logo AzMina

Como a mídia cria estereótipos que impulsionam a gordofobia

Do alívio cômico ao emagrecimento transformador, pesquisa mostra os estereótipos gordofóbicos que ocupam o cinema, séries, novelas e até o jornalismo

Agnes Arruda, jornalista, mestra em Comunicação e professora universitária em Mogi das Cruzes (SP), passou boa parte da vida acreditando que havia algo de errado com o seu corpo. Não era pra menos. Cresceu vendo nas novelas, filmes e séries de TV em que pessoas gordas – sobretudo mulheres – eram representadas como carentes, que precisam emagrecer para obter sucesso na vida ou serem levadas a sério além de sempre serem motivo de piadas. 

Nas reportagens a mesma coisa: pessoas gordas sempre são vinculadas à doença, ainda que a medicina já tenha identificado que o índice de massa corpórea (IMC)  não é o único critério determinante da condição de saúde de uma pessoa.  O processo de anulação foi tão violento que, por muito tempo, Agnes  não percebeu que não havia nada de errado com o seu corpo. O estalo chegou tardiamente, após os 30 anos de idade, depois de ver uma amiga sofrer um ataque gordofóbico. “Eu senti minha própria dor através da dor de outra pessoa”, lembra.

Uma vez que seus olhos foram abertos para perceber que a gordofobia está em todo lugar, dentro e fora da TV, Agnes foi pesquisar: como a mídia cria estereótipos que impulsionam a gordofobia? O resultado do estudo é uma linha do tempo que analisa personagens e pessoas gordas representadas em filmes, séries, novelas e matérias jornalísticas em diferentes fases da vida da jornalista: infância, pré-adolescência, vida jovem e adulta, tempos contemporâneos, cujos marcadores socioeconômicos são de uma mulher branca, cisgênero, heterossexual e de classe média alta. “Achei importante não falar só sobre bullying porque pessoas gordas são privadas de direitos, como o de ir e vir, por exemplo. Uma catraca de ônibus onde você não passa, ou ter que comprar duas passagens de avião para viajar, cadeiras pequenas ou de plástico em unidades de saúde, bares. A estrutura social é feita para o corpo gordo não existir”.

Leia também: Gordura é doença?

A tese “O peso e a mídia: uma autoetnografia da gordofobia sob o olhar da complexidade” é, segundo a autora, a primeira da área da Comunicação no Brasil que aborda o assunto. “Existem teses sobre como a gordofobia impacta a auto-imagem, provoca transtornos alimentares, mas nenhuma pesquisa, até então, pontuava o preconceito e como ele é institucionalizado e reproduzido nas mídias. Então analisei o perfil dos personagens gordos que conheci em diferentes fases da minha vida e encontrei pontos em comum com situações que eu também vivi”, explica.

O artigo “Estereótipos da Gordofobia” foi publicado na Líbero, revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Faculdade Cásper Líbero, em dezembro de 2020 (n. 46) e mostra como as pessoas gordas são representadas na mídia. 

“Eu percebi que a similaridade das personagens com a minha história não era uma simples coincidência. As pessoas gordas são representadas de forma pejorativa na mídia porque existe um fenômeno social que se manifesta na mídia e vice-versa”. 

Do alívio cômico ao emagrecimento transformador

Para identificar a gordofobia reproduzida na mídia na infância, Agnes analisou a personagem Laura, da novela mexicana Carrossel, em sua primeira versão exibida no Brasil (1989-1990). “Ela é uma criança retratada como triste e sonhadora, aparece sempre comendo, enquadrada em close-up, super close ou contra-plongèe, recursos visuais utilizados quando se quer passar a sensação de algo grande, que não cabe na tela. Os colegas estão sempre pregando peças em Laura, e por vezes a própria professora a hostiliza por seu tamanho”.

Representando a pré-adolescência, a personagem escolhida foi Josie do filme “Nunca fui beijada”. “A protagonista Josie é chamada de “Josie grossy” – em tradução livre, “Josie nojenta”. Nesse caso, ela é rejeitada pelo seu interesse amoroso e sofre todo tipo de importunação. Gorda, ainda é retratada como suja, cabelo ensebado, de forma que não sabe se vestir ou apresenta qualquer sinal de vaidade. Josie é estudiosa e vira uma jovem jornalista super competente, mas que não sabe lidar com as pessoas. Quando emagrece, no entanto, suas habilidades sociais se alteram como em um passe de mágica, e ela se torna popular e desejada”, aponta a análise. 

E Agnes identifica como isso afetou a própria vida. “Uma das coisas que me marcou muito e só descobri depois de adulta era que eu sempre fiz questão de tomar muitos banhos e aparecer nos lugares muito cheirosa, com os cabelos molhados. Inconscientemente eu tinha medo de ser lida como uma mulher gorda e suja, como passei a vida vendo nos filmes”, relaciona. 

Na fase jovem/adulta, Agnes escolheu analisar Monica Geller, do seriado Friends. “A personagem gorda, Monica é retratada como bobalhona e espalhafatosa, e a exemplo de Laura, também sempre aparece comendo. No entanto, ela é carinhosa e cuidadosa com seus amigos, que não demonstram valorizar tais características. Quando emagrece, no entanto, Monica se torna competitiva, manipuladora e compulsiva por limpeza e organização. Mesmo sendo rude com os amigos, eles passam a valorizá-la, e no final ela se casa e forma uma família com o mesmo personagem que a rejeitou por ser gorda”. 

Leia mais: Remédios para emagrecer: Fiquei doente com o apoio de médicos

O último exemplo analisado junto às histórias de vida da autora se encontra na notícia sobre o emagrecimento da atriz Guta Stresser, conhecida por interpretar o papel de Bebel, no seriado A Grande Família. Com a manchete “Após perder o pai e o emprego, atriz emagrece 15 kg e fica gata”, o texto  falava sobre como a atriz superou as adversidades da depressão e do desemprego com exercícios físicos e mudança na alimentação. Publicada originalmente no portal R7, a matéria não está mais no ar, mas um print da manchete ainda pode ser encontrado na internet. Na narrativa mostrada, o emagrecimento está diretamente ligado ao sucesso, o que pressiona pessoas gordas a buscarem a perda de peso como a solução dos problemas. 

“Já houve uma fase na minha vida que eu tentei de tudo para emagrecer. Usei medicamentos que me deixavam doente. Eu estava magra, mas não estava saudável. Mas as pessoas não se importavam com a saúde. Para elas o corpo magro e doente era uma vitória”, contextualizou a professora. 

A partir desses exemplos, foi possível identificar que as mídias promovem a gordofobia de forma sistemática em seus produtos: alívio cômico, estepe para a personagem principal, personificação do que é feio, eterna romântica, emagrecimento que transforma. 

O que se vê, então, é um ciclo que produz e reproduz a gordofobia. “Tudo o que vivenciamos como pessoas gordas é reproduzido nos produtos midiáticos, assim como aquilo que é apresentado nos produtos midiáticos também serve de exemplo para novas ações gordofóbicas”. 

Pesquisa Gorda

Para promover a reflexão e encontrar outras histórias semelhantes, a jornalista compartilha seus estudos sobre o tema no instagram @tamanhogrande. “Quando coloco esses exemplos, o que mais aparece de retorno é ‘me identifiquei muito com a sua história’. Não é só comigo, é uma sistematização. O que muda é como lidamos com o preconceito”. O Grupo de Estudos Transdisciplinares das Corporalidades Gordes no Brasil, do qual Agnes faz parte, mantém o perfil @pesquisagorda. “É um espaço muito legal porque tem algo que está mudando. As pessoas estão pesquisando sobre isso e o fortalecimento da rede é importante”. 

Leia também: “Confesso: sou feminista mas não consigo amar meu corpo”

Atualmente, Agnes está debruçada na análise de conteúdos jornalísticos gordofóbicos. “Sabendo que o jornalismo é um ambiente extremamente machista e a questão do peso está relacionada muito mais às mulheres, então a gente precisa começar a falar sobre isso no jornalismo porque reflete em como as matérias são pautadas, escritas, pensadas e como serão entregues. Se é um produto midiático você tem opção de não assistir, mas no jornalismo você precisa se informar. Então os jornalistas têm o dever de não reproduzir estereótipos, como associar o peso à falta de saúde, sem que isso esteja de fato relacionado, por exemplo”. 

Ei, você quer que o jornalismo feminista exista?

AzMina coloca tecnologia, dados e jornalismo a serviço do feminismo. Se você acredita nesse trabalho e quer que ele continue, apoie hoje o jornalismo independente que fazemos.

EU APOIO AZMINA