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25 de outubro de 2021

Gordas merecem ganhar menos?

A gordofobia no mercado de trabalho é ainda mais cruel com as mulheres
Gordas merecem ganhar menos?

Semana passada circulou pela internet um áudio vazado de uma rede de farmácias no Rio Grande do Sul, que justificava a contratação de pessoas “bonitas” dizendo: “feio ou bonito, a gente vai pagar o mesmo preço”. Entre os critérios apresentados na mensagem para uma pessoa ser considerada feia na avaliação da recrutadora – fora a orientação sexual, o uso de piercings e a presença de tatuagens – estava o fato de ela ser gorda. Pois é!

Para além da interpretação de que “gordo é feio, magro é bonito”, o que se tira da mensagem é que o tamanho do corpo da pessoa é colocado entre uma lista de fatores que deveriam interferir na remuneração, como se tivesse um desconto para cada critério estapafúrdio não cumprido, e que não tem absolutamente nada a ver com a qualificação ou competência para a realização das atividades do cargo. O que muita gente não sabe, no entanto, é que isso já acontece. Sim, pessoas gordas, na verdade MULHERES GORDAS, recebem menos, e a gente não pode se conformar com isso.

Há duas pesquisas que apontam para esse dado: a primeira indica que mulheres gordas ganham de 3,9 a 9,1% menos para exercer as mesmas funções que mulheres magras. A informação está na dissertação de mestrado em Economia da Universidade de São Paulo (USP), de Adriano Dutra Teixeira, que analisou diversas bases de dados públicos do país. Com outros parâmetros de análise, esta monografia dá conta de que, a cada faixa de IMC (Índice de Massa Corporal), mulheres perdem 0,08% em sua remuneração. O estudo  foi feito por Gabriela Dornelas de Carvalho, na conclusão do curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Ao contrário do que acontece com as mulheres, no entanto, os homens gordos recebem mais que os homens magros. Na pesquisa de Teixeira, o acréscimo identificado foi de 7,2 a 14,4%. Já na pesquisa de Carvalho, o aumento na remuneração para cada faixa do IMC é de 0,24%. Puro suco do patriarcado cisheteronormativo que associa o homem ao provedor e a mulher à posse. Nesses papéis de gênero, a gordura masculina é vista como a capacidade de garantir sustento à família, enquanto a feminina é uma desobediência à performance de feminilidade vigente – da qual a magreza é um ponto de partida, como tratamos neste texto aqui.

Leia mais: Questão de gênero: a gordofobia é igual para homens e mulheres?

Ao longo desses anos pesquisando sobre o assunto – e vivenciando também essas experiências -, já recebi toda uma sorte de relatos de mulheres que sofreram gordofobia no trabalho. Vai desde as piadinhas dos colegas às empresas que fornecem uniformes menores que o tamanho da pessoa como “incentivo” ao emagrecimento. Essa gordofobia disfarçada também aparece nas empresas que promovem grupos de emagrecimento entre a equipe, entregando prêmios a quem perder mais peso, não importando o método. Do constrangimento ao distúrbio alimentar são dois pulos.

A descoberta desses dados, no entanto, leva a uma outra compreensão das estruturas do fenômeno que é a gordofobia, em especial em uma sociedade capitalista em que o poder de consumo também se relaciona ao exercício da cidadania. Nesse contexto, as mulheres gordas descem mais alguns degraus nessa escalada pela dignidade. E como se não bastasse esse disparate, cabe a gente lembrar que, no geral, mulheres já recebem menos que os homens. A diferença pode chegar a até 30% para exercerem a mesma atividade, conforme dados do IBGE. Nesse contexto, não fica difícil de imaginar a profundidade do abismo em que as gordas estão.

Agnes Arruda sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma… E isso inclui os meios hegemônicos de comunicação. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação, dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia. Hoje dá continuidade a este trabalho, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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