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5 de fevereiro de 2024

BBB 24, Priscilla Presley e os alertas das relações tóxicas

Quando o feminismo for legalizado, o livramento será normal

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bbb alana
Arte: Kath Xapi

A atriz paraense Alane Dias, de 24 anos, pode até não ganhar o Big Brother Brasil – BBB 24 (reality show global), mas em termos de enredo e volta por cima, ela já é vencedora. Ao perceber a manipulação e potencialidade abusiva de sua reação com Nizam Abou Jokh, de 32 anos, já consagrado como o vilão desta edição, a paraense conseguiu romper com um enredo comum nos realities e na vida cotidiana: a mulher jovem e alegre que, enredada pelo charme de um homem manipulador, vai murchando e sendo apagada de seu protagonismo.

Pra quem não costuma assistir BBB, trago um pouco de contexto. No BBB 17, Marcos Harter foi expulso do programa por conta de suas atitudes (e muita pressão da audiência) em relação a Emily Araújo, com quem formava casal dentro da casa. 

Desde então a emissora tem se precavido para evitar que algo semelhante ocorra. Foi o caso dos participantes Gabriel Fop e Bruna Griphao, no BBB 23, em que a emissora tratou de intervir após a internet e outros participantes considerarem que havia ali uma relação tóxica.

O que há de novo – e maravilhoso – em Alane foi que ela sozinha se deu conta das “red flags” (bandeiras vermelhas) do comportamento de Nizam. Primeiro, ele a pressionou para fazer o que ele achava melhor (manter silêncio sobre a fofoca envolvendo outra pessoa do programa, a Tik Toker Vanessa Lopes). 

A atitude levou a paraense a uma crise de ansiedade que terminou em desmaio, que no começo não foi levado a sério. Mais tarde ele tentaria convencer Alane de que aquilo aconteceu porque ela teve uma queda de pressão e não porque estava nervosa. 

No BBB, Alane nem ficou sabendo que Nizam, pelas suas costas, a chamou de “emocionada” e sem maturidade por haver desmaiado. Mas os poucos sinais de alerta foram suficientes para que ela se afastasse. Mesmo admitindo para outras participantes que ainda tinha vontade de ficar com ele.

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Aprendendo a discernir 

O arco narrativo de Alane imediatamente me lembrou de dois filmes que estrearam recentemente no Brasil: How to Have Sexe “Priscilla”. Dirigidos por mulheres (Molly Manning Walker e Sofia Coppola, respectivamente), esses filmes mostram que identificar situações potencialmente abusivas é difícil, sobretudo quando você está submetida à pressão do grupo ou perdidamente apaixonada. Mostram também que o discernimento é um aprendizado. 

Em “How to Have Sex”, disponível na plataforma Mubi, a viagem de três amigas, que deveria ser perfeita, acaba desembocando numa situação abusiva. Por conta do desejo de aprovação, a protagonista Tara acaba ignorando os próprios sentimentos em relação ao menino que ela realmente gosta para dar atenção a outro cara “mais bonito”. Desconsiderando as bandeiras vermelhas que estavam lá, mas ela ainda não tinha certeza do que estava acontecendo. 

No caso de “Priscilla”, a mulher que se tornou mundialmente famosa por ter sido casada com o “Rei do Rock”, vemos a identificação do teor tóxico de um relacionamento ao longo dos anos. Priscilla conheceu Elvis Presley aos 14 anos. Por muito tempo, ela conviveu resignada com as traições e rompantes violentos do músico, devido à sua dependência química de medicamentos. 

Vivendo isolada na mansão Graceland, Priscilla não podia trabalhar porque Elvis queria que ela estivesse à sua disposição. Ele também escolhia suas roupas, maquiagem e cor de cabelo. Até que Priscilla um dia conseguiu romper com o círculo. 

O filme todo é um alerta em retrospecto sobre o roteiro de muitos relacionamentos tóxicos: um homem encantador que aos poucos vai moldando o comportamento e a aparência da companheira. Desse modo, a identidade dela vai se dissipando, o que torna a ruptura difícil. Mas o enredo mostra também que o livramento é possível.    

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Renascendo das cinzas

Esse roteiro do modus operandi das relações abusivas é descrito de forma bem didática no documentário Phoenix Rising (Renascendo das Cinzas), disponível na plataforma HBO Max. A obra mostra a batalha da atriz Evan Rachel Wood e outras mulheres vítimas de relacionamentos abusivos para alterar a lei que pune violência doméstica nos Estados Unidos, ampliando o prazo para que as denúncias possam ser feitas. 

Em seu depoimento, Evan conta sobre o relacionamento com o cantor Marilyn Manson, no qual foi vítima de uma série de agressões, como estupro, torturas e cárcere privado. Depois de revelar o nome do agressor, uma série de mulheres tomaram coragem para denunciar o músico e relatar que haviam passado por horrores semelhantes.

O documentário explicita didaticamente táticas utilizadas no início dos relacionamentos abusivos. Começam com declarações de amor exageradas (love bombing), mas depois de conquistada a confiança da vítima, passa para o afastamento dela da família e amigos, e outras etapas. Logo os abusos iniciam, primeiro verbais e psicológicos até em alguns casos chegar na violência física.

Evidentemente, a responsabilidade da violência psicológica ou física é sempre do agressor. Mas esses poucos exemplos da produção audiovisual recente nos ajudam a entender que, embora nem toda a relação tóxica culmine em violência física, a manipulação é um importante sinal de alerta. Quando o feminismo for legalizado, o livramento será normal.

Confiemos em nossos instintos. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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