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Agnes Arruda
8 de setembro de 2021

Já pensou em fazer dieta?

Até onde estamos dispostas a ir pela obsessão ao corpo magro?

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*Aviso de gatilho para pessoas com transtornos alimentares e distúrbios psicológicos decorrentes da cultura das dietas.

Funciona assim: você está no trabalho, na faculdade, em casa, fazendo compras… Em um contexto completamente aleatório e, muitas vezes, entre semi ou totalmente desconhecidos, que não têm a menor noção dos seus hábitos, da sua rotina, mas que inadvertidamente resolvem fazer a pergunta: “Você já pensou em fazer dieta?”. Claro, porque ao verem uma mulher gorda, essas pessoas se dão automaticamente esse direito, o de opinar sobre o seu corpo, sem qualquer aviso ou consulta. Simples assim.

Perdi as contas de quantas vezes ouvi essa pergunta, e durante muitos anos respondi com um sorriso sem graça, amarelo, que evidenciava o constrangimento de quem já tinha feito tantas dietas se tornarem conhecidas, num eterno desespero para ser magra e, finalmente, ser aceita em sociedade. Foi necessária muita desconstrução, autoconhecimento e pesquisa, além de uma conversa dessas ótimas com uma amiga, que me deu uma resposta que hoje carrego na ponta da língua: “Nossa, nunca pensei!”, passei a responder. Com isso, vi que devolvia o desconcerto a quem me perguntava ao não saber o que responder a alguém que, mesmo sendo irônica, declarava que fazer dieta não estava em seus pensamentos.

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São variações do “já pensou em fazer dieta?” as recomendações de cardápios de baixa caloria, receitas fitness – que já vimos aqui nesta AzMina que de saudáveis não têm nada –, as combinações de chás milagrosos, exercícios extremos e produtos que sabe-se lá de onde saíram. Às vezes não é preciso nem falar. Uma troca de olhares entre mulheres em uma sala e a gente já sabe o que está acontecendo. É uma espécie de código secreto compartilhado. No entanto, toda vez que um procedimento desses, uma dieta super rigorosa se revela, uma morte por lipoaspiração em clínica clandestina vem à tona, toda a gente se finge de surpresa, como se a mulher que sucumbiu à pressão fosse a única responsável pelo que aconteceu a ela.

No fundo, no fundo, a gente sabe de onde vem esse impulso ao extremo da cultura das dietas, que o doutor em Psicologia Rodrigo Daniel Sanches destrincha em sua pesquisa. Em uma dimensão ou outra, muitas inclusive já fizeram alguma coisa do tipo. Afinal, desde cedo o discurso do “é só ter força de vontade”, “é só querer”, nos acompanha. Assim, fomos habituadas a fazer o que fosse para dar um jeito na situação, no corpo inadequado, que não cabe nos espaços, nem física, muito menos simbolicamente, nem que para isso colocássemos em jogo a nossa saúde física e mental. Por isso, a seguir listo algumas das coisas que, ao longo dessa vida de mulher gorda fiz para tentar emagrecer e que bem, se funcionassem, esta coluna aqui nem existiria.

Cardápio de 1200, 1100, 1000, 900 e 800 calorias ao dia, inibidores de apetite, estimulantes, laxantes, diuréticos, jejuns, prática intensiva de exercícios, vômito… E com eles a apatia e perda de libido, taquicardia e alucinações, problemas renais e de absorção de nutrientes etc.

É absurdo associar saúde, beleza, sucesso, felicidade, à magreza, pois o resultado disso tudo, por mais quilos que possam ser perdidos, jamais poderá ser qualquer uma, muito menos um conjunto dessas coisas. O que sobra, mesmo, é um rastro de dor, sofrimento e trauma, que nos acompanha para o resto de nossas vidas, não importa o quanto de terapia façamos.

Mas emagrecer é mesmo sinônimo de saúde, né?

Pois eu já tenho certeza que não.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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