisão do Campeonato Paulista (que na prática é o quarto nível do futebol do estado). Nilmara Alves é a primeira técnica a comandar uma equipe profissional masculina no estado de São Paulo, o Manthiqueira de Guará.

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E ainda assim não é sua ocupação em tempo integral. Além de técnica, Nilmara trabalha como servidora pública. No início da carreira, chegou a ouvir um técnico adversário dizer abertamente que não aceitaria perder de uma mulher (o time do técnico perdeu de virada nesta partida).

Entre as equipes femininas elas também são exceção. Dos 16 times do Campeonato Brasileiro Feminino da série A, apenas três são liderados por técnicas: Emily Lima no Santos, Tatiele Silveira no Ferroviária de Araraquara e Keila Felício pelo Sport Recife.

A primeira da seleção

Demorou 30 anos para uma mulher chegar ao comando da seleção brasileira feminina. A ex-jogadora Emilly Lima foi a primeira mulher a treinar o time, mas também a que menos durou no cargo, apenas dez meses. Com um início com ótimos resultados (sete vitórias consecutivas) em novembro de 2016, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) a demitiu em setembro do ano seguinte após uma série de seis jogos sem vitórias (cinco derrotas e um empate). 

Hoje técnica da equipe feminina do Santos, Emily Lima foi a primeira mulher a comandar a seleção feminina brasileira (Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

Emily foi substituída por Oswaldo Alvarez (Vadão), que já tinha treinado o time na gestão anterior a da técnica. Ele sofreu nove derrotas consecutivas na campanha antes da Copa do Mundo de 2019 e só foi demitido após a eliminação do Brasil nas oitavas de final.

Na época, a demissão de Emilly causou revolta nas redes sociais e entre as jogadoras da seleção, que escreveram uma carta aberta pedindo a permanência da técnica. Em protesto, cinco jogadoras anunciaram aposentadoria frente à decisão da CBF.

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Em entrevista recente, ela avaliou que foi demitida por ser mulher. “Não queria acreditar, mas agora tenho certeza”, disse no Programa do Bial. A Revista AzMina tentou falar com  Emily por meio de sua assessoria de imprensa, que informou que o Santos (clube no qual ela treina o time feminino) não liberou a entrevista. Na ocasião, a treinadora havia acabado de fazer um desabafo em suas redes sociais sobre o descaso com o time feminino do clube, que havia dormido no saguão de um hotel em Manaus.

A técnica da equipe feminina do Ferroviária de Araraquara Tatiele Silveira também já sentiu na pele essa cobrança desigual de desempenho. Quando era técnica da equipe feminina do Internacional, ela não teve seu contrato renovado, mesmo perdendo apenas dois dos 40 jogos que disputou. Hoje a equipe é comandada por um treinador. “Fica sempre nas entrelinhas, sempre muito subjetivo”, diz a técnica quando perguntada se já enfrentou questionamentos sobre o seu trabalho.

A técnica Tatiele Silveira já sentiu na pele a cobrança desigual (Reprodução do Facebook)

Na beira do campo

“Quando a gente sai pra jogo fora, sempre tem aqueles olhares diferentes. Isso porque a maioria dos cargos de técnicos de escolas é ocupado por homens. Tem técnico que vira a cara pelo fato de estar perdendo para um time comandado por mulheres”, diz Juliana Grau, auxiliar técnica do time de futsal da escola Carandá Vivaavida.

Juliana conta que em seu local de trabalho é respeitada, tanto pelos alunos como pelos pais, mas que em sua família já enfrentou barreiras. “Quando disse que queria cursar educação física, meu pai disse que é um curso ‘espera marido’. Agora estou provando que não vou esperar marido nenhum.” 

Para Tatiele, a maior barreira do futebol feminino está mesmo na estrutura. “As dificuldades sempre foram em função das instituições, dos projetos dos clubes. A surpresa sempre foi fora de campo.” Ela diz que isso ficou claro na Copa, que classifica como um divisor de águas para o futebol feminino.

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“Com a Copa na TV aberta, vimos que onde tem divulgação, quando se mostra o futebol feminino, ele se torna um produto que pode ser vendido. Essa Copa mostrou o quanto a nossa modalidade é apaixonante”, afirma. 

Existem diferenças dentro de campo?

“Obviamente que a gente ficaria feliz com uma mulher treinadora, porque quanto mais mulheres nesse meio, melhor. Mas acima de gênero, acima de qualquer coisa, tem que vir a capacidade”, diz Andressinha, jogadora da seleção Brasileira e do Portland Thorns FC.

Durante sua carreira, a atleta trabalhou com duas mulheres: Michele Kanitz, no Ferroviária, e com Emilly Lima, na seleção. Após trabalhar mais recentemente com Vadão, Andressinha diz sentir diferença apenas na metodologia de trabalho. “A Emilly sempre teve um jeito muito agressivo de jogar, bem ofensivo, e o Vadão talvez um pouco mais cauteloso em certos momentos. Obviamente eles eram diferentes, até mesmo no estilo de jogo, mas acredito que essa seja a diferença.”

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A atacante Adriane Nenê, jogadora do Ferroviária de Araraquara, concorda que a competência para o cargo deva ser o fiel da balança na escolha dos treinadores, mas reconhece que há uma diferença. 

“Mulheres em cargos técnicos ainda é algo recente, então ainda é difícil avaliar a diferença. Mas após seis meses de trabalho com a Tatiele, observo que ela tem um entendimento melhor de como lidar com a mulher, entender aqueles momentos mais sensíveis que nós temos, e assim ter uma abordagem mais direta”, conta a atacante. 

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