logo AzMina
11 de abril de 2022

“Adoro uma gordinha”

A preferência que, na verdade, reflete o preconceito
fetichização das gordas

Quando a gente fala sobre relacionamentos amorosos e sexuais e a relação com a gordofobia, uma associação bastante comum é a de que a mulher gorda, por não atender aos padrões sociais estéticos, não está apta a se relacionar.

Não está apta, não é digna, não merece… Seja qual for o pensamento, ele vem carregado dos estereótipos da gordofobia que fazem com que as relações dessa mulher estejam relegadas a um espaço repleto de vergonha e de culpa. A gente já falou aqui na coluna sobre os caras que querem a gorda, mas só se for escondido.

É só você denunciar esse tratamento que vira e mexe aparece algum cara para falar que “quem gosta de osso é cachorro”, e que ele, alecrim dourado desconstruído,  “adora uma gordinha”. Nos aplicativos de relacionamento e paquera, então, esse tipo aparece aos montes!

O problema, ao menos na primeira frase, já está anunciado… Mas ainda há quem ache que “gostar de gordinha” é um elogio, apenas uma questão de gosto… E daí é importante olhar para isso com um pouco mais de atenção.

Do escondido ao fetiche

 Dos que escondem a relação (afetiva e sexual) com uma mulher gorda aos que têm fetiche por elas, ambos representam  duas faces da mesma moeda, que é a gordofobia. São pontos extremos, mas perpassam por essa afirmação de “gosto” que, sabemos e entendemos, é construído socialmente.

A vontade genuína de se estar com uma mulher gorda existe, óbvio. E reivindicamos sua naturalização. No entanto, colocada como um algo fora da curva, coloca-se a gorda em uma categoria à parte, uma não-mulher.

Para além da objetificação do corpo feminino – esse estigma que todas nós carregamos -, faz parte do fetiche em relação à gorda uma completa desumanização, intensificada pelo clima de “proibido é mais gostoso”.

Leia mais: Como a mídia cria estereótipos que impulsionam a gordofobia

A essa mulher-coisa também estão associados estereótipos que dizem que, inclusive, ela deve se esforçar mais durante o sexo para agradar o cara na cama. Essa performance fenomenal  garantiria a presença do abençoado em sua vida.

Tem-se aí a associação com outro estigma do patriarcado: o de que a mulher sozinha não se basta, de que ela precisa de um homem para ter sua existência validada. Na intersecção com a gordofobia, esta imposição se torna ainda mais violenta, em especial no contexto cisheteronormativo.

A verdade é que quando se fala no corpo da mulher gorda, independente da configuração do relacionamento, o que ainda se tem em mente é “que ele não deveria estar ali”. E é essa raiz profunda do preconceito que precisa ser arrancada. Afinal, parafraseando bell hooks, “não sou eu uma mulher?”

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Somos movidas por uma comunidade forte. Falta você!

AzMina ajudou a revolucionar a cobertura de gênero no jornalismo brasileiro nos últimos 6 anos. Com informação e dados, discutimos temas tabus, fazemos reportagens investigativas e criamos uma comunidade forte de pessoas comprometidas com os direitos das mulheres. Muita coisa mudou nesse meio tempo (feminicídio deixou de ser “crime passional” e “feminista” xingamento), mas as violências contra as mulheres e os retrocessos aos nossos direitos continuam aí.

Nosso trabalho é totalmente independente e gratuito, por isso precisamos do apoio de quem acredita nele. Não importa o valor, faça uma doação hoje e ajude AzMina a continuar produzindo conteúdo feminista que faz a diferença na vida das pessoas. O momento é difícil para o Brasil, mas sem a nossa cobertura, o cenário fica ainda mais tenebroso.

FAÇA PARTE AGORA