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Sobre ser a única negra em diversos lugares

por Divã d'AzMina
5 de julho de 2018
"Mesmo com a felicidade de um novo emprego, uma coisa bem chata vem me acompanhando desde então: a sensação de não-pertencimento"
BlackPower
Crédito: Roberto Machado

Quem senta no Divã de hoje é a Paula Silva.

“Comecei um emprego novo recentemente. Um estágio na área que estou cursando, Jornalismo. Uma preta muito querida por mim me indicou para a vaga, e obviamente fiquei muito feliz por ter passado na entrevista. Entretanto, mesmo com a felicidade, uma coisa bem chata vem me acompanhando desde então: a sensação de não-pertencimento.

Quando você é negra e periférica, a lista de lugares que te rejeitam é bem extensa. Pinheiros, o bairro onde trabalho em São Paulo, é um desses lugares que parecem gritar na minha cara: ‘você nunca vai se sentir a vontade aqui’. Esse aviso começa a apitar já no momento em que vou pegar o ônibus e o metrô.

O jornalista Ad Júnior escreveu uma vez que “o ônibus que leva as massas aos grandes centros vai mudando de cor conforme o horário: quanto mais cedo, mais preto ele é. Vai clareando com passar das horas”.

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Desde a estação Conceição até a Ana Rosa. Da Ana Rosa até a Consolação. E da Paulista até a Fradique Coutinho. Onze horas da manhã e quase todo mundo que vai ao trabalho usa perfume e não tira os olhos do iPhone 8.

Da saída da estação até o meu trabalho, a sensação de ser a única negra (junto de outros poucos negros e negras) costuma me deixar em um estado de mal-estar físico e social ao mesmo tempo. Os pretos e pretas que estão do outro lado da calçada estão uniformizados: auxiliares de cozinha, de limpeza, de obras.

Olho pela janela do trabalho e é tudo muito branco. Desde o toldo do restaurante onde o quilo custa 45 reais até o moço que trabalha na startup localizada na Faria Lima, bem ali próxima. Eu sou a única negra no meu trabalho. Todas aqui são brancas. Eu sou a única preta e periférica.

Baixa autoestima é foda, porque cada vez que piso aqui tenho a sensação de que algo está errado comigo. De que eu estou errada em estar ali. Que eu estou destoando da polidez branca de todo o bairro.

Uma vez, conversando com a minha professora da faculdade (preta maravilhosa!), entramos nesse assunto do não-pertencimento. Ela, que é mestranda pela USP, também compartilha do mesmo sentimento. Uma vez eu fui fazer um trabalho por lá e tive que ir na Escola Politécnica. Acho que aquele é um dos piores lugares onde já estive: não tem um preto sequer lá. Nenhum.

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Cada vez que vejo as pessoas (brancas) passando pela rua ou entrando aqui no meu trabalho, eu me lembro dessa conversa com a minha professora e dessa sensação diária. E olha que eu ainda me favoreço do fato de ser uma negra de pele clara, que é mais “tolerada” nos locais onde a branquitude é dominante. Imagine como é para uma preta retinta essa realidade. Sugiro que pergunte para uma. E preste bastante atenção em tudo que ela diz sobre isso.

Outra coisa foda: me sinto levemente aliviada quando a responsável pela limpeza vem para cá. Uma mulher negra, como eu. Ela lembra os trejeitos da minha mãe, que também limpa chãos e banheiros de gente abastada como as frequentadoras daqui.”

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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