
+++ Aviso de gatilho: Este texto contém informações que podem acionar gatilhos por traumas relacionados à violência digital, sexual, doméstica, tortura psicológica e semelhantes. Se você está sensível a esses assuntos, evite a leitura, está bem?
Nunca imaginei me deparar com uma plataforma para leiloar mulheres na internet, mas esse fato é abordado por Priya Goswami no livro “The Good Robot: Why Technology Needs Feminism”, organizado por Eleanor Drage e Kerry McInerney. O capítulo escrito por Priya Goswami começa contando que mulheres muçulmanas estavam sendo leiloadas na Índia em um aplicativo chamado “Sulli Deals”.
Nem nos meus piores pesadelos ou durante toda minha experiência como feminista engajada e pesquisadora, eu poderia supor algo tão aterrorizante. Priya descreve muito bem a sensação: é “um ataque de pânico” ver que, em tantos lugares pelo mundo, a segurança das mulheres é tão frágil e negligenciada.
Então relembrei o texto da Fernanda Rodrigues no e-book Enfrentando Deepfakes. À procura de notícias para sua pesquisa, ela buscou no Google “deepnudes negras”. Nos resultados apareceram links para sites que permitem a criação de deepnudes (imagens íntimas não autorizadas/não consensuais). Em alguns sites ela encontrou sugestões explícitas de prompts para os usuários, como “‘Uma mulher de pele negra em lingerie de renda com um lago como fundo, tranças, e ancas largas’ — a IA fará o resto!”.
Esses casos são exemplos da Violência de Gênero Facilitada por Tecnologia (VGFT), conceito proposto pela ONU Mulheres para unificar a vasta nomenclatura usada para as violências contra mulheres na internet. Pesquisadores de todo o mundo estão estudando os impactos dessa violência digital na vida das mulheres. São ações que vão além dos golpes e das fraudes, criando mais camadas para o abalo emocional, o medo e a revitimização das pessoas atingidas por essas ocorrências.
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Dados mostram a dimensão da violência digital
Mulheres, crianças e pessoas transexuais e não binárias são os maiores alvos das violências digitais ao redor do mundo, segundo a União Internacional de Telecomunicações (ITU). Dados da ONU identificam que cerca de 38% das mulheres já foram vítimas de violência digital, cenário que o secretário-geral chamou de “flagelo global”.
O que ainda nos deixa mais alertas é que menos de 40% dos países possuem leis de proteção, regulamentação ou regulação. Cerca de 1,8 bilhão de mulheres e meninas não têm qualquer amparo ou proteção legal contra esses crimes. Afinal, a violência de gênero facilitada por tecnologias é crescente, há cada vez mais estudos para avaliar causas e consequências, mas nem todo governo está à altura do problema.
No Brasil, o Instituto DataSenado inseriu violência digital na 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher publicada em novembro de 2025. O levantamento aponta que 8,8 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência digital entre 2024 e 2025. A maioria dos registros são: envio de mensagens ofensivas com insultos, xingamentos, ameaças, uso de fotos e/ou vídeos íntimos, invasão de conta ou dispositivos, entre outras.
O Ministério das Mulheres divulgou que, diante da alta de 188,6% nos casos registrados de violência digital contra mulheres, está requalificando o atendimento da Central Ligue 180,para melhor acolhimento dos registros e fortalecimento da responsabilização de plataformas digitais. O Ministério também lançou a campanha O Digital é Nosso Lugar e umGuia de orientação sobre violência digital contra mulheres.
Além de pensar como lidar socialmente com essas violências e seus impactos, também é importante acompanhar a legislação a respeito. Devemos estar atentas à tramitação de projetos de lei como o PL 2338/2023, que “dispõe sobre o desenvolvimento, o fomento e o uso ético e responsável da inteligência artificial com base na centralidade da pessoa humana”.
Há ainda o PL 6194/2025, para o enfrentamento à misoginia em aplicações de internet, e o PL 2/2026, que institui a Política Nacional de Combate ao Discurso de Ódio contra a Mulher na Internet. O Legislativo também vai avaliar a Lei Maria da Penha Digital, direcionada para a proteção das mulheres contra a violência de gênero praticada em ambientes digitais.
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Misogynoir: quando racismo e misoginia se encontram na internet
A misoginia não é tema recente em estudos e pesquisas e não afeta as mulheres de maneira única e universal. O pesquisador Valério Trindade investigou o racismo em formato de humor nas redes sociais no Brasil. Seus dados revelaram que 81% das vítimas de racismo online eram mulheres negras em ascensão social, com idades entre 20 e 35 anos. Eram “piadas” como: “O que uma mulher negra grávida tem em comum com um carro com um pneu furado? Ambos estão esperando um macaco”.
Como todas essas violências precisam ser especificadas e analisadas, o Instituto Minas Programam publicou uma pesquisa na qual analisa o componente racial na relação das mulheres negras com a tecnologia. O estudo mostra que as mulheres negras brasileiras produziram muito conhecimento na internet, mas também foram sistematicamente alvo da Violência de Gênero Facilitada pela Tecnologia e de “misogynoir“, uma espécie de fusão entre misoginia e racismo.
Os impactos são devastadores, pois restabelecem alguns impeditivos na vida dessas mulheres, como sua liberdade de expressão, suas carreiras políticas e suas trajetórias como intelectuais públicas.
O estudo mostra ainda que a violência de gênero facilitada por tecnologia atravessa gerações. Por isso é preciso informar, orientar, acolher e ajudar mulheres de todas as idades que passam por isso. Uma das entrevistadas de mais idade relata uma piada sobre a revogação da Lei Áurea. A linha entre piada e racismo nem sempre é tênue, e liberdade de expressão não justifica discurso de ódio.
Apesar da dureza do assunto, o relatório também traz a importância da formação de comunidades digitais na vida das mulheres negras, e de todas as mulheres. É o espaço de segurança para retomar o fôlego, para estar junto, para rir e reimaginar futuros. Em comunidades nós podemos repensar as saídas de emergência e, aplicando nossa insubmissão, criar nossos próprios espaços digitais.
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Como reconhecer a violência digital contra mulheres
Em 2025, o Instituto AzMina lançou a cartilha Não curto, Não compartilho: entenda, reconheça e denuncie violência de gênero facilitada por tecnologias que apresenta as principais violências de gênero facilitadas por tecnologias. São sete tipos: 1) Assédio e intimidação, 2) Exposição não consensual e sexualização, 3) Violências simbólicas, culturais e de reputação, 4) Vigilância e controle, 5) Manipulação de identidade e montagem, 6) Violência contra menores, 7) Exploração econômica, fraudes e coerção financeira. Cada uma dessas categorias tem um conjunto de ações que podem afetar a vida de mulheres em dimensões nem sempre dimensionadas.
AzMina também ajuda a identificar as violências e como ajudar alguém que esteja passando por isso. Há indicações de práticas que ajudam a diminuir e, quem sabe, eliminar os riscos de sermos vítimas dessas violências. Ações que podem ser aplicadas de forma coletiva e acordadas entre grupos de trabalho, grupos sociais e mesmo dentro da família.
