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Abortei aos 18 anos e até hoje sinto culpa, alívio e raiva

por Divã d'AzMina
6 de setembro de 2018
"Sinto raiva quando penso que tudo isso poderia ser evitado se no Brasil o aborto não fosse crime"
Crédito: Elisa Riva/Pixabay

O Divã de hoje é anônimo porque aborto ainda é crime no Brasil.

“Meu nome é culpa. Abortei com 18 anos, há cerca de oito anos. No dia em que fiz o teste de farmácia para tirar a dúvida que estava me perturbando não acreditei no resultado. Isso porque eu tinha tomado a droga da pílula do dia seguinte.

No mesmo dia, meu ex-namorado me mandou mensagem me chamando pra sair. Resolvi contar o que estava acontecendo e que tinha certeza que o filho era dele. E qual foi a resposta? Foi fingir que eu não estava falando com ele. Só faltou dizer: “Quem mandou abrir as pernas?”

No dia seguinte fui ao posto de saúde mais próximo e fiz o teste de urina, que confirmou a gravidez. Comecei a chorar de pânico, ódio e culpa. Não sabia o que pensar, o que fazer, estava perdida. Foi como se eu tivesse num pesadelo sombrio e sem fim, como se eu estivesse me afogando e pedindo socorro calada. Eu estava sem chão, mas decidida do que ia fazer.

Quem manda na minha vida e no meu corpo sou eu. Pedi primeiro perdão a Deus, depois à minha mãe,  que logo no primeiro mês que fiquei sem menstruar desconfiou e, com isso, tirei a paz dela. Eu estava completamente sozinha.

Por dias vendo alguns relatos na internet de pessoas que abortaram, logo vi que seria impossível para mim fazer em uma clínica, então procurei por remédios. Entrei em contato com ONGs e levei um baque. Eles não podiam me mandar os remédios porque minha gravidez já estava avançada. Eu já estava quase com quatro meses.

[Nota da redação: A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o abortamento farmacológico com misoprostol seja feito até as 12 semanas de gravidez (três meses de gestação). Confira aqui as orientações da OMS para o abortamento seguro. Organizações que prestam assistência em casos como este são Women Help Women e Safe2choose

Então me passei por outra pessoa para conseguir as pílulas. Eu odiei enganar a ONG, mas fiz o que foi necessário. Nesse vai e volta de e-mails e recusa do pedido se passaram uns 12 dias e aí sim completaram os quatro meses.

Uma amiga tentou me convencer a não fazer e sugeriu que eu desse o bebê para adoção. Uma outra ameaçou me entregar para a Polícia. Mas nada iria mudar minha decisão.

Depois de alguns dias eu fui buscar os remédios nos Correios. Estava no quarto ao lado de minha mãe. Tomei as pílulas e esperei algumas horas pra tomar a outra dose. Comecei a sentir cólicas parecidas com as menstruais. Mas foram aumentando e aumentando cada vez mais, até que eu percebi que não eram mais cólicas e sim contrações terríveis que foram aumentando ao ponto de eu gritar de dor.

Leia também: Médica cria manual para redução de danos em caso de aborto inseguro

Minha mãe achou que aquilo não era normal e chamou meu pai para me levar ao hospital. Não conseguia sair da cama. Parecia que estavam me esfaqueando de dentro para fora. Eu queria ir ao médico, mas tinha medo pois sabia que aborto é crime no Brasil.

Meu pai me levou nos braços para o carro, porque eu não conseguia andar de tanta dor. No carro, o aborto aconteceu.  Chegando no hospital, com o feto nas calças, fui pra uma sala e lá eles começaram a me inundar de perguntas, mas me mantive firme e não falei nada.

O que saiu de mim no aborto deixei no banheiro do hospital. Aquela imagem não sai da minha cabeça. Como era um hospital público, passei horas para ser atendida. Quando finalmente fomos pra casa, eu já estava sem dor e andando. Não sei como, mas dormi a noite toda. Estava exausta.

Sinto raiva quando penso que tudo isso poderia ser evitado se no Brasil aborto não fosse crime. Não sei se algum dia vou me perdoar pelo que fiz. Sinto arrependimento, mas também sinto alívio por ter feito a coisa certa. Mas as coisas ligadas à maternidade me deixam deprimida ou irritada. Algumas dores psicológicas parecem ser intermináveis.

Mas, ainda hoje, peço desculpas a mim mesma.”

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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