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9 de agosto de 2021

Algoritmos da gordofobia

Por que ser feliz e plena como mulher gorda soa incompatível para a publicidade na internet?
algoritmos gordofobia

A essa altura do campeonato você já deve saber que nosso comportamento na internet é monitorado, né? É a moeda utilizada por empresas como Facebook e Google, por exemplo, para nos deixar utilizar suas plataformas – teoricamente – de graça. Aquilo que a gente publica, curte e interage nas redes sociais, a notícia que lemos, as buscas por produtos e serviços que fazemos… E até aquele textão que, pensando bem, melhor não postar! Mas, se o texto foi digitado, bem, ele foi capturado como dado por essas empresas. Está lá nos “termos de serviço” quando criamos uma conta em qualquer um desses espaços virtuais, mas que nunca lemos; clicamos em “aceitar” e seguimos com a vida. Pois bem, uma hora eles são virados contra nós, e no que diz respeito à manutenção e ao reforço da gordofobia, bem, está cada vez mais evidente que está virando – e forte – a favor do preconceito.

Acontece que todos esses traços digitais são usados pelas empresas que querem nos vender produtos. Pode parecer inofensivo, mas não é. Com estratégias cada vez mais elaboradas, esses anúncios aparecem no meio do conteúdo que costumamos consumir normalmente, e mesmo que não compremos esses produtos, eles acabam influenciando nossa forma de ver o mundo e, fazendo com que achemos que queremos determinadas coisas quando, na verdade, fomos levados a querê-las. O argumento é que, com esses dados, essas empresas realizam ofertas personalizadas, adequadas para o que – elas acreditam – suprem nossas necessidades.

Só que eu não estou falando apenas de roupas, bolsas e sapatos, carros ou eletrodomésticos. Estou falando também de modos de vida que, em última instância, reforçam os conceitos do capital e do patriarcado, sistemas dominantes em nossa sociedade, cujos padrões se institucionalizam em todos os espaços. Nesse sentido, o que é oferecido às mulheres gordas, no caso, a solução para todos seus problemas: o segredo para uma felicidade plena, às custas da perda de peso. E afirmo por experiência própria.

Há quase seis anos estudando e escrevendo sobre ser uma mulher gorda e suas implicações, meu comportamento na web inclui passar boa parte do tempo associado a palavras-chave desse universo: gorda, gordura, peso, obesidade, estigma, pressão estética, preconceito e por aí vai, fazendo com que os anúncios que recebo considerem essas palavras na hora de me impactar. O que a publicidade que se baseia nos algoritmos ainda não se deu conta, no entanto, é que estou justamente problematizando essas questões, denunciando a violência gordofóbica, e não interessada em sucumbir a ela. Assim, o que vem a partir disso são ofertas e mais ofertas de produtos para desinchar, sumir, secar e toda uma sorte de eufemismos para emagrecer.

Leia também: Gordura é doença?

Os argumentos são aqueles que a gente já conhece, mas que sabe que não se sustentam, como temos falado aqui mesmo neste espaço já de forma sistemática e consistente: além da questão estética (emagrecer é sinônimo de ficar bonita), associam saúde a um manequim reduzido sem o menor pudor, apenas fundamentado no estereótipo de que pessoas gordas são doentes e pronto. Daí vem de um tudo: de shakes, chás e ervas até medicamentos que inclusive não têm autorização para serem comercializados sem receita. Também chegam as ofertas dos cremes milagrosos redutores de medidas, cintas modeladoras, cardápios fitness, esse termo que, como abordado aqui nesta AzMina, de saudável não tem nada, programas de ginástica e até encaminhamento para notícias que abordam o tema; a promessa é uma só: diminuir, seja como for, sendo esse o objetivo último de nossa existência.

Na busca por uma compreensão do fenômeno, há dois pontos importantes para serem considerados. O primeiro está na estrutura das agências de publicidade, responsáveis pela criação, planejamento e veiculação de anúncios, que não consideram perspectivas femininas, quem dirá gordas, nesse processo. Recentemente, o Pinterest anunciou o banimento dos anúncios sobre perda de peso em sua plataforma; um passo importante, mas ainda muito incipiente em direção à resolução do problema. Isso porque, apesar de todos os avanços e discussões em relação à representatividade nesse setor, essas estruturas ainda são dominadas por homens: uma pesquisa realizada pelo PROPMARK com o More Girls aponta que mulheres representam 46% nas agências. No entanto, os departamentos criativos são compostos por apenas 25% delas; em cargos executivos ou de vice-presidência, são 37%, e apenas 10% na presidência, reproduzindo assim os conceitos e preconceitos da estrutura social vigente, no caso machista e gordofóbica, como os estudos sobre gordofobia têm apontado

O segundo se dá no mecanismo de ação dessas propagandas, que se fortalecem pela sua validação e engajamento, ou seja: quanto mais a gente vê um conteúdo, mais ele aparece nas nossas telas. Daí que, com raiz profunda na gordofobia, o que esses anúncios com base nos algoritmos estão nos dizendo é que não é possível a existência de uma mulher gorda sem que ela esteja interessada em emagrecer, e a bombardeiam com conteúdo desse tipo. Na ponta do iceberg a gente tem a normalização da cultura das dietas, uma das faces da gordofobia em nossa sociedade, sintoma e causa para uma série de distúrbios. E há quem diga que o que a gente faz é romantizar a obesidade… Só que não.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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