Um dos encontros do “Zona lê dramaturgia”. Da esquerda para a direita: Renata Pallotini, Dione Carlos, Kyra Piscitelli e Teresa Borges. Foto: Pedro Granato.

Por Giulia Fontes*

“Não faz muito tempo que ouvi falar pela primeira vez na Clara Peeters. Como sua exposição no Museu do Prado de Madri, em 2016, foi a primeira individual de uma artista na bicentenária instituição espanhola, pipocaram informações e críticas redescobrindo a importância da artista e de sua obra. Frente a um mar de nomes masculinos que levam o mérito de criadores de tendências, técnicas, escolas e movimentos artísticos, Peeters é considerada, hoje, uma das fundadoras da pintura de natureza morta nos Países Baixos. No entanto, seus quadros compostos por frutas e objetos característicos do estilo deixam passar aos olhos mais despercebidos algo bastante relevante: ela mesma.

Ser mulher e artista hoje está longe de ser fácil, imagina no século 17. Esquecida por centenas de anos, Peeters criou uma arma contra a borracha patriarcal que tentou apagar seu legado. Hoje tida como a possível “mãe das selfies”, a artista inseria pequenos, ou melhor, minúsculos autorretratos em cada uma de suas pinturas. Sempre escondidos, semi-refletidos em objetos, imperceptíveis à primeira vista. Podem estar num vaso, num peixe, nas ameixas, numa maçaneta. Uma maneira de dizer que ela, mulher invisibilizada, estava presente. Essa inserção radical de si mesma em seu material, sempre menosprezado pela assinatura feminina, é um ato tão revolucionário quanto a sutileza de sua realização.

O apagamento de artistas mulheres nunca foi exclusividade das artes plásticas, muito pelo contrário: o cinema, a dança, a música, as artes cênicas e a literatura operam na mesma lógica. Se hoje muitos nomes e trabalhos começam a ser desenterrados na tentativa de reverter a estratégia dominante, que descreditou e deslegitimou a capacidade de uma mulher exercer qualquer ofício artístico, isso se deve a um levante cada vez mais forte de mulheres que buscam renomear aquelas que sempre tiverem nome. Assim, se por um lado tentam nos aniquilar, por outros, abrimos brechas, fendas, contramãos, túneis. Obras e iniciativas que são, em si, projetos de resistência. Persistência em não se deixar apagar.

Nos últimos meses, pude acompanhar de perto um exemplo disso em um campo talvez ainda mais relegado que as artes plásticas: a dramaturgia feita por mulheres. Idealizado por Maria Giulia Pinheiro e Pedro Granato, o Zona lê dramaturgia foi uma série de encontros com dramaturgas entre agosto e setembro de 2017 no teatro Pequeno Ato em São Paulo. Vindas de todos os cantos do país para trabalhar na cena teatral paulistana, essas mulheres puderam compartilhar sua produção artística tão rica, diversa e, infelizmente, pouco conhecida. A cada edição, alguns textos das convidadas eram encenados por uma equipe de atrizes e atores. Em seguida, abria-se uma conversa entre as dramaturgas e o público, mediada por uma jornalista ou pesquisadora da área.

“Cliente: Sempre odiei sopa. É na sopa que se esconde o ódio. É comida líquida, isso não pode ser bom. É preciso que as pessoas se esforcem para mastigar, entende? É preciso que as pessoas saibam o que elas estão colocando na boca e entendam o esforço que é digerir desde o começo. Se a gente facilita… as pessoas acham que podem ir comendo tudo, enfiando dentro de si qualquer coisa, sem se preocupar com o depois… não! É preciso entender o que se põe dentro. É preciso mastigar a comida antes de engolir. Isso leva tempo. Leva tempo mastigar. Leva tempo digerir. Leva tempo colocar pra fora do corpo tudo o que a gente colocou pra dentro! Será que as pessoas não entendem? Leva tempo… o corpo… o corpo lembra. A minha vida mudou tanto, por que minhas obsessões continuam as mesmas?” (trecho do texto Mastiga, de Maria Giulia Pinheiro)

Foram mais de 30 mulheres, entre dramaturgas e debatedoras, envolvidas nessa primeira edição, possibilitando o diálogo entre pessoas de idades, trajetórias, estéticas e poéticas bem diversas. O que as unia era ser uma mulher artista em 2017. Não havia nenhum tipo de restrição ou indicação do que deveria ser debatido, configurando o espaço com uma zona autônoma livre, característica essencial do Zona lê mulheres – projeto criado por Maria Giulia Pinheiro, do qual o Zona lê dramaturgia nasce.

De alguma maneira, esse formato influenciou muito o que foi dito, pois mesmo nos dias em que o público não participou tanto dos debates, a sala tomava ares não de seminário, mas de encontro informal e verdadeiro. Encontro. Como aqueles organizados por Frida Kahlo ou Louise Bourgeois, em suas casas, com artistas ou líderes de movimentos, apenas com o intuito de trocar, compartilhar experiências, por mais divergentes que pudessem ser as opiniões ou estéticas das participantes. Assim como nos encontros do Zona, em que não se pretendia instruir ou orientar como se deve escrever, o que é escrever, ao mesmo tempo em que se debatia como se escreve, por quê se escreve, para quem se escreve, sem esquecer de quem escreve:

Angela Ribeiro, Carla Kinzo, Carolina Bianchi, Carol Pitzer, Claudia Barral, Claudia Pucci Abrahao, Claudia Schapira, Dione Carlos, Drika Nery, Lucienne Guedes Fahrer, Maria Fernanda De Barros Batalha, Maria Giulia Pinheiro, Maria Shu, Marici Salomão, Michelle Ferreira, Natália Xavier, Paula Autran, Paula Cohen, Paula Mandel, Priscila Gontijo, Renata Pallottini, Silvia Gomez, Tatiana Ribeiro, Teresa Cristina Borges e Vana Medeiros. Foram estas as 25 dramaturgas convidadas para a primeira edição do Zona lê dramaturgia. Como mediadoras, participaram as críticas e pensadoras de teatro Paloma Franca Amorim, Kyra Piscitelli, Maria Eugênia de Menezes, Maria Fernanda Vomero, Maria Luísa Barsanelli, Mariana Marinho e Vanessa Bruno. Tantas vozes, e apenas 30 entre tantas outras tão dispersas e ainda pouco ouvidas.

Entre dissonâncias e consonâncias, emergia a certeza de que ser mulher determina muitas das dificuldades de ordem prática nos processos das artistas – não por acaso, o texto mais citado nesse sentido foi Um teto todo seu (1928), da escritora britânica Virginia Woolf, que fala sobre a importância de ter um espaço para poder criar, escrever, sem ser interrompida a todo momento por obrigações familiares ou sociais. Emergia, ainda, a certeza de que estar ali compartilhando seus processos artísticos e sobre suas condições ao criar no mundo atual era mais do que um encontro artístico, mas também um ato político. Político porque sensível, porque abala a conformidade com as estruturas pré-concebidas, os modelos aceitos e as normas. Político porque, ao invés de segregar, nos juntou frente a frente para discutir nossas obras e nosso tempo.

Os textos lidos em cada um dos encontros atingiram uma gama de variação incrível, tanto em forma e conteúdo, quanto em tipo de proposição, pois foram lidas desde primeiras versões recém-escritas até textos já encenados e premiados, como Mantenha fora do alcance do bebê, de Silvia Gomez. Encenado pela primeira vez em 2015, o texto recebeu o prêmio APCA de Melhor Dramaturgia e foi o único de autoria feminina indicado ao Prêmio Shell de melhor texto naquele ano.

“Longe, um bebê existe.
Mulher 1 (perturbada pelo som): Ele já vem com roupinha?
Mulher 2: Ah, sim, quero dizer, ele virá vestido com alguma coisa, você sabe, qualquer coisa que encontrarem.
Mulher 1: Vai ser homem, não é?
Mulher 2: Por favor, mal começamos.
Mulher 1: Pode ser uma blusa listrada com uma calça lisa. Tons de caramelo.
Mulher 2: Como?
Mulher 1: A calça deve ter o mesmo tom das listras da blusa, fica bom assim. Se ele gostar, pode calçar tênis, eu não me importo.
Mulher 2: Os bebês não se vestem sozinhos.
Mulher 1: Ele não acompanha uma mala?
Mulher 2: O sexo, isso ainda não está decidido.
Um bebê longe. O som confunde cada vez mais a Mulher 1.
Mulher 1: Quero dizer, como nos kits prontos…
Mulher 2: Kits?
Mulher 1: …você sabe, como nos pacotes completos que prometem a viagem, o café da manhã, a hospedagem ou o hambúrguer, o refrigerante 500 ml e as batatas fritas.
Mulher 2: Não vendemos pacotes turísticos.
Mulher 1: Vocês não avisaram a ele?
Mulher 2: Olha, não temos tempo para esse tipo de conversa, tudo bem?
Um bebê ri longe.
Mulher 1 (cada vez mais perturbada pelo som): Não disseram a ele como as coisas acontecem por aqui…?
Mulher 2: Atendemos a uma média de 120 pessoas por mês…
Mulher 1 (continua o raciocínio): …Não avisaram a ele que aqui as pessoas precisam se vestir adequadamente, que precisam tomar banho e escovar os dentes ou mesmo dizer “bom dia”, “obrigado” e também “imagina, não foi nada” quando esbarram em você… Sabe… Espero que ele já venha com conhecimentos sobre esse tipo de coisa.
Mulher 2: É que nós…
Mulher 1: Porque se vocês não avisaram nem isso a ele, imagine quando ele souber do resto… Se vocês não costumam explicar o mínimo, não sou eu quem vai dizer sobre todo o resto.” (trecho do texto Mantenha fora do alcance do bebê, de Silvia Gomez)

Dentro de suas proporções nesta primeira edição, dentro do pequeno ato, este evento pode parecer pequeno em relação ao tamanho da cidade de São Paulo, quase imperceptível em relação ao Brasil. Mas bastava comparecer a um dos encontros para notar que o foco central refletia tanto o rosto quanto a luta de cada uma das mulheres em ação na cena teatral paulistana, inserindo uma lente de aumento sobre nossa presença dentro do panorama das artes, mobilizando o pincel, a tinta, o lápis, a caneta ou a máquina de escrever para nos reconhecermos na cena principal. Mesmo quando imperceptíveis à visão geral do quadro, anunciamos nossa presença no espaço, na plateia, no palco, na luz, nos objetos e nas palavras ditas hoje no teatro. Uma maneira de revelar, como Clara Peeters, que a arte tem rosto – e letra – de mulher.

 

*Giulia Fontes é atriz formada pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), dirigido por Antunes Filho, e bacharel em Artes Cênicas pela Escola Superior de Artes Célia Helena. Trabalha como arte-educadora em exposições de artes plásticas em São Paulo, dentre elas, participou da 31ª Bienal de São Paulo  e da exposição “Terra Comunal: Marina Abramovic + MAI”, no Sesc Pompeia.

 


 

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