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24 de maio de 2021

Dá o play: 10 filmes para entrar agora na sua lista

Viver um dia de cada vez é quase um mantra para não enlouquecer como mulher exausta e brasileira. Que tal um filminho hoje? Merecemos respirar outros ares além das notícias políticas e mundiais
Arte: Nazura/AzMina

Sentar, relaxar e assistir um bom filme é o escapismo louvável diante da atual conjuntura nacional. Além de aumentar os níveis de endorfina no corpo, encarar o momento como algo que merecemos pelo menos uma vez na semana (e elencar como prioridade) pode ser colocado na lista de autocuidado para uma rotina mais satisfatória.

Eu amo cinema e costumo tecer algumas análises críticas marcadas com subjetividade das obras que assisto. Não estou falando de apontamentos necessariamente técnicos, todas nós podemos ter opiniões aprofundadas sobre filmes, documentários e séries, é um exercício divertido e acessível quando percebemos que as histórias ficcionais são capazes de ensinar sobre nós mesmas. 

Nos identificamos com personagens e também embarcamos na curiosidade de vê-los agindo de forma diferente da nossa, seja nesse mundo ou em novas criações. Ao mesmo tempo em que somos tocadas pela empatia e identificação emocional, sentimos desconfortos que, às vezes, mudam nossas perspectivas na vida.

Considero o cinema, como a arte num geral, uma ferramenta preciosa para transformações e a expansão da consciência. Divido com vocês a lista com 10 produções cinematográficas que valem o play:

  1. Uma canta, a outra não – Agnés Varda (1977):

bell hooks deu a letra em 2000: “uma mulher não pode ser antiaborto e defensora do feminismo. Ao mesmo tempo, não pode haver algo como ‘feminismo como poder’, se a noção de poder suscitada for poder adquirido através de exploração e opressão de outras pessoas”. No filme de Agnès Varda Uma canta, a outra não, a pauta aborto toma força e poderia muito bem ter sido lançado hoje. Temos aqui a amizade profunda entre duas mulheres bem diferentes em personalidade, gosto e classe social, mas que se conectam através do feminismo e da escolha em construir um vínculo amoroso. Não é uma produção que abraça o feminismo plural, porém Varda entregou um ótimo material sensível e crítico, como ela sempre se dispôs em seus trabalhos. Disponível no streaming Telecine

Reprodução (Mubi)
  1. Cenas de um Casamento – Ingmar Bergman (1973):

O cineasta sueco Ingmar Bergman sintetizou que Cenas de um Casamento é uma produção que aborda como “o ideal burguês de segurança corrompe a vida emocional das pessoas”. Bom, é sobre isso, a heteronormatividade patriarcal do casamento e muito mais. Um clássico perfil de homem professor/pesquisador universitário (“Eu não sei exatamente quem eu sou. E sei muito pouco da vida real, apesar dos livros que eu leio”) e um clássico perfil da mulher branca classe média alta advogada (tais escolhas profissionais são analisadas no filme), Johan e Marianne são casados há dez anos e aparentam ter uma vida perfeita. Até que Johan pede o divórcio para ficar com outra e, com isso, a dupla embarca em um período de reflexões sobre seus reais sentimentos e o tipo de relação que conseguem manter. Aguentamos verdades íntimas? Não suportamos ficar sozinhos? O que priorizamos? Onde está o gozo na relação falida, porém não encerrada? Coragem para romper, para morrer e renascer. Disponível no streaming Telecine

  1. A Vida Invisível – Karim Aïnouz (2019):

Rio de Janeiro, então capital do Brasil, final dos anos 1940. Eurídice, uma jovem talentosa, porém bastante introvertida, e Guida, o oposto de seu temperamento, são duas irmãs inseparáveis que moram com os pais portugueses em um lar conservador. Mesmo tendo um forte elo que as une, elas trilham caminhos distintos; Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento típico dos moldes da época (sem amor e abusivo). A trama é baseada no romance da jornalista e escritora Martha Batalha, “A vida invisível de Eurídice Gusmão” (2016) e sem apresentar cenas alegres do cotidiano das irmãs, foca nos acontecimentos doloridos. Provoca algumas pautas atuais e escancara como o machismo, o patriarcado e a desigualdade social podem anular a história de mulheres. Bonito, triste e sensível.  Disponível no streaming Telecine

Reprodução
  1. Queen & Slim – Melina Matsoukas (2019):

Um filme escrito por uma mulher negra e lésbica (Lena Waithe), dirigido por uma mulher negra (Melina Matsoukas) e protagonizado por atores negros. Não vou falar nenhum detalhe desse filme avassalador, pois embarquei sabendo pouco e fui tremendamente arrebatada. Algo muito forte veio enquanto assistia Queen & Slim: deixem as pessoas negras contarem as suas histórias através da própria ótica e leitura. Deixem as pessoas negras narrarem o amor, a dor, a luta e a esperança acerca de todas as camadas sociais que nos acolhem, integram, excluem e violentam. Sabem o que acontece quando nós exercemos o protagonismo das nossas narrativas? Somos fabulosos, como sempre. E não porque é isso que exigem da gente, afinal, “tem que provar que é capaz de fazer muito bem feito”. Somos naturalmente gigantes em essência, no intelecto e na sensibilidade, mas o racismo e o privilégio branco tentam nos escamotear de muitas maneiras. Toda vez que vejo um trabalho como esse de uma irmã/irmão negro (e também dos meus irmãos que estão no anonimato), eu ganho mais força na minha militância. Disponível no streaming Telecine

  1. Happy Togheter – Wong Kar Wai (1996):

Em 1996, o cineasta Wong Kar Wai esteve na América do Sul para filmar Happy Together. Rodado na Argentina, o longa narra a história de uma paixão queer em colapso: um casal de jovens chineses, em Buenos Aires, enfrenta turbulências numa relação marcada por inseguranças, violência e o ciúmes destrutivo durante términos e reconciliações. Dois estrangeiros presos numa relação e também no novo país, distante de casa. Sem grana, não conseguem voltar para Hong Kong e se viram em trabalhos de longas jornadas e baixos salários. Interessante pensar no estrangeiro, o estranho/intruso (as diferenças culturais e linguísticas entre China e Argentina, aproximação no futebol) e como às vezes temos a sensação de não pertencer nem à própria comunidade de origem. Ser estrangeiro (dentro/fora) e buscar pessoas afins (na mesma situação), pode trazer um pouco de acolhimento diante da solidão. Uma história sobre as escolhas que tomamos, boas ou ruins, e a ciclicidade da vida.

Deslocamento – desejo – chegadas – partidas – dor – alegria – início – fim – liberdade. Somos viajantes. Disponível no streaming Mubi

  1. Desobediência – Sebastián Lelio (2017):

O peso das instituições – família & religião – ainda moldam o comportamento, e até direcionam (ou impõem) caminhos específicos, de muita gente. Respeitando todas as crenças/descrenças, acho válido questionar sempre quando o assunto surge: de qual Deus estamos falando? Na cultura do judaísmo ortodoxo, como abordar novos caminhos e o amor entre duas mulheres? Desobediência é uma sensível narrativa, adaptada do livro homônimo de Naomi Alderman, e conta a história da filha de um respeitado rabino (afastada há alguns anos do núcleo religioso) que retorna a Londres no velório do pai e volta a encarar sua antiga paixão de adolescência. Dirigido pelo chileno Sebastián Lelio e produzido pela atriz Rachel Weisz, a obra abre espaço para discussões importantes como a relação entre pais & filhos e as expectativas cobradas por tradições que nem sempre vão fazer sentido para as futuras gerações, o tabu sobre a sexualidade e o afeto lésbico, o papel da mulher numa relação onde a religião assume forte presença, as decisões/desobediências que tomamos e o preço que se paga por assumir um posicionamento. Um filme bonito e necessário. Que cada vez mais produções LGBTQIA+ (também protagonizadas, dirigidas e produzidas por LGBTQIA+) ganhem destaque no audiovisual. Disponível no streaming Telecine

Reprodução
  1. O Som do Silêncio – Darius Narder (2020).

O Som do Silêncio oferece uma experiência sensorial, recomendo utilizar fones de ouvido para assistir o filme. No longa dirigido e co-escrito por Darius Narder, Ruben é um baterista de um duo punk/noise/metal com sua companheira e repentinamente, no meio da turnê, perde a audição. O rapaz, que está sóbrio do vício em heroína há 4 anos (a mesma duração de seu atual relacionamento), depende financeiramente da música e é codependente da namorada (e ela, por um período, dele). Ambos vieram de famílias disfuncionais (e para dependência emocional existir não precisa seguir somente tal conjuntura, mas o comportamento surge nas experiências ainda na infância) e, em algum momento da vida, na história ficcional se dá num período de sofrimento, se encontraram e toparam uma relação afetiva. A obra não se aprofunda muito na questão, porém posiciona abertamente que pessoas surdas não precisam de correção, não são uma parcela ‘defeituosa’ da população, algo que o capacitismo exclui na nossa sociedade ainda tão limitada para importantes expansões. O filme é crítico e faz refletir sobre hábitos, comportamentos, escolhas e o que fazer no agora com o que já aconteceu, do presente em diante. Disponível no streaming Amazon.

  1. 2046 – Wong Kar Wai (2004)

Tempo, amor e política: tudo se conecta no último, e belíssimo, filme da trilogia Eterno Feminino do cineasta chinês Wong Kar Wai: 2046; o número de um quarto de hotel e também, no exercício de futurologia do escritor Chow, o ano que guarda memórias perdidas em que tudo permanece intocável. Ter o amor como personagem principal da obra possibilita enxergar dois elementos essenciais para alquimia de um bom romance (ou como o inconsciente age algumas vezes): desejo e fantasia. A forma como as personagens são afetadas pelo sentimento separa o elenco no grupo dos que topam correr o risco e viver a paixão (ao menos tentar mesmo sem reciprocidade), e do outro lado a turma que, por algum motivo, não está disponível e esquiva das reais possibilidades de construir vínculos afetivos. Em ambos os casos ninguém está imune à dor. Acho interessante trazer Zygmunt Bauman no conceito do amor líquido e a ideia da liquidez do amor-próprio para relatar o tipo de relações interpessoais que se desenvolvem na pós-modernidade. O pano de fundo para os encontros e desencontros, e que influencia as escolhas amorosas, é uma China em 1966 (época da Revolução Cultural) quebrada economicamente, tretada e oprimida pelo Japão. Tal conjuntura de separação e instabilidade atinge diretamente a classe trabalhadora que protagoniza as histórias de Wong Kar Wai. Tem melancolia & mágoa, todavia existe beleza, encantamento e a vontade de celebrar o amor. Disponível no streaming Mubi.

  1. A voz suprema do Blues – George C. Wolfe (2020)

A Voz Suprema do Blues é uma adaptação original da peça teatral de August Wilson (1984) sobre a cantora Ma Rainey, conhecida como a “mãe do blues”, e outros músicos do gênero que se juntaram para gravar algumas canções num dia quente de verão em Chicago, no ano de 1927. A história simboliza a experiência dos negros norte-americanos no início do século 20: aqui, a música surge como uma poderosa ferramenta para contarem suas histórias. Sabendo que suas narrativas nunca entrariam nos livros que circulavam nas escolas, o blues garantiu que parte do legado negro não fosse esquecido. Os espaços do blues das mulheres negras foram e continuam sendo importantes, afinal, onde mais mulheres negras da classe trabalhadora podiam dizer em público o que compartilhavam entre si em particular? Tais palavras quando difundidas através da oralidade atingiam um número maior de mulheres, não somente as que sabiam ler. Teóricas e intelectuais feministas pesquisam há anos a tradição do blues das mulheres negras, Angela Davis e Patricia Hill Collins são bons exemplos. Disponível no streaming Netflix.

Reprodução
  1. A Montanha Sagrada – Alejandro Jodorowsky (1973)

É uma experiência audiovisual o cinema de Jodo: gosto de rever a obra de tempos em tempos pela quantidade de abordagens e críticas (históricas, artísticas, ocultistas, contraculturais, ao consumo e à sociedade judaico-cristã), como também para perceber em qual lugar eu sou mais tocada. Filmado no México e com trilha sonora assinada por Don Cherry, o longa foi financiado por John Lennon e Yoko na movimentada década de 1970. Num breve resumo a trama apresenta um alquimista que reúne um grupo de pessoas poderosas (ou grandes ladrões industriais e políticos) para representar os planetas do sistema solar. Sua intenção é submetê-los a rituais que impulsionam o despertar da consciência humana e enviá-los para a Ilha de Lotus, onde escalarão a Montanha Sagrada para substituir os deuses imortais que secretamente governam o universo. Quase um sonho surrealista que percorre as questões da nossa existência. Recomendo embarcar nessa jornada. Disponível no streaming Mubi

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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