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8 de março de 2021

Contar a nossa história é um ato político

Ter consciência de si e do que é ser negro em um país racialmente desigual, nos dá força e autoestima
contar nossa história
Esperança Garcia, a primeira advogada do Brasil. Ilustração: Valentina Fraiz

Aqualtune, Antonieta de Barros, Maria Firmina Reis, Esperança Garcia, Luíza Mahin entre tantas outras, são mulheres negras que fazem parte da história do Brasil. Por que não estudamos essas figuras na escola? Talvez a nova geração não vivencie a carência educacional que diante da alienada crença no mito da democracia racial, naturaliza e marginaliza pessoas com o tom da pele escura e evidência somente personagens brancas nas narrativas de um país composto majoritariamente por pessoas (e uma vasta cultura) negras, sem escamotear as contribuições indígenas. Pensar o Brasil como um país branco não faz o menor sentido.

A complexidade é tamanha quando falamos dos registros históricos das contribuições negras e indígenas no país, especialmente do período que antecede a Abolição da escravatura em 1888, pois muitos documentos oficias foram destruídos ou mesmo nem existem, visto que parte dessa população à época não era letrada para conceber tais registros e muitos sequer tiveram a possibilidade de serem retratados em pinturas. Sem nos prendermos unicamente às comprovações manuscritas, que por vezes não são consideradas verdadeiras, somamos o reconhecimento da tradição oral que aos poucos vem sendo validada pela academia (que é por regra eurocêntrada). Desse modo, podemos tocar agora numa ferida colonial secular aberta (após a tardia Abolição, a liberdade não significou igualdade) e que dói principalmente em nós, pessoas negras: o projeto de genocídio ainda em curso contra os corpos não-brancos.  

Além do importante recorte de raça, que com uma boa dose de consciência crítica pode fazer apurar o olhar para os próprios privilégios, o apontamento de gênero frisa que mulheres negras são invalidadas por aqui desde a época conhecida como ‘Terra de Vera Cruz’, nome dado ao extenso território continental logo no primeiro ano da invasão dos colonizadores portugueses. Os números do Atlas da Violência de 2020 reafirmam que quem possui maiores chances de sofrer com a violência estrutural, institucional e policial (encarceramento em massa brasileiro mira no ‘preto favelado’) é o homem e a mulher negra. 

Mulheres negras como base da pirâmide socioeconômica são as mais violadas a nível psíquico, emocional, físico e sexual e as que recebem os menores salários; mulheres negras periféricas estão mais vulneráveis a enterrarem seus filhos; mulheres negras periféricas, nordestinas e nortistas, de Axé, lésbicas, gordas, transexuais ou deficientes, possuem voz ativa nessa sociedade capitalista/ racista/ classista/ patriarcal que ainda não se desvencilhou e até mesmo glorifica a herança casa-grade e senzala? A resposta é não. A amnésia histórica validada politicamente por um governo que compactua com o negacionismo e discursos misóginos, prefere ignorar quando encaramos firme o questionamento ‘Quem matou? Quem mandou matar (Marielle, presente)? Quem autorizou a violação do nosso direito de existir?’. 

Leia mais: Luisa Mahin, Esperança Garcia, Antonieta de Barros, Maria Firmina Reis e Aqualtune, as heroínas negras do Brasil

No espaço acadêmico, especificamente nas universidades públicas, locais que têm muito a proporcionar na troca entre alunos e professores, mas que ainda hoje, a depender do curso, os rostos negros são raridade e quando ocupam precisam provar com mais rigor o título de Mestre e Doutor, a recusa em abraçar as epistemologias não hegemônicas limita a expansão de outros entendimentos, já que o racismo dita erroneamente que inteligência e negritude não coexistem. Pelo exposto, o mais habitual é que pessoas que integram grupos étnicos e racializados apareçam mais na forma de objetos de estudo de especialistas brancos do que como condutores das suas próprias análises. Entretanto há os que estão na contramão e optam por acessar o conhecimento de maneira plural e inclusiva, como no caso de mulheres negras pesquisadoras que se debruçam sobre o pensamento e trajetória de intelectuais negras africanas, brasileiras, latino-americanas e caribenhas. 

Embora seja estabelecida por lei desde 2003 (Lei 10.639/03) a difusão obrigatória da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio, não é uma realidade em 2021. Para  mergulhar nesse outro lado oculto da história do país, encontramos na literatura uma poderosa ferramenta de preservação da memória coletiva de mulheres negras invisibilizadas que fizeram e continuam fazendo história – mesmo assim nenhuma mulher negra faz parte até hoje da Academia Brasileira de Letras ; em 2018 a instituição preferiu o cineasta Cacá Diegues do que a escritora Conceição Evaristo. Outra mineira, a também escritora Ana Maria Gonçalves lançou em 2006 o celebrado e indispensável romance histórico ‘Um defeito de cor’ que apresenta a saga ao longo de oito décadas (em suas quase mil páginas) da protagonista Kehinde, mulher africana capturada e trazida como escravizada para o Brasil. Kehinde em solo tropical ganhou outro nome, mais branco: Luísa Gama, presença forte dentro de duas rebeliões, a Revolta dos Malês (Bahia/1835) e a Sabinada (Bahia/1837), e mãe do importante abolicionista e poeta  brasileiro Luíz Gama. 

Leia também: Autoestima das mulheres negras: precisamos nos amar e descobrir nossa identidade

E se ainda hoje muitos consideram ser negro ‘um defeito cor’, como explica Ana Maria no livro, “na nossa delicada belle époque colonial, você, escurinho pretendente a cargo público, tinha que assinar documento abdicando oficialmente da cor da pele. Pois os tais cargos, militares e civis – eclesiásticos também, ôlálá -, só podiam, naturalmente, ser ocupados por brancos”, basta lembrar que em 1978 a poeta afro-peruana Victoria Santa Cruz declamava Me Gritaron Negra’ com a força de quem levanta a bandeira antirracista que deveria estar intrínseca aos princípios feministas. Na tradução livre:

“De hoje em diante 

não quero alisar meu cabelo 

Não quero 

E vou rir daqueles, 

que por evitar – segundo eles – 

que por evitar-nos algum disabor 

Chamam aos negros de gente de cor 

E de que cor! 

NEGRA 

E como soa lindo! 

NEGRO 

E que ritmo tem! 

Negro Negro Negro Negro’’. 

Nos fortalecemos ao contar nossas histórias como ato político de trazer consciência para um passado traumático que não foi esquecido. Não cabemos em fantasias brancas do que deveríamos ser, somos diversas.  Conhecer e honrar nossa história, assim como perceber os processos de desumanização impostos pela colonização (perpetuados  no racismo/machismo), nos dá força e autoestima. 

Descolonizar não é uma opção, é uma necessidade.

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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