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27 de setembro de 2021

Questão de gênero: a gordofobia é igual para homens e mulheres?

Na tentativa de manter as mulheres sob controle, a vigilância e a punição em relação aos seus corpos é uma realidade que não vem de hoje
A gordofobia é igual para homens e mulheres?
Arte: Nazura/AzMina

Já faz alguns meses que temos falado de maneira sistemática aqui nesta coluna sobre o quanto a gordofobia não se restringe à dimensão estética, e o quão problemática é essa associação exclusivista de um preconceito que, como aponta Maria Luísa Jimenez em Lute Como Uma Gorda, é estrutural e institucionalizado. Falar sobre gordofobia é sim falar sobre privação de direitos básicos, invisibilização social, política e econômica, violência profunda e discriminação em uma série de ambientes. No entanto, na compreensão do fenômeno em sua perspectiva de gênero, a dimensão estética é uma camada importante que não pode ser transpassada sem um olhar mais atento.

Quando comecei a pesquisa para escrever O Peso e a Mídia, a ideia era falar sobre como ativistas e militantes antigordofobia se articulavam nas redes sociais na internet, em caráter contra hegemônico, para levar adiante suas pautas e reivindicações. Gorda desde a infância, as experiências de vida me levavam para a constatação óbvia de que o preconceito em relação ao corpo gordo tinha essa relação com a mídia massiva. Nesse sentido, para a comunicação antigordofóbica, seria necessário estar fora desse ambiente, e ali residia meu interesse, entendendo a comunicação como fundamental para compreender, combater e posteriormente ressignificar as questões dessa violência.

Ao apresentar a proposta de pesquisa para o meu orientador, um homem branco, cisgênero, heterossexual e magro por boa parte da vida, ele me fez um questionamento de curiosidade genuína: “E gordofobia existe?”. Climão 😳. Foi naquele que momento que me dei conta do quão restrita estava a discussão sobre o tema a partir de um recorte de gênero. Isso porque, a partir da dúvida do meu orientador, fizemos uma busca exploratória pelo termo, para dar início ao que na metodologia científica chamamos de “estado da arte”, um levantamento sobre o que já foi dito sobre o assunto que se pretende pesquisar. 

Descobrimos, em março de 2017, que a palavra não existia no dicionário e que na área da Comunicação não havia nenhuma dissertação de mestrado ou tese de doutorado sobre o tema registrada pela Capes, o órgão que atua na consolidação da pesquisa científica no Brasil. Constatamos também que, na internet, quem estava falando sobre o assunto eram justamente os grupos femininos e feministas, levantando a hipótese de que a gordofobia é sim mais sentida pelas mulheres do que pelos homens. Reflexo do patriarcado? Pode ter certeza que sim. Associação com o capital? Idem. Instrumentalização midiática? Também. E vamos pontuar esses três tópicos.

Leia mais: Como a mídia cria estereótipos que impulsionam a gordofobia

Na tentativa de manter as mulheres sob controle, a vigilância e a punição em relação aos seus corpos é uma realidade que não vem de hoje. Quem traça essa linha do tempo de maneira muito lúcida na cultura ocidental é Silvia Federeci, em seu livro Calibã e a Bruxa: mulheres, corpos e acumulação primitiva. Apesar de avanços em uma série de questões, essa prática está longe de acabar, ganhando requintes de crueldade, inclusive, promovidos pelo feminismo liberal, que insiste em chamar subjugação ao capital de emancipação. Das questões sexuais e reprodutivas, passando por comportamentos, modos de vestir e padrões de beleza e corporais, há um universo de procedimentos destinados especificamente ao público feminino e, sem os quais, elas são consideradas menos dignas dos papéis de gênero para os quais foram designadas.

Pilares de sustentação de uma sociedade centrada também na opressão de gênero, tornando-se a máxima do propósito de vida das mulheres nesse contexto, esses papéis servem ainda ao capital. O Brasil é o 4º maior mercado dos produtos de beleza e estética do mundo, de acordo com esta publicação da Forbes. Junta-se a isso este estudo do Sebare-SP, que aponta que 30% do salário das mulheres é direcionado a esse mercado, e começamos a entender o tamanho desse buraco que também tem outra camada de profundidade: a mídia hegemônica.

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Com sua sobrevivência pautada a partir da comercialização de espaços publicitários, para que as empresas continuem anunciando é preciso que os anúncios veiculados gerem resultados. Nesse sentido, ao fazer uso do “poder suave” uma estratégia de convencimento a partir de mensagens subliminares, os produtos midiáticos vão moldando pensamentos de certo e errado, criando objetos de desejo a partir de objetos de consumo.

Fica fácil de entender o que se diz a partir da indústria da moda, por exemplo, que tem no Brasil a sua nona economia mundial, conforme publicado pelo DGAB: produzidos em escala industrial, as peças são moldadas a partir de formas padrão, e precisam de corpos padronizados para consumi-las. Nessa lógica, não é a roupa que se molda ao corpo, mas sim o corpo que deve se moldar à roupa. Nesse sentido, a instrumentalização da mídia a esse propósito se torna evidente, assim como o uso do poder suave para nos fazer crer que desejamos determinados produtos e precisamos nos adequar a eles, não o contrário. Afinal, que corpos femininos são autorizados a serem felizes, bem-sucedidos, amados e respeitados nas representações midiáticas senão os magros? Os gordos que não são.

Agnes Arruda sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma… E isso inclui os meios hegemônicos de comunicação. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação, dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia. Hoje dá continuidade a este trabalho, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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