logo AzMina
28 de junho de 2021

Gorda não é palavrão!

Porque uma característica física não pode ser considerada xingamento
gorda não é xingamento

Essa é clássica do meu repertório: tinha terminado uma caminhada, estava suada e feliz pela prática do exercício. Era verão, fim de tarde de sábado, estava na praia. A noite prometia. Enquanto caminhava, fazia planos de sair com as amigas; pensava na roupa que iria vestir, onde iríamos nos encontrar, o que iríamos fazer. Muitas expectativas… Frustradas por um quase acidente.

Enquanto atravessava a rua, um carro em alta velocidade quase passou por cima de mim. Eu estava na faixa, havia me certificado de que não havia risco, mas não contava com a infração do motorista, que dirigia uma pick-up com uns outros quatro ou cinco caras na carroceria. Recuei, tomado o susto do quase atropelamento, e o inacreditável aconteceu. O motorista fez questão de reduzir a velocidade para gritar no meio da rua:

– TINHA QUE SER UMA GORDA, MESMO!

Não era a primeira vez que ouvia aquelas palavras, mas senti como se fosse a mais violenta de todas. O motorista cometia ao menos duas infrações de trânsito: dirigir em alta velocidade e carregar gente na carroceria, além de quase promover um atropelamento, que penso que se ele pudesse, o teria feito; mas quem estava errada era eu, única e simplesmente por ser gorda. Engoli aquilo a seco e fui para casa. Me tranquei no quarto, chorei até dormir. “Quanto ódio pode despertar o corpo de alguém”, pensei.

Se entendermos que gorda é uma característica física, fica fácil assimilar que ela não pode ser considerada um xingamento. Características físicas, mutáveis ou não, não refletem nem definem caráter, e a atribuição de valor ético a um dado estético é só mais uma das formas de cristalização de preconceitos. No entanto, gorda traz consigo o estigma que essa característica tem na sociedade. Tanto que, para amenizar o efeito dessa palavra, usam-se outras em seu lugar.

Leia também: Pandemia do preconceito: Ativismo gorde garante direitos quando gordofobia mostra cara

Fofa, forte, grande, cheia… São todos eufemismos para gorda, que a gente aprende desde a infância que é algo ruim. “Gorda baleia, saco de areia, comeu banana podre e morreu de caganeira” são versos que as crianças entoam direcionados àquelas que já foram percebidas com corpos maiores que os seus, em um ritual público de humilhação. Gorda se tornou uma palavra proibida, tanto quanto ser gorda hoje o é. 

Assim, quando se começa a inventar outros nomes para se dirigir às pessoas gordas, vemos também o processo de apagamento da identidade de quem habita o corpo gordo, justamente a partir da negação dessa característica. Tem-se aí, a partir das palavras, outra raiz da invisibilização das pessoas gordas; e quanto maior o corpo, mais invisível a pessoa se torna aos olhos da sociedade.

Cabe dizer que é esse o caso da própria palavra gordofobia, que só foi aparecer nos dicionário de língua portuguesa entre nos últimos dois anos. O que se pondera é que, se a palavra não existe, a coisa que ela representa também não se concretiza. Ao passo que dar nome às coisas é uma forma de conhece-las e, eventualmente lutar contra elas.

Assim, quando eu falo que pode me chamar de gorda, não é como se eu estivesse a fim de arrumar confusão, do tipo “me chama pra ver se você tem coragem mesmo!”; é que é preciso normalizar, em pleno 2021, que a característica física de alguém, independente de qual seja, não pode ser considerada xingamento!

Agnes Arruda sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma… E isso inclui os meios hegemônicos de comunicação. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação, dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia. Hoje dá continuidade a este trabalho, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Ei, você quer que o jornalismo feminista exista?

AzMina coloca tecnologia, dados e jornalismo a serviço do feminismo. Se você acredita nesse trabalho e quer que ele continue, apoie hoje o jornalismo independente que fazemos.

EU APOIO AZMINA