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28 de maio de 2020

Adeus à poeta feminista Olga Savary

A escritora Olga Savary faleceu aos 86 anos e a literatura brasileira perdeu uma de suas maiores poetas
Olga Savary
Fotos e cartas trocadas com a escritora Olga Savary

No dia 15 de maio de 2020, uma poderosa torrente de palavras se calou. A escritora, jornalista e tradutora Olga Savary faleceu aos 86 anos no Rio de Janeiro. A literatura brasileira perdeu uma de suas maiores poetas – mas, se formos espertas, seguiremos honrando e ecoando seu legado.

Savary, como gostava de ser chamada pelos amigos, foi uma das autoras mais prolíficas dos nossos tempos. Manteve-se ativa até o fim da vida, sempre trabalhando em um novo projeto. “Vivo – em todos os sentidos – do meu trabalho, sobrevivo dele, vivendo monasticamente (…). Tenho orgulho de ser autossuficiente e viver do que crio”, escreveu em uma das últimas cartas que trocamos.

Não por acaso, ela foi a primeira autora tema desta coluna que busca visibilizar a produção literária de mulheres. Além de ser uma das minhas grandes musas poéticas e tema da minha pesquisa de mestrado, a trajetória tão inspiradora de Savary, infelizmente, ilustra bem a injusta desvalorização da literatura de autoria feminina.

Não chegamos a nos conhecer pessoalmente, mas trocamos diversas cartas e telefonemas ao longo dos últimos anos. Muito generosa com quem pesquisa sua obra, ela sempre fazia questão de atualizar os impressionantes números da sua produção: mais de 20 livros publicados, 40 obras latino-americanas traduzidas ao português, 60 prêmios literários e a participação em cerca de mil e quinhentas obras coletivas, como autora ou organizadora.

Mesmo assim, e apesar de ter sido muito influente no meio cultural nacional nas décadas de 1970 e 1980, Savary não teve o reconhecimento que merecia em vida. Com a ocupação dos espaços literários, acadêmicos e midiáticos por mais mulheres e pessoas comprometidas com pautas feministas, espero que consigamos mudar esse cenário. Não apenas pela memória de autoras como ela, mas para a criação de repertórios culturais mais representativos que fortaleçam nossas lutas por diversidade e igualdade social para todas e todos.

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Afinal, a poesia desta autora paraense nos instiga à percepção da força que construímos ao nos apossarmos de nossos corpos e desejos para vivermos nossa autonomia. Em uma de suas obras mais emblemáticas, o livro de poesia erótica Magma, de 1982, a vivacidade parece estar intimamente ligada à independência da enunciadora:

“VIDA

É das uvas roxas que abocanho

em tua boca e em teu fruto exposto

que faço meu vinho, meu sangue,

que para ti como um rio corre,

minha paixão, muso do meu canto

vindo do fundo da terra,

basalto e magma, esperma

de fundas furnas e de grutas

e das fendas submersas

de onde atocaiado tu me espias,

para ti meu canto, um também roxo canto

uivando das entranhas, mãos, garganta

a me dizer: vida

a ser trazida

entre os dentes

atravessada

tal uma faca.”

(SAVARY, 1982, p. 50)

Nos poemas de Savary, a mulher deixa de ser apenas musa cantada por vozes masculinas, como na poesia tradicional, para encontrar sua própria voz. Com “alegria e dignidade” – que a autora dizia serem suas “palavras-chave” – a voz feminina que enuncia os poemas canta suas vivências, sua sexualidade e até seus “musos”.

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Em sua obra, as fronteiras entre os corpos masculinos e femininos se confundem e não há hierarquia entre os gêneros nas relações sexuais e afetivas. Livre para gozar de suas experiências, a enunciadora parece buscar sempre um regresso à essência vital, através da sensação de morte e renascimento do êxtase erótico:

“SER

o sexo tão livre, natural, obsessivo

como areia e seixos rolados:

regresso à água.”

(SAVARY, 1982, p. 16)

Aqui, a água, tão presente na obra de Savary, assemelha-se à “substância oceânica” descrita pelo poeta mexicano Octavio Paz – um dos autores traduzidos por ela ao português – como a sensação de estar “envolto e movido pela totalidade da existência”(A dupla chama, 1994, p. 196).

Essa sensação de completude e profunda união com a natureza pode ser experimentada no encontro erótico com outra pessoa, mas também em conexão consigo mesma:

“SENSORIAL

Íntima da água eu sou por força,

mar, igarapé, rio ou açude,

pela água meu amor incestuoso.”

(SAVARY, 1982, p. 17)

Regressa, então, à água, poeta. Por aqui, cuidaremos do seu legado.

Bruna é uma jornalista e escritora paulistana. Pesquisa literaturas e feminismos na USP e faz parte da coletiva Circular de Poesia Livre. Escreve desde que aprendeu a combinar as letras e publicou os livro de poesia “entranhamento” e “algo a declarar.;'”.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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