
De volta a BH, eu me sentia untuosa. Aquele feriado no sítio reduziu-se à verdade do sexo. Quando contei a Y que estava grávida, naquele dia, enquanto rodávamos pela cidade, fumando um baseado e ouvindo “Tempo perdido”, ele foi categórico sobre não querer dividir comigo uma cama de casal de pinho ordinário das Lojas Sears e, ainda por cima, aos 19 anos, ser pai.
Tinha razão. A decisão de abortar não foi um dilema para ele e nem para mim. Na época que fiz o aborto, não. Mas hoje eu avalio as outras decisões que poderia considerar: confrontar o mundo, ter o filho e criá-lo sozinha ou confrontar o mundo, ter o filho e levá-lo para a adoção.
Na circunstância em que eu estava, abortar era mais responsável comigo mesma e com as pessoas que estariam envolvidas na gravidez do que ter e criar um filho. Quanto à adoção, eu não escreveria um final aberto para a minha vida e a vida de um filho meu. Havia chegado ali por ter deixado meu corpo me governar. Pois bem: agora, não deixava mais.
Em busca do remédio
Primeiro, tentei comprar o comprimido proibido, aquele que faz descer “a bola de sangue”, quem já passou por um aborto químico clandestino vai me entender. Tive pavor. Mas pensei: se eu não aguentar, procuro o hospital e invento mentira de que começou a sangrar, não sei o porquê.
Atravessei viadutos, passei por vielas, subi morros, caí em valas até entrar em uma farmácia aleatória numa avenida movimentada em um bairro miserável de Belo Horizonte. Achava que nesses lugares seria mais fácil conseguir o comprimido abortivo. Fiquei esgueirando pelos corredores, inventava cheirar sabonetes vagabundos, fingia ver preços, é como gastava minha aflição.
Eu tinha uma receita de um outro remédio para comprar. Fui até o balcão, o atendente era um homem. Mostrei a receita e, antes que ele fosse buscar o remédio prescrito, perguntei, olhando para os lados, em voz baixa, com medo de que se agravasse a minha situação:
– E esse aqui, você tem?
Eu havia escrito o nome do comprimido proibido atrás da receita que tinha. Lembro de ter ficado sabendo mais sobre o remédio abortivo em uma matéria que li nas páginas policiais dos jornais, algum ponto de venda deve ter sido estourado naqueles dias. O comprimido proibido era usado para tratar úlcera, mas podia ser comprado, na clandestinidade, para abortar.
A cara de mau que o atendente fez ao me perguntar se tinha receita para aquele “outro” remédio, apontando para o nome que eu havia escrito atrás da receita, fez de mim uma pária, e eu estava era grávida. A mão me segurou pelo pulso, pressionou-me contra o balcão. Do quente da boca, soprou: – Vou pegar o remédio da receita, da receita.
Só quando quis, me soltou. Saí da farmácia embalada.
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Pedindo ajuda de uma amiga
Atravessei uma avenida movimentada sem olhar para os lados. Tive de me jogar para a calçada, a fim de evitar um carro em alta velocidade, bati de encontro ao meio-fio e me vi jogada no asfalto. Caí sobre as mãos, as palmas ardiam. As coisas que estavam dentro da minha sacola de algodão cru esparramaram na avenida: minha identidade, a carteira com magras notas de dinheiro, meu porta-níquel cheio de moedinhas, textos xerocados da escola para estudar, meu pente de madeira, dois livros e as chaves do apartamento.
Catei minhas coisas, joguei o que pude dentro da bolsa, levantei e fiz sinal para o primeiro ônibus que passou. O ônibus não parou. Saí correndo atrás dele, perdi o fôlego dificultado pela corrida, escapou-me das mãos a carteira e o porta-níquel e não parei para recolhê-los. Para longe, voaram os textos da escola que eu segurava debaixo do meu braço. Da sacola que se rasgou quando caí no asfalto, vazaram a chave, o pente e os livros. Agarrei-os, balançando-os no ar.
Até então, eu não tinha contado para ninguém que estava grávida, além de Y. Resolvi me abrir com M, uma amiga da faculdade. Sem precisar implorar, dois dias depois que eu pedi ajuda, ela me passou um contato.
Eu estava no meu quarto, esticada na cama, a cabeça encostada na cabeceira, ocupada em reflexões. Mastigava biscoitos água e sal. Das minhas mãos esfoladas na queda no dia anterior, brotavam gotículas de um líquido pegajoso.
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A clínica que faz aborto por sucção
Na TV ligada, sem eu assistir, ouvia o Pedro Bial transmitir ao vivo os dias épicos que antecederam a Queda do Muro de Berlim, uma manifestação gigante acontecia no Portão de Brandemburgo e eu me sentia alheia àquele acontecimento que acreditávamos que mudaria o mundo para melhor, porque acabariam as divisões.
O contato que M me passou era um número de telefone e um endereço anotados a caneta azul, em letra miúda, num pedaço rasgado da folha pautada de um caderno de espiral metálico.
M sentou-se na beirada da cama e, frisando com a unha do polegar a bainha da própria blusa, me explicou:
– É uma clínica médica que faz o aborto por sucção, uma amiga de uma amiga de uma amiga do meu serviço fez e deu certo, não é uma casa de parteira – ela disse, referindo-se àqueles lugares que todo mundo sabe que existem, o que fazem e onde ficam.
– Sangra? – perguntei, tremendo e amontoando meu corpo próximo ao dela.
– Há de ser nada, se feito no tempo certo – ela respondeu, abaixando a cabeça e segredando-me ao ouvido.
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“Eu não queria me apegar ao bebê”
Hoje, examino esse segredo que M me revelou. Um aborto nunca será nada, ainda que cada mulher vivencie sentimentos íntimos e diferentes sobre esse acontecimento. Mas o tempo certo para fazer o aborto importou para mim.
Eu não queria me apegar ao bebê e calculava que, quanto mais cedo fizesse o aborto, menos desenvolvida estaria a gestação, o que diminuía o peso daquela minha decisão que eu suportaria sozinha. Ignoro a sorte que na vida teve M.
Fomos nos distanciando e ao fim do curso nem éramos mais tão amigas assim. Nunca falamos sobre o aborto uma com a outra, e não sei se ela falou sobre isso com alguém. Ninguém nunca comentou nada comigo. Muito tempo depois de formadas na faculdade, tive notícias apenas de que M havia casado, não tido filhos e trabalhava como jornalista na política. O sentimento que guardo por ela é o de gratidão.
Eu não entendia direito o mecanismo por detrás daquela palavra: sucção. Imaginava pelo nome. Naquele tempo, não existia internet. A novidade sobre abortos feitos por sucção, em clínica médica, chegou até as mulheres soprada pelo vento. Eu mesma não conhecia ninguém que já tivesse feito um aborto daqueles, nem usando outro método, embora soubesse que essas mulheres existiam e que estavam andando por toda a cidade.
O relato corresponde aos capítulos 8, 9 e 10 do livro “Do tamanho de um grão”, publicado este ano, enviado a AzMina pela autora N. Netta, e adaptado ao formato da seção Divã.

