
O isolamento desencadeado pela pandemia de Covid-19 parece ter nos influenciado a encarar uma inquietação de milênios. Algo possivelmente adormecido por nossas rotinas frenéticas ou deixado de lado devido às intensas demandas de trabalho, seja doméstico ou profissional. Refletir sobre a solidão, mesmo para quem não morava sozinha naquele período, pode ter se tornado constante, diante de interações presenciais tão limitadas.
Naquela época, o História Guardada, projeto que criei com o objetivo de reunir grandes paixões e ter um espaço para falar sobre História, Literatura e Arte, se tornou uma verdadeira válvula de escape. Ao compartilhar minhas leituras na internet, principalmente no Instagram, me deparei com comunidades literárias que encontraram diferentes formas para discutir os livros que consumiam.
Os clubes de leitura surgiram como um desdobramento quase natural daquele período de intensas interações digital-literárias. Queríamos voltar a ver rostos novos e escutar as engrenagens de cérebros alheios em ação, destilando desde os mais entusiasmados até os mais espinhosos comentários sobre uma narrativa.
Já naquela época, no final de 2020, um detalhe chamava especialmente minha atenção. Os encontros do extinto clube Artemísia, que fundei com três amigas, eram frequentados, em sua esmagadora maioria, por mulheres.
Um espaço para falar e ouvir
Fosse pela curadoria de títulos, que privilegiava principalmente autoras, ou pela estética meio girly, meio “botânica” usada nas divulgações online, nossas conversas foram permeadas pelas angústias de mulheres que queriam um espaço para falar, sim, mas, sobretudo, para serem ouvidas.
A partir de títulos como Insubmissas lágrimas de mulheres, de Conceição Evaristo, ou A vida mentirosa dos adultos, de Elena Ferrante (trad. Marcello Lino), tínhamos a oportunidade de múltiplas discussões. De temas universais, como desejo e amor, a angústias particulares, como episódios de assédio e os desafios da maternidade.
Depois dessa primeira experiência, tornou-se comum participar, como mediadora ou ouvinte, de outros clubes. Nesses, a frequência era sempre marcada por uma curiosa minoria masculina.
Em um encontro promovido pelo História Guardada e pela Salvo Conteúdo, discutimos Lúxuria, de Raven Leilani (trad. Ana Guadalupe). Ali, pude constatar mais uma vez a qualidade da ficção contemporânea produzida por pessoas negras — tantas vezes acusada de identitária (não por acaso, por grupos sociais hegemônicos) ao abordar abertamente questões de raça, classe e gênero.
Neste livro, a protagonista Edie é uma afro-estadunidense afetada pela dívida universitária. Se desdobrando em trabalhos precarizados para sobreviver, ela conhece um homem branco de meia-idade que acaba de abrir o casamento. Logo Edie se insere nessa dinâmica matrimonial, e se aproxima da filha adotiva do casal, Akila, que também é uma menina negra.
Nessa espécie de romance de formação, a protagonista enfrenta os dilemas de quem sonha em viver da própria arte, mediando dores e talento, como mostram Patti Smith e Robert Mapplethorpe no incrível Só garotos (trad. Alexandre Barbosa de Souza).
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Experiências de transformação
Outra experiência transformadora foi conversar sobre Herança e testamento, da norueguesa Vigdis Hjorth, um romance traduzido por Kristin Garrubo que merecia bem mais atenção. Nesta coluna, não trabalharemos com spoilers, é claro, então direi apenas que foi catártico percorrer essa leitura com a certeza de que poderia debatê-la depois.
No livro, uma mulher se envolve na disputa por uma herança, e memórias traumáticas surgem para instigar quem lê sobre a imortalidade dos dissabores da infância.
Passei a enxergar a potencialidade das comunidades digitais de leitoras para o fortalecimento de laços feministas, a partir desses momentos vividos ao lado de outras mulheres,. É claro que os debates ali travados podem — e devem — ser expandidos para todos os espaços, inclusive os presenciais.
Estamos cansadas de ver que, fora das nossas bolhas, o conservadorismo não para de avançar. Por outro lado, os clubes de leitura comprometidos com a equidade de gênero podem ser pequenos oásis. Eles oferecem a possibilidade de frequentar um espaço seguro para o livre debate e também difundem narrativas imaginadas por pessoas que, historicamente, foram segregadas do cânone da literatura.
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Clubes podem trazer novos horizontes para a leitura
Por isso, nesta coluna de estreia do História Guardada, reunimos onze iniciativas para ficar de olho e — quem sabe? — encontrar o livro que vai transformar a sua experiência como leitora:
- AzMina + História Guardada: A partir de maio, a Revista AzMina e o História Guardada unirão forças para explorar o feminismo e as questões de gênero, raça e classe a partir dos livros. Você é nossa convidada, é claro, e pode saber mais sobre essa parceira aqui;
- Clube Leituras Decoloniais: Organizado pelas irmãs Pétala e Isa Souza, Camilla Dias e Maria Ferreira, o Clube Leituras Decoloniais fomenta diálogos afastados do pensamento colonial, com ênfase na leitura de autoras;
- Leia Mulheres: É provável que exista um Leia Mulheres na sua cidade. Criado em 2015 por Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, o projeto se espalhou pelo Brasil e pelo exterior, com reuniões mensais para discutir livros escritos por mulheres;
- Clube de leitura para pessoas negras: Conectando ancestralidade e literatura, Camilla Apresentação e Karou Dias leem obras de pessoas de diversas identidades de gênero. O objetivo é fortalecer uma comunidade afrocentrada a partir da leitura;
- Texto Junkies: Mediado por Jonas Maria, o clube promove a leitura e discussão de obras trans. O Texto Junkies foi semifinalista do Prêmio Jabuti em 2024 na categoria Fomento à Leitura;
- Raízes do Horror: Todo mês, Dayhara Martins nos conduz por leituras dissidentes que reinventam o gênero do horror;
- Salvo: A curadoria do clube mensal da Salvo Conteúdo, encabeçado por Nastasha de Ávila e Caroline Holder, privilegia histórias nacionais e internacionais com autoria feminina;
- Latino hablante: Preocupada em explorar a literatura latino-americana, a professora Beatriz Quaresma seleciona majoritariamente escritoras. Os encontros são realizados em espanhol, mas com total liberdade para o debate também em português;
- Leitura mista: Você quer ler brasileiras? Então aqui é o seu lugar! E ainda tem a vantagem da maioria dos encontros mediados pela Beatriz Assad contarem com a presença das autoras;
- Brava: Apesar de não serem encontros fixos, vale muito acompanhar o trabalho de difusão intelectual e literário que o projeto Brava promove, organizando clubes esporádicos;
- Buque Clube + Afilka: Se você é da capital de São Paulo e quer participar de um clube presencial, essa pode ser a iniciativa ideal. Os encontros são mensais, e é preciso ficar ligada nas inscrições divulgadas no Instagram;
Outras comunidades literárias
Se os clubes não são a sua praia, sem problemas, existem outras formas de se aproximar de comunidades literárias na internet. Vale testar o Substack, uma plataforma de newsletters que permite interações similares às do X/Twitter, ou explorar a hashtag #leiamulheres no Instagram.
A leitura não precisa ser uma atividade solitária, mas uma maneira de fortalecer perspectivas feministas sobre a literatura. Se a ideia te atrai, esse é um convite para seguirmos juntas, na luta e na reflexão sobre a presença das mulheres e dos corpos dissidentes no universo literário.
*Esse texto foi escrito por Ana Clara Pecis, historiadora formada pela UFRJ e mestranda em Estudos Literários na UFJF. Sua pesquisa se concentra na literatura contemporânea produzida por mulheres na Argentina e suas relações com o realismo mágico.
