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Maria é branca, tem cabelos loiros e está sentada com o joelho dobrando vestindo uma roupa clara.
30 de abril de 2026

Cresci em uma seita: trauma, silêncio e o caminho para sobreviver

Depois de anos em um grupo religioso abusivo, uma artista conta como o feminismo e a arte a ajudaram a reconstruir sua história

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Ilustração em estilo gráfico e artístico, com paleta vibrante em tons de azul, roxo, rosa e amarelo. Vista de cima, uma xícara posicionada no centro da imagem contém uma bebida quente, provavelmente café ou chá. A xícara tem formato arredondado, com alça visível à direita, e está apoiada sobre uma superfície plana. Ao redor da xícara, folhas espalhadas sugerem elementos naturais, como se a bebida estivesse associada a ervas, plantas ou um contexto de pausa e contemplação. As folhas aparecem em posições diagonais, criando sensação de movimento visual. O fundo apresenta textura granulada em azul intenso, com sombras diagonais que adicionam profundidade à composição.

Escrever sobre mim é muito mais difícil do que escrever sobre qualquer outro tema. Quando a câmera e a narrativa se viram para mim, não há método que sustente. Sempre acreditei que contar nossas próprias histórias é curativo. Mas há partes da minha que levei anos para curar. Falei um pouco em “Nós, Madalenas – vol II”, mas ainda há muito a dizer.

Há anos me dizem que eu deveria escrever um livro e que isso daria um filme. Já tentei transformar o que carrego em imagens e nunca consegui traduzir o que senti e vivi. Talvez me falte talento — ou força. Hoje foi uma noite difícil: pesadelos, paralisia do sono, pânico. Certos traumas permanecem, no medo, na ansiedade, na exaustão constante de existir. Conviver com Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT-C) é assim. 

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Feminismo bem informado

Eu cresci em uma seita liderada por um guru abusivo que usava o chá conhecido como ayahuasca para manipular pessoas dentro de uma doutrina que ele dizia ser da União do Vegetal, mas não era. Ele se autoproclamou mestre e, como não foi aceito, criou a própria seita com o mesmo nome, estatutos e boletins — o que gerou uma disputa judicial.

Não tenho nada contra o chá, utilizado há séculos por povos indígenas e tradicionais em seus próprios ritos. Discordo da apropriação dessa prática para sustentar dogmas cristãos colonizadores, reforçando culpa e pecado. E mais grave ainda: fazer isso com crianças. Eu bebia o chá regularmente desde os dez anos. Minha formação, meu crescimento e minha compreensão do mundo foram profundamente afetados por essa experiência.

Fui afastada das minhas redes de afeto

Como quase sempre acontece, a estratégia dos gurus abusivos começa isolando as pessoas de suas redes de afeto: família, amigos, qualquer vínculo fora da fé. Cresci cada vez mais afastada do mundo externo. Hoje reconheço esse padrão. Depois de tantos casos expostos — como João de Deus — e das denúncias contra líderes religiosos de diferentes vertentes, ficou evidente que o roteiro se repete. A internet, a quarta onda do feminismo, o #MeToo me ajudaram a nomear isso.

Mas nos anos noventa eu tinha dez anos. Não havia informação, nem debate público e pessoas em luto ou fragilidade são alvos fáceis. Essas seitas se aproveitam justamente dessa vulnerabilidade para recrutar e controlar.

Quando consegui, quase por milagre, fugir daquele lugar eu tinha 23 anos. Foram treze anos de abusos emocionais, psicológicos, físicos e sexuais. Já tinha sido humilhada, mantida em cárcere, chantageada, extorquida, estuprada. Vivi por anos sob um sistema perverso de punições e recompensas — ora excomungada, ora “escolhida”; ora expulsa, ora tratada como especial. Trabalhei até a exaustão, adoeci, parei de dormir, vomitava tudo que comia, desmaiava, me feria. Tentei me matar.

Não vou entrar em detalhes sobre a intensidade e a perversidade do que vivi. Hoje tenho o apoio da minha família para me tratar, a seita não existe mais e o guru já morreu. Nada disso muda o que aconteceu. Eu teria gostado de vê-lo responder por tudo, apodrecendo numa prisão. Às vezes, nos meus sonhos, rio da megalomania daquele homem patético. É libertador.

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Sobreviver não me tornou mais forte

Estou longe da linha gratiluz: sinto raiva, há coisas imperdoáveis. Sobreviver não me tornou mais forte, afinal trauma não é escola, abuso não é aprendizado e nada disso “tinha que ser”. Vivemos uma epidemia de feminicídio enquanto o sistema exige docilidade e perdão. Não há nada mais patriarcal do que nos cobrar complacência. Eu não quero a morte deles — quero que sofram as consequências. E que sejam desmoralizados. 

Demorei anos para falar sobre o que me aconteceu e mais tempo ainda para entender que foi um crime de gênero. Que ele fez o mesmo com outras mulheres, porque homens assim nunca têm apenas uma vítima. Descobrir que outras pessoas passaram por experiências parecidas foi, ao mesmo tempo, devastador e esclarecedor.

Hoje existem dicas para famílias identificarem abuso em contextos religiosos. As estratégias se repetem no mundo inteiro: reconhecer uma vulnerabilidade, criar proximidade, fazer a vítima se sentir única, compartilhar segredos. É um roteiro mórbido — e, ainda assim, seguimos nos surpreendendo.

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Coloquei arte no mundo e encontrei o feminismo

Mas a pergunta é: o que fazer? No meu caso, eu fiz arte. Antes de conseguir nomear o que vivi, coloquei arte no mundo e encontrei o feminismo. Escrevia nos corpos de mulheres palavras que representavam suas lutas e fotografava esses corpos reais, sem retoques, contando suas histórias sem suavizar nada. Ali começou meu longo processo de recuperação.

Retratar mulheres, acolhê-las, ajudá-las a se reconectarem com seus corpos e histórias foi fundamental, porque cada mulher que se cura também me cura. Claro que não foi só com arte que sobrevivi: foram anos de terapia, análise, medicação. Tenho acompanhamento psicológico, psiquiátrico, hormonal, gastrointestinal, do sono — porque o trauma atravessa tudo.

Meu trabalho se voltou para curar a relação com o corpo e reconciliar nossas histórias. É no corpo que vivemos tudo isso e é dele que o sistema nos afasta, pela pressão estética, exaustão e sobrecarga. No projeto Photomedicina, busco resgatar gentileza e compaixão por nós mesmas — aquilo que primeiro nos é tirado — e criar vivências que nos reconectem com nosso valor e nossa humanidade, tantas vezes apagada.

Minha arte me levou a questionar tudo — inclusive a entender que não quero casar nem ser mãe. Assumir isso exigiu coragem. Me levou do sertão a Nova York, onde fui premiada pela ONU Mulheres. Fui publicada em outros países, lancei livros, fiz exposições, ganhei prêmios. Mas, mais do que isso, a arte me aproximou de outras mulheres e de suas criações. Me ensinou a descentralizar o amor romântico, que o ativismo também cura e que não estou sozinha nas minhas dores e dúvidas.

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Sou uma pessoa comum, mas com um trauma

Eu não tenho grand finale. Continuo doente, não sou rica nem famosa, não encontrei príncipe encantado — nem acredito nisso. Também não encontrei “deus”; questiono essa ideia de um deus masculino, patriarcal e punitivo. Sou uma pessoa comum, com problemas comuns: boletos, a cozinha que nunca fica limpa, a musculação obrigatória, a proteína que agora parece regra. A diferença é que carrego um trauma imenso — e também não sei a solução.

No fim, cada uma faz o que dá conta. Existe algo além disso? Acho que não. Talvez reste a gentileza com nós mesmas — e o perdão por não termos sabido antes o que sabemos hoje. Se fosse hoje, eu não deixaria acontecer. Mas eu não sabia.

E talvez o mais importante seja lembrar que não estamos sozinhas. Lembro de 2013, no início da quarta onda feminista no Brasil, quando compartilhávamos PDFs da Simone de Beauvoir no Facebook e vivíamos um despertar coletivo: entender que nossas dores tinham nome e estrutura. Não era loucura nem exagero — era sistema. Quando uma mulher fala, outras se reconhecem. Uma história puxa outra, rompe o isolamento e devolve humanidade ao que tentaram silenciar. É por isso que conto a minha aqui.

*Texto revisado com uso de IA

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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