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O futuro do trabalho tem espaço para as mulheres?

O rápido crescimento da economia digital na pandemia trouxe um desafio para as brasileiras que enfrentam desigualdades históricas e jornadas duplas

O comércio eletrônico cresceu 68% em 2020 no Brasil e, com a pandemia da COVID-19, a adoção do trabalho remoto decolou, assim como a educação a distância. A acelerada transição da economia digital no mundo, juntamente com a  inserção de novas tecnologias, como inteligência artificial e robótica,  prometem redesenhar a natureza do trabalho. A questão que fica é: o futuro do trabalho está sendo pensado de forma a incluir as mulheres? 

A artesã Isabel Ribeiro, 61 anos, viu o isolamento social desafiar a existência da Associação de Artesãos de Campos Sales, no Ceará, que vende produtos feitos com palha de milho, couro e trançados há mais de 18 anos. Muitos clientes chegavam pela loja física e ela se sentiu  de mãos atadas desde o ano passado, sem saber como manter o negócio, coordenado por ela.

“Para mim está sendo difícil. Eu ainda estou meio perdida”, disse sobre a transição do negócio para o digital. Isabel conseguiu fazer uma conta no Instagram para a associação, mas as vendas virtuais são escassas e o balanço comercial já está perto do vermelho. Ela considera que domina bem competências digitais básicas, como acesso ao e-mail e às fotos no computador. Mas não tem noção de gerenciamento de redes, plataformas de vendas ou mesmo como usar planilhas eletrônicas para controlar o fluxo de caixa do negócio.

“O desespero da mulher empreendedora hoje é que ela já entendeu que o digital é necessário, que é a única saída, mas ela ainda não sabe como usar as ferramentas nos negócios”, explica Ana Fontes, fundadora e presidente da Rede Mulher Empreendedora (RME). 

A alta exigência por competências digitais e a demanda por estudos e requalificação são desafios para muitas profissionais no Brasil. Mulheres enfrentam jornadas duplas atreladas ao trabalho doméstico, algo que foi ainda mais acentuado durante a pandemia. Com a redução de redes de suporte presenciais, muitas se tornaram as únicas cuidadoras responsáveis pelos filhos e parentes. 

A transição para o futuro do trabalho pode ser uma oportunidade para promoção de equidade de gênero, com a possibilidade de as mulheres assumirem cargos mais bem remunerados e papéis de liderança. Mas também pode levar ao aumento das disparidades sociais e salariais, e eventualmente até à exclusão do mercado de trabalho.

“Se o mundo continuar como está, o futuro do trabalho vai ser de quem sempre ocupou as posições de poder: homens brancos, cisgênero, de classe média alta”, argumenta Silvana Bahia, idealizadora do PretaLab, um projeto dentro da organização Olabi, que busca estimular a participação de mulheres negras e indígenas no setor de tecnologia.

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Elas na tecnologia

Lorrane Santos, 27, começou a trabalhar ainda na infância. Quando fez 15 anos, ela foi selecionada para um programa de jovem aprendiz em Salvador e pôde realizar o sonho de comprar um computador. Com a bolsa de R$ 250 por mês, Lorrane cobria as parcelas do laptop que o tio dividiu em dez vezes no cartão e usava o restante do valor para ajudar a avó, que vivia de reciclagem, a pagar o aluguel e as despesas da casa.

“Ninguém na minha família me incentivou. Minha mãe queria que eu fizesse medicina ou engenharia para melhorar de vida”, conta Lorrane, que não desistiu. “Eu queria fazer daquilo a minha profissão. Queria investir no computador para estudar”. Hoje, ela trabalha como UX Designer em uma startup que vende soluções digitais para negócios.

Lorrane, no entanto, é parte de uma minoria na realidade brasileira. O número de mulheres no mercado de trabalho no Brasil caiu de 53,1% no quarto trimestre de 2019 para 45,8% no terceiro trimestre de 2020, o percentual mais baixo em 30 anos, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

Mesmo com a economia brasileira em baixa, o setor de tecnologia gerou 54 mil novos empregos em 2020, conforme dados da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais, a Brasscom. O problema é que mulheres como Lorrane ocupam menos de 40% de todas as vagas formais, enquanto os homens estão em 70% dos cargos de liderança. A pandemia também levou muitas mulheres a migrarem para o empreendedorismo digital por necessidade, onde encontraram novos desafios relacionados à manipulação de plataformas online e digitalização dos negócios, como foi o caso da artesã Isabel.

Segundo dados da Rede Mulher Empreendedora (RME), organização da sociedade civil que reúne mais de 1 milhão de mulheres donas de negócios no Brasil, 80% das empreendedoras foram impactadas pela pandemia. A maioria das empresas cadastradas na rede operava presencialmente a nível local antes da COVID-19. A mesma pesquisa do RME demonstrou que mais de 70% das mulheres não sabem como fazer vendas online ou não tem estrutura empresarial para fazer. Mais de 91% acreditam que as redes sociais são os únicos meios digitais para vendas pela internet.

“Existe uma questão de gênero no acesso às tecnologias que vai além das relações individuais e afasta as mulheres dessas carreiras”, afirma Iana Chan, CEO e fundadora da PrograMaria, que promove formação e engajamento de mulheres na tecnologia para  aumentar a diversidade no setor. Iana reforça que as mulheres enfrentam estigmas e estereótipos que associam carreiras em ciência, tecnologia e engenharia ao sexo masculino.

Um futuro do trabalho excludente também inquieta Emanuelly Oliveira, CEO e fundadora do Social Brasilis, que desenvolve programas educacionais voltados para o desenvolvimento de habilidades digitais e empreendedorismo em comunidades periféricas. 

“O avanço da tecnologia, principalmente da robótica e da automação, vai cortar postos de trabalho, que serão substituídos por sistemas e máquinas”, indica Emanuelly. Ela imagina um futuro do trabalho muito excludente para a população na base da pirâmide e, sobretudo, para as mulheres que têm menos familiaridade com as novas tecnologias. “Robótica, por exemplo, virou uma questão de gênero”, destaca.

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Sobrecarga pandêmica 

É preciso trazer  o fenômeno chamado de “crise do cuidado” para essa conversa. Cuidados com filhos, idosos e doentes, e as tarefas domésticas ainda são responsabilidades que recaem sobre as mulheres no Brasil. Inclusive, ficaram mais complexas com a crise sanitária: metade das brasileiras passaram a cuidar de alguém desde o início da pandemia , segundo levantamento da Gênero e Número e da Sempreviva Organização Feminista. 

A professora de espanhol Ivana Oliveira, 40 anos, é parte dessas estatística. Quando a pandemia foi declarada, ela estava de licença-maternidade. Mãe de um bebê recém-nascido e de uma menina de 11 anos, perdeu o emprego quando a licença acabou e precisou buscar  vagas em um mercado reticente com a crise econômica. 

Como muitas mulheres brasileiras, Ivana começou a empreender através de plataformas online. Ela criou uma conta no Instagram para buscar estudantes e divulgar seu trabalho, se inscreveu em uma pós-graduação em novas tecnologias aplicadas à educação, e abriu uma empresa para oferecer aulas através do Zoom. 

“Antes eu era professora, agora são várias novas responsabilidades. Eu administro a empresa, cuido da parte financeira e do marketing, faço contratos, planejo as aulas. Tudo isso no ambiente de casa onde surgem as demandas da família o tempo todo”, contou Ivana, que teve que se adaptar. 

Realidades como a de Ivana, mostram que é impossível pensar em um futuro do trabalho que seja inclusivo sem refletir seriamente sobre a distribuição e remuneração dos trabalhos de cuidado. 

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Redes de apoio para incluir 

Menos de 20% da população brasileira domina operações básicas de informática como copiar e mover pastas e arquivos eletrônicos ou enviar e-mails com anexos, segundo dados do último levantamento feito pela União Internacional das Telecomunicações, agência da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2019. 

Os números são piores entre as mulheres. Em competências especializadas, como a linguagem de programação, o total de mulheres hábeis não chega a 1,5% da população brasileira. A situação é ainda mais restrita quando analisada com recortes de raça. O total de mulheres negras e indígenas não chega a 2% dos profissionais do setor de tecnologia, segundo dados da Brasscom.

Em levantamento feito com 570 negras e indígenas que trabalhavam com tecnologia e inovação no Brasil em 2018, o projeto PretaLab identificou que mais de 50% chegou até o setor por contato informal, em grupos de apoio e pela internet. Para Silvana Bahia, idealizadora do projeto, a trajetória por caminhos não-tradicionais mostra a dificuldade que essas mulheres encontram para acessar cursos de graduação e educação técnica. “O fato de muitas dessas mulheres não serem absorvidas nas estruturais formais faz com que elas empreendam e busquem alternativas”, argumenta.

Aline Bezzoco, 30 anos, engenheira de software front-end há quase dez anos, começou a trabalhar como designer gráfico e com marketing digital antes de migrar para a tecnologia. “Eu sempre me interessei por tecnologia e quando era adolescente gostava de consertar computador”, recorda Aline. “A faculdade de ciência da computação me espantou porque era extremamente masculina e branca e continua sendo até hoje”, disse ela, que é negra.

Existem muitas iniciativas querendo mudar essa realidade, como Programaria, Preta Lab, Reprograma e tantas outras. E o  processo de inclusão e ascensão no setor passa pela desconstrução de estereótipos e estreitamento de redes de apoio, para evitar inclusive assédios. 

Quando decidiu migrar para a área de tecnologia no final de 2019, Aline Paz, 26 anos, atuava há sete anos como cabeleireira e maquiadora, e se sentia estagnada profissionalmente. Hoje, ocupando  um cargo de analista de sistemas, ela acredita  que encontrou as portas abertas durante a transição de carreira por causa das comunidades que surgiram nos últimos cinco anos para facilitar a inserção feminina no setor. 

“As redes de apoio ajudam muito. Ver que outras mulheres passaram pelos mesmos programas de treinamento e hoje ocupam cargos de gestão dá força para quem está começando”, revela Aline. Ela fez um bootcamp (tipo de treinamento intensivo) de três meses no projeto Reprograma – que ensina programação para mulheres – e, no estágio final do curso, foi contratada por um grande banco.

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