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Fui muitas vezes ‘esquecida’ pelos outros

por Divã d'AzMina
17 de janeiro de 2019
'Confesso também que vivo por aí fazendo muitos se sentirem esquecidos', admite Ede Rojas, que senta no Divã
Ede Rojas. Foto: Arquivo pessoal

“No início dos anos 90, ouvia Balão Mágico, imitava a Xuxa, usava jardineira da Levis, All Star cano alto, ia para escola com lancheira da Pakalolo e sonhava ser esquecida em casa pelos meus pais para viver uma grande aventura, como aconteceu no nostálgico filme “Esqueceram de Mim”.

Se querer é poder, a vontade de “ser esquecida” começou a se materializar logo. Tudo começou quando deixei cair no chão, embaixo da mesa da sala de aula, um monte de canetinhas e uma caixa de lápis da Faber Castell. A “surpresa” foi, que, quando abaixei para pegar todo o colorido derrubado, já era hora de ir para o recreio. Toda a criançada saiu e num piscar de olhos, a professora não me viu, fechou a porta e me deixou trancada ali, na classe, sozinha.

Não me senti feliz como imaginava que seria quando vi o filme — pelo contrário, mesmo sabendo que todos voltariam quando o sino tocasse, fiquei com medo de ficar lá, esquecida para sempre.

Depois, passei anos sendo esquecida nas aulas de educação física, quando, acanhada, já esperava separarem os grupos para os jogos. Tirando o basquete, eu sempre ficava invisível para os olhos das meninas e era a não escolhida, a última que sobrava e ia automaticamente para um dos times.

Teve uma vez que minha irmã se esqueceu de me chamar para a comemoração do aniversário dela e acabou repetindo o esquecimento. Também houve momentos em que deixou de lado o fato de eu ser sua irmã.

Algumas vezes minha mãe esqueceu que eu não era minha irmã, outras tantas esqueceu que eu não era uma Chihuahua chamada Brigitte e nem uma Maltês que atendia como Luna. Meu pai “fez o despertador” e me acordou madrugadas e madrugadas porque esqueceu que o fuso de Barcelona estava cinco horas à frente do horário do Brasil.

Ah, até hoje meus pais vivem esquecendo que não sou mais criança. Também não se lembram muito que posso ter razão em determinadas situações, que errar pode me fazer bem e que me pedirem desculpas pode fazer melhor ainda.

Fiquei indignada com uma conhecida da faculdade que foi me visitar em Barcelona e “não lembrou” de mim na hora em que deitou e rolou com o cara que eu estava a fim.

O desespero bateu forte no dia em que fui a convite de uma amiga, na tentativa de “esquecer” um término de namoro, para a Festa do Tim, em Uberaba. A “best” bebeu, perdeu o celular, o bom senso e a memória. Sumiu e não apareceu mais. Esqueceu de tudo e inclusive de mim.

Meu saldo no Santander quase foi pro vermelho porque minha chefe na ocasião havia me prometido um aumento, mas foi viajar e esqueceu de avisar ao financeiro da agência, daí o “plus” ficou para o mês seguinte.

Sem contar o episódio em que me dei conta de que ia ser esquecida por um ‘crush’. Estava “xonada” por ele devido aos vários interesses culturais dele que correspondiam aos meus. Aí, durante um festival marquei de encontrá-lo no lado direito do palco. Imagine só, eu no meio da multidão, dando braçada e nadando no mar de gente que cruzava o meu caminho ao encontro de quem eu achava ser o meu príncipe encantado.

Resultado: fui para o palco direito, mas ele disse que era o esquerdo. Fui para o esquerdo e ele estava no meio do palco, nem de um lado e nem do outro. Depois do vai e vem, vem e vai, encontro o mocinho que me beija e diz: “Vou pegar uma cerveja e já volto!”. Na hora tive a certeza de que eu passaria o resto do Festival esperando um sapo que não voltaria, por isso, sacudi a poeira e deixei as águas me levarem para outros lugares.

Vivi também a história da paixão de férias que quase levantou voo. Mas o quase foi do tamanho da distância de Barcelona a Berlim. Desisti, com passagens compradas, depois de perceber que o quase quarentão já estava esquecendo que tinha me convidado para embarcar nessa. Teve turbulência em terra mesmo.

Durante um relacionamento intenso, gostoso e tóxico fui percebendo que meu namorado havia esquecido muita coisa. Porém, o mais dolorido foi quando constatei que eu mesma havia esquecido totalmente quem eu era.

Meu coração desceu ladeira abaixo quando reconsiderei o sapo criativo dez anos depois do “causo” aí de cima; pois é, sou brasileira e não desisto nunca. Enquanto esqueci as mancadas que ele deu e arranquei as amarras que eu tinha junto com as roupas que eu vestia, ele não deixava de agir, com 32 anos, exatamente igual quando devia ter seus 20 e poucos. Também não esqueceu de me esquecer e me deixou de lado de novo, só que dessa vez, em casa, esperando uma mensagem qualquer e um convite (in)decente.

E, é assim, entre um relato e outro, no meio de cada palavra, no breque entre vírgulas, na dúvida gerada pelas reticências ou no fim de um ponto, que o esquecimento encontra “seu lugar” e, além de me deixar totalmente descoberta, passa a ocupar tanto espaço na minha cama que quase me joga no chão. Sigo esquecida, mas confesso também que vivo por aí fazendo muitos se sentirem esquecidos e tentando esquecer os esquecimentos dos outros, só que agora de jaqueta de couro ecológico, pantacourt, adidas Superstar e um persol Calligrapher ao som de Wilco.

Quem senta no Divã de hoje é a Ede Rojas.

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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