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18 de agosto de 2025

A corrida para ser perfeita antes dos 30 (e o preço que pagamos por ela)

O que a literatura e o audiovisual nos mostram sobre a crise de identidade feminina aos vinte e poucos anos

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Colagem digital de mulher em vestido verde estampado está dentro de bandeja plástica transparente, cercada por bandejas vazias, sobre fundo rosa.

A pressão para ser bem-sucedida antes dos 30 anos, no trabalho, no amor e, muitas vezes, na maternidade, é uma expectativa silenciosamente imposta às mulheres. Vivemos com a sensação constante de que é preciso fazer mais, ser mais, alcançar mais, como se houvesse uma linha do tempo ideal, criada por um conjunto de exigências sociais, culturais e familiares.

Em “Pessoas normais” (2019), romance de Sally Rooney, publicado no Brasil pela Cia das Letras e traduzido por Débora Landsberg, acompanhamos Marianne, uma jovem que atravessa uma crise de identidade comum entre as mulheres na casa dos vinte. Mesmo com conquistas aparentemente sólidas, ela se vê imersa em inseguranças, dúvidas e um profundo sentimento de inadequação.

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Feminismo bem informado

Marianne tinha a sensação de que sua vida real acontecia em outro lugar, bem distante dali, acontecia sem ela, e não sabia se um dia descobriria onde era e se seria parte dela.”

Experiências afetivas moldam diretamente sua identidade emocional e alimentam a insegurança da personagem. Acompanhando sua trajetória, percebemos a dificuldade de uma geração (especialmente de mulheres) em se comunicar, se entender e se posicionar em um mundo que exige respostas rápidas, estabilidade e sucesso. Mesmo tendo acesso a uma vida confortável, Marianne não escapa das pressões e cobranças. 

E se não houver o certo?

Em contextos diferentes, mas com sentimentos parecidos, o filme “Frances Ha” (2012) nos apresenta Frances, uma jovem de 27 anos que mora em Nova York, é aspirante a dançarina, mas a carreira não decola. Ela vive sem casa fixa, sem emprego, sem rumo definido. Nessa dinâmica, a personagem representa a sensação de desalinhamento entre quem somos e quem achamos que deveríamos ser ao nos aproximarmos dos 30.

Frances sente o peso de não ter “dado certo”, mas o filme inverte a lógica e propõe outra pergunta: e se não houver o certo? E se a vida não seguir uma linha reta de conquistas? E se a realização estiver no caminho, e não na chegada? 

É movida por esse impulso de busca e reencontro consigo mesma que Frances estoura seu cartão de crédito para viajar sozinha para Paris. Lá, encara o vazio e reconhece a urgência de criar algo, não apenas uma carreira ou uma casa, mas um espaço interno onde finalmente possa pertencer.

Essas mudanças constantes refletem um sentimento comum entre mulheres que estão quase nos 30: a impressão de estar sempre correndo, mas sem chegar a lugar nenhum. Uma sensação de deslocamento, de instabilidade emocional e financeira, mesmo diante do esforço contínuo. É como se houvesse uma promessa de chegada a um lugar de conforto que nunca se cumpre.

Em um dos momentos mais marcantes do filme, Frances verbaliza esse sentimento de desencontro interno e das pressões de uma geração: “Estou tão envergonhada. Ainda não sou uma pessoa de verdade.”  A frase resume o peso de não corresponder às expectativas, seja das outras pessoas ou as suas.

Sob a redoma da expectativa

Essa angústia, embora atual, não é nova. Em “A redoma de vidro”, publicado originalmente em 1963 e lançado no Brasil em 2019 — com nova tradução de Chico Mattoso pela Editora Biblioteca Azul —, Sylvia Plath já descrevia esse sentimento com precisão. 

Esther Greenwood, sua protagonista, é uma jovem talentosa que mesmo diante de oportunidades profissionais e acadêmicas, se sente esmagada pelas expectativas do que significa “ser mulher”. A redoma do título simboliza o isolamento, o sufocamento e a distância entre ela e a vida que parecem esperar de alguém como ela.

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.

Assim como Marianne e Frances, Esther se vê dividida entre aquilo que poderia ser e o que a sociedade exige que ela seja. O conflito entre liberdade e aceitação, entre identidade e performance social, marca a narrativa de muitas mulheres que chegam à vida adulta sem se reconhecer nos modelos que lhes foram oferecidos.

Opressões que se cruzam

Essa redoma, que pode assumir diferentes formatos, também é a que sufoca Nanda, protagonista de “Controle”, de Natalia Borges Polesso. Epiléptica e em processo de descoberta da própria sexualidade, ela enfrenta os conflitos de uma família superprotetora, dilema compartilhado por muitas pessoas com condições neurológicas ou físicas diversas:

Eu não sei o que é isso, Joana, entende? Ser independente. Não precisar que ninguém fique olhando se eu não vou cair no chão sem conseguir limpar minha própria bunda, será que eu vou poder morar sozinha, ter uma vida besta, simples, normal (…)?”

A intersecção de opressões que podem atravessar a vida de mulheres jovens — como o sexismo, a LGBTfobia, o capacitismo e o racismo — revela como a crise dos vinte e poucos anos também é marcada por questões estruturais e sociais profundas.

Nesse sentido, livros como “Garota, mulher, outras”, de Bernardine Evaristo, traduzido no Brasil por Camila Holdefer, ajudam a refletir sobre o impacto da raça e da sexualidade na juventude. 

Evaristo reúne histórias de mulheres racializadas muito diferentes entre si, em sua maioria pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+. A partir delas, realiza um trabalho primoroso com a linguagem para retratar anseios e inseguranças que evidenciam: “quando você ainda está na faixa dos vinte, é cedo pra falar em futuro.”

Encontrando o amor em outros lugares 

Uma das pressões mais presentes nesse roteiro silencioso das expectativas sociais é a ideia de que aos 20 e poucos é preciso encontrar um grande amor. 

Desde cedo, mulheres são ensinadas que o amor só é legítimo quando leva à formação de uma família tradicional, com dois parceiros unidos por um “felizes para sempre”. Por isso, a chegada da idade “certa” vem acompanhada de uma pressão sufocante: ou se constrói essa família agora, ou será tarde demais.

No livro “Comunhão: a busca das mulheres pelo amor” (2024), de bell hooks, publicado pela Editora Elefante e traduzido por Julia Dantas, a autora amplia a visão sobre esse sentimento. Para ela, o verdadeiro amor não se resume ao campo romântico; muitas vezes, ele nasce com mais força na amizade. Como escreve: “amizades longas e profundas são o lugar onde muitas mulheres conhecem o amor duradouro”. 

A pressão pelo amor romântico desvia o olhar, e com ele, o afeto e a atenção que poderiam ser dedicados a outras formas de vínculo. Ao viver em função de um único tipo de amor, muitas mulheres acabam negligenciando relações que também sustentam a vida em silêncio: as amizades e os amores que não exigem promessas eternas, mas oferecem presença e cuidado. 

Nem sempre precisamos “chegar lá”

Nem sempre é fácil perceber quando se está seguindo um roteiro que não foi escolhido. Mais difícil ainda é encontrar coragem para reescrevê-lo, especialmente quando nos dizem, desde cedo, que há uma idade certa para tudo.

Talvez o maior alívio venha quando entendemos, de verdade, que não existe um tempo exato para ser quem somos. É o que vemos em “Too much” (2025), série criada por Lena Dunham para a Netflix. Jessica, a protagonista, precisa reconstruir a própria vida e autoestima depois de ser rejeitada por um parceiro romântico e ver sete anos de expectativas desmoronarem.

Com as personagens aqui citadas, vemos que a vida não acontece em linha reta, nem se resolve aos 30. Crescer também é aceitar que dúvidas fazem parte do caminho, que algumas respostas nunca chegam e que é possível seguir mesmo sem saber exatamente para onde está indo.

A verdadeira conquista pode não estar na chegada, mas na construção lenta e consciente de uma vida que faça sentido para quem a vive. Mesmo que isso signifique sair do roteiro, porque, no fim, o mais importante pode ser isso: criar uma história própria, ainda que incompleta, imperfeita e diferente do esperado.

O que citamos:

Pessoas normais” (2018), de Sally Rooney, trad. Débora Landsberg:
Nesse livro, conhecemos Marianne, que enfrenta a sensação constante de não pertencer a lugar nenhum.

“Frances Ha” (2012), dir. Noah Baumbach:
No filme, a protagonista Frances descobre que a vida adulta nem sempre segue uma linha reta.

“A redoma de vidro” (1963), de Sylvia Plath, trad. Chico Mattoso:
Nesse clássico de Sylvia Plath, Esther se vê sufocada pelas expectativas sociais e pela dificuldade de entender quem deseja ser.

“Comunhão: a busca das mulheres pelo amor” (2024), de bell hooks, trad. Julia Dantas:
Este livro lembra que amores profundos nem sempre correspondem às expectativas românticas.

“Controle” (2019), de Natalia Borges Polesso:
Uma história sensível em que conhecemos Nanda, cuja crise dos vinte e poucos se mistura aos desafios sociais que enfrenta.

“Garota, mulher, outras” (2019), de Bernardine Evaristo, trad. Camila Holdefer:
Uma coletânea de histórias ficcionais que explora a linguagem e a vida de mulheres racializadas, em sua maioria pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+.

“Too much” (2025), dir. Lena Dunham:
Na mais recente criação de Lena Dunham, conhecemos Jessica, que nos mostra que crescer pode ser seguir em frente mesmo sem ter todas as respostas.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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