logo AzMina
24 de janeiro de 2022

Corpo positivo, mas nem tanto

O discurso pela autoaceitação pode oprimir tanto quanto o preconceito
body positive

A essa altura do campeonato você já deve ter conhecimento do termo body positive e/ou suas vertentes. No Brasil, talvez a mais famosa delas seja a hashtag “corpo livre”, encabeçada por personalidades da internet que pregam, em última instância, o auto amor. Se não conhece também não tem problema, eu explico:

Body positive é um termo em inglês que, em tradução literal para a língua portuguesa, significa “corpo positivo”. Mais que um termo, ele representa um movimento, do qual muita gente é adepta, em especial essas celebridades de internet. Em linhas gerais, o movimento está relacionado com ter uma atitude positiva sobre nosso corpo, ou seja, não alimentar o ódio comercial, patriarcal, midiático, que nos despertam em relação a nós mesmas.

Não é difícil entender como isso funciona e acho que cada uma de nós tem ou já teve uma parte do próprio corpo que odeia. Para mim eram as costas. Eu as odiava. Odiava as dobras de gordura que marcavam na roupa, ainda mais com o uso do sutiã, que sempre me apertou.

Sem muito jeito, tentava esconder o “defeito” em cintas apertadas que me deixavam roxa e me tiravam o ar. Até que um belo dia recebi da minha amiga Lethicia uma foto que ela havia tirado das minhas costas nuas. Quando abri a imagem, entrei em choque: me dei conta de que nunca tinha visto as minhas costas e, portanto, eu odiava algo que eu nem conhecia, apenas de ouvir dizer que aquilo, como era, era feio.

Fiquei bastante tempo olhando para aquela imagem. Dava zoom, percorria as minhas costas com os olhos atentos. Vi as pintas, os pelos, os volumes e sombras que estavam nelas e me dei conta que não tinha nada de errado com as minhas costas. Não havia uma falha, um defeito, algo que, de alguma forma, invalidasse meu corpo… Nada. E aquilo foi revelador.

Desde então, amo cada dobrinha e curva presente também nessa parte do meu corpo, um exercício diário de entender que não há nada de errado em ser quem a gente é. Ótimo, né? Mas temos que tomar cuidado com esse discurso, tão propagado pelo body positive em questão. Isso porque o movimento vai até aí, mas quando a gente fala de gordofobia, por exemplo, como é o meu caso, o buraco é muito, muito mais embaixo.

Por mais que eu me ame, por mais que eu me aceite, por mais que eu aprenda a gostar do que me ensinaram a odiar, a estrutura que causou esse ódio não deixa de existir. Muito pelo contrário, ela tem se fortalecido justamente ao se apropriar do discurso de “ame você mesma” e jogar sob a responsabilidade individual algo que deveria ser repensado de forma coletiva e estrutural.

“Ame suas curvas”, quando o mundo diz e age demonstrando que ser gorda é ruim, feio, nojento, repulsivo, e tantas outras coisas, é tão impositivo e meritocrático quanto o discurso do “é só ter força de vontade”, “é só querer”. Além de não depender única e exclusivamente da vontade pessoal, gera uma ansiedade que só quem experimentou tal ódio pode testemunhar.

Leia mais: Questão de gênero: a gordofobia é igual para homens e mulheres?

Ligando ainda os pontos da relação que o capital, o patriarcado e a mídia têm nessa história toda, para “amar a mim mesma”, eu precisaria consumir x e y produtos que vão me “empoderar”. Nisso tem a roupa que “valoriza”, o creme capilar que “revela”, o procedimento estético que “suaviza” e por aí vai.

Quando a gente vai ver, está tão consumida por essa história de amor próprio que não fazer o skin care semanal torna-se um crime, mesmo na correria cotidiana, tendo casa para cuidar, trabalho para dar conta, vivendo no Brasil de hoje com tudo que está posto. E está lá a mulher, MAIS UMA VEZ, ansiosa e se sentindo culpada por ser quem ela é. ATÉ QUANDO?

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Somos movidas por uma comunidade forte. Falta você!

AzMina ajudou a revolucionar a cobertura de gênero no jornalismo brasileiro nos últimos 6 anos. Com informação e dados, discutimos temas tabus, fazemos reportagens investigativas e criamos uma comunidade forte de pessoas comprometidas com os direitos das mulheres. Muita coisa mudou nesse meio tempo (feminicídio deixou de ser “crime passional” e “feminista” xingamento), mas as violências contra as mulheres e os retrocessos aos nossos direitos continuam aí.

Nosso trabalho é totalmente independente e gratuito, por isso precisamos do apoio de quem acredita nele. Não importa o valor, faça uma doação hoje e ajude AzMina a continuar produzindo conteúdo feminista que faz a diferença na vida das pessoas. O momento é difícil para o Brasil, mas sem a nossa cobertura, o cenário fica ainda mais tenebroso.

FAÇA PARTE AGORA