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12 de julho de 2021

Pequeno dicionário antigordofóbico

Termos e expressões para parar de usar se você quer combater a gordofobia

Talvez uma das principais descobertas dessa ressignificação de existência como mulher gorda tenha sido a de que o preconceito em relação ao meu corpo tem um nome: GORDOFOBIA. Descobri isso pouco depois dos 30 anos e, até então, sentia a dor, o incômodo, as consequências, mas não conseguia explicar exatamente o que era. Sem o nome, era como se a coisa não existisse, e mais uma vez a ideia de que o corpo gordo é errado se fazia presente. No entanto, quando a palavra se materializou na minha frente, foi como se o sentimento também tivesse se materializado.

Isso porque nomear as coisas é uma forma de conhecermos suas origens, suas causas e consequências, analisá-las e, se preciso, combatê-las; e tem sido assim para mim desde então. Gordofobia não é mais um neologismo no meu dicionário, a conheço muito bem e posso apontá-la quando ela acontece em suas formas mais escancaradas quanto sutis. No entanto, muitos termos e expressões do léxico gordofóbico ainda fazem parte do nosso dia a dia, e do mesmo jeito que é importante dar o nome às coisas, também é importante entender que, alguns dos nomes dados, carregam consigo o preconceito e precisam ser repensados. Separei aqui exemplos:

Acima do peso: acima de qual peso, exatamente? Aquele da tabelinha do IMC? Pois é. Apesar do argumento científico que o Índice de Massa Corpórea parece ter, é preciso saber que esse índice data do início do século XIX, 1832 exatamente, a partir de um estudo para saber quais as medidas da população, de maneira geral. Passados quase dois séculos, mesmo a população tendo mudado tanto, esse índice passou a ser tido como um parâmetro para tentar normalizar os corpos, em especial os femininos. Você já se perguntou por quê? O patriarcado manda lembranças.

Bonita de rosto: pode até parecer, mas esse não é um elogio; é um reforço da atribuição de valor estético aos corpos, de forma que o corpo gordo é considerado feio. Deve-se entender que beleza é uma construção social que se altera a partir de uma série de variáveis, inclusive as normatividades, e que as experiências estéticas são diferentes de pessoa para pessoa. Além disso, não se separa o rosto do restante do corpo, né? A pessoa é uma só!

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Eufemismos para gorda em geral: escrevi aqui nesta coluna: ao inventar outros nomes para o que simplesmente é uma característica física, no caso gorda, temos o apagamento da identidade de quem habita esse corpo, justamente a partir da negação dessa característica. Fofa, forte, grande, cheia… São todos eufemismos para gorda, que a gente associa a algo ruim. Gorda se tornou uma palavra proibida, tanto quanto ser gorda hoje o é.

Fitness: virou sinônimo de saudável, mas o termo em inglês, na verdade, vem do verbo to fit, ou seja, caber, encaixar. Para mim, não tem nada que traduza mais a gordofobia nossa de cada dia do que esse verbo e do que ele representa atualmente. A pessoa gorda é pressionada O-TEMPO-TODO a se encaixar: nas roupas, nas cadeiras, nas catracas, nos relacionamentos, no mercado de trabalho… na sociedade. A neura fitness é, sobretudo, uma neura pelo encaixe, pelo padrão que não considera a diversidade dos corpos, de suas existências, e ela precisa acabar.

Gordice: assim como suas variantes “pensamento de gordo” e “cabeça de gordo”, que nada mais querem dizer que comer algo gostoso é errado. Não, né? Primeiro porque reforça o estereótipo de que as pessoas gordas só são gordas porque comem demais e comem “o que não devem”, desconsiderando todos os outros fatores que interferem no peso de alguém. Segundo porque estimula a relação de culpa com a comida, gatilho para transtornos alimentares… E a gente já sabe onde isso vai dar.

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Pesado: parei de usar pesado como sinônimo de algo negativo já tem um tempo. Até entendo a relação com algo que seja “difícil de carregar”, mas para todos os efeitos, prefiro outros termos que não associem o peso a algo ruim. Algumas sugestões: difícil, complicado, tenso… 

Pessoa obesa: no léxico médico, obesidade é uma condição na qual a pessoa com IMC acima de 30 se encontra propensa ao desenvolvimento de outras doenças. Além de já termos visto que a tabelinha do IMC já está mais que ultrapassada, mesmo que obesidade fosse uma doença em si, ninguém é chamado pela doença que tem. Fazer isso, chamar uma pessoa gorda de obesa, é como colocar um alvo de “morbidade ambulante” em suas costas e, de forma reducionista, a impedir de exercer plenamente sua identidade e subjetividades.

A luta antigordofobia é uma luta por direitos básicos, que invariavelmente passa por como nos comunicamos e nos referimos em relação às pessoas gordas e seus corpos. Enquanto na mídia nossas representações continuam reduzidas aos seus estereótipos e a representatividade é pouca, na comunicação, pela fala, podemos ressignificar alguns conceitos e, assim, nossas existências. Que não esperemos mais.

Agnes Arruda sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma… E isso inclui os meios hegemônicos de comunicação. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação, dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia. Hoje dá continuidade a este trabalho, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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