Julliane Albuquerque

Foto: Arquivo Pessoal

Quem senta no Divã de hoje é a Julliane Albuquerque.

“Estava conversando, quando ouvi no meio de uma frase uma mulher falar a palavra ‘mulher’ e logo se corrigir:

– Quer dizer, uma mulher não ‘que falar mulher é feio, uma moça né’.

Essa frase me fez lembrar outro incômodo que senti quando uma amiga contava uma história sobre o seu trabalho. Perguntei a ela quantos anos tinha a ‘menina da limpeza’. Uns 50 foi a resposta.

Às vezes me pego remoendo essas frases e fico intrigada. Como o simples dizer da palavra ‘mulher’ pode ser um tabu? (E logo aqui em pleno Rio de Janeiro!). Melhor falar moça ou menina, até senhora dependendo da idade e da classe social, mas não mulher.

Mulher parece uma palavra muito forte, parece dar a entender que o ser que a preenche é um sujeito ativo e dotado de toda potência que a sua sexualidade exerce. O que, por algum motivo, pode ser constrangedor. Já o termo ‘homem’, apesar de muitas vezes substituído por ‘cara’, não parece causar o mesmo constrangimento.

Pois é, taí mais um indício do quanto a forma com que costumamos falar (ou silenciar) revela das nossas proibições. À mulher é permitido – e até imposto – ser objeto sexual, mas não sujeito. Devem ser eternas meninas e moças ingênuas, à espera de um homem que a sustente, a controle, a coma.

Curiosamente, no lugar de eu onde venho, ‘mulher’ é palavra fácil, é vocativo, é quase vírgula entre as conversas. Fala-se: ‘Mulher, tu tá aí é?’; ‘Mulher, tu não sabe da última!’, e mais um monte de outras frases que repetem “mulher” sem qualquer pudor.

É curioso porque venho de Maceió, Alagoas. E o Nordeste, como um todo, é conhecido pelo seu conservadorismo, e logo, por seu machismo. O que, por certo, não é de todo mentira, há muito machismo lá sim.

Curioso é notar que cidades como Rio de Janeiro e São Paulo são vistas sob outro olhar, como se tivessem assim uma cultura mais liberal, mais evoluída. São supostamente diferenciadas em relação ao resto do país. Apesar de desconfiar dessa suposta evolução, não nego as diferenças. Essa inclusive é uma delas. Diferente de como é em Alagoas, falar ‘mulher’ no Rio de Janeiro é feio.

Parece que ali nas conversas cotidianas, fora dos contextos jornalístico e literário que se propagam em grande mídia, a mulher ainda ocupa uma posição infantilizada. Pessoalmente, acho muito estranho ouvir mulheres se chamando o tempo todo de ‘meninas’ em frases como ‘Oi, meninas’ ou ‘Parabéns, meninas’.

Sim, talvez haja uma manifestação de afeto nisso. Mas o que dizer da ‘menina da limpeza’? Pessoalmente, nunca gostei quando num ambiente de trabalho me referiam como ‘menina’ (e por vezes, nem respondi).

Entendo, por exemplo, que o termo Mina tenha outra construção social por trás, e que traga uma força de luta. Entendo também que, apesar de muitas vezes reproduzirmos o sexismo social, não somos nós que o pautamos.

Por outro lado, acredito que os novos termos serão sim pautados por nós. Que a igualdade virá de uma luta nossa, de uma nova forma de ver, de questionar, de levantar, de posicionar.

Por isso, lembro da famosa frase sobre não nascermos mulheres, mas nos tornarmos. E, quando comparo esse lema com a distância que a palavra ‘mulher’ parece ter nas conversas dessa capital, aaah, me dá uma saudade… Uma falta enorme! E uma vontade de perguntar assim com todo carinho, como quem não quer nada (querendo tudo): ‘Mulher, tu tá aí é?’.

 


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