Arquivo pessoal

Tenho muitos sonhos e muitas coisas a realizar, mas nem todas envolvem o meu filho Cacá. Enquanto mãe em uma sociedade machista, dizer isso em voz alta parece quase um pecado.

A verdade é que quero dar a ele o meu melhor, o que tenho de mais belo. Não quero que a maternidade seja algo que eu sinta como um sacrifício. Até agora não tem sido. Difícil, exaustiva, desafiadora, intensa, complexa e por vezes até desesperadora. Mas não me sinto mártir, não me sinto presa e nem quero me sentir.

Quando se escolhe amamentar em livre demanda o desafio se torna ainda mais complexo!

Poucas mulheres que ainda não são mães (e mesmo muitas que são) sabem que existe uma força externa enorme para que não amamentemos. O sistema que nos empurra para o uso da fórmula (leite artificial) é ainda mais perverso do que o que nos empurra para a cesárea.

Todas as minhas amigas parecem chocadas quando comento que a média brasileira de amamentação exclusiva é de 54 dias, mas quase nenhuma se choca quando amigas dizem não terem leite ou que seu leite era fraco e por isso não conseguiram amamentar

Ainda que a ciência a cada dia que passa comprove mais e mais os benefícios da amamentação até pelo menos dois anos tanto para a mãe quanto para o bebê, o caminho que nos leva ao desmame precoce das nossas crias é muitas vezes sutil e quase sempre perverso. Além disso, ele sempre passa por uma visão de mundo machista e excludente!

É o médico que nos faz acreditar que nosso leite é fraco, a sogra que nos faz duvidar do nosso instinto materno e que nos faz acreditar que não sabemos acolher nosso bebê. É a propaganda do leite em pó que nos vende saúde e nutrição e um bebê que dorme a noite inteira. É até a propaganda do Ministério da Saúde que faz parecer que amamentar é fácil e sem dores. Aí quando vem o balde de água fria todas as dificuldades somadas a todo o desestímulo nos fazem duvidar de nós mesmas.

É a amiga que não amamentou o bebê dela nos dizendo que “mesmo assim ele é super saudável”. É o peito que cai, é a dor no bico, são as noites mal dormidas. O marido que sente ciúme do nosso peito exposto e toda uma sociedade que sexualiza o seio feminino desviando-o de seu “projeto de fábrica”.

É o mercado de trabalho que nos faz voltar à labuta com nosso bebê tão pequeno, indefeso e carente. É o tio babão que fica nos olhando se amamentamos no restaurante ou a senhorinha com olhar reprovador no banco do parque. É a renúncia, a pressa da sociedade, a pressa do marido em voltar à vida sexual, a pressa de voltar ao mercado, de voltar para nós mesmas.

Ser mulher é difícil, ser mãe é muitas vezes isolamento puro.

A sociedade quer nos deixar no cantinho das mães longe das decisões importantes e dos espaços de poder. E uma das formas mais cruéis de fazer isso é nos isolando da nossa cria, nos fazendo escolher!

Muitas vezes, parece que tenho que escolher entre me sentir uma profissional incompleta ou uma mãe relapsa. “Você quer amamentar esse bebê enorme? Faça-o na sua casa então!”

Mas eu me recuso a ceder! Amamentar é resistir! Amamentar é um ato político e um tapa na cara de uma sociedade machista que quer ter controle sobre o meu corpo e a minha maternidade! Amamentar é ir contra o sistema que me diminui enquanto profissional.

Vou a todo o lugar que posso com o Cacá. Às vezes me sinto culpada, pois acaba sendo mais estressante para ele do que se eu ficasse em casa. Mas aí vejo a carinha dele quando vou dar de mamar, quando dou um cheiro nele entre uma reunião e outra, um abraço apertado e um carinho no rosto!

Não é fácil, é cansativo e às vezes desgastante! Nem todo mundo se sente confortável quando placidamente saco a teta para alimentar meu filhote enquanto se discutem assuntos sérios, mas eu resisto, não apenas por mim, mas por todas nós.

Eu me recuso a escolher! Eu me recuso a me afastar dos espaços decisórios porque me tornei mãe. O meu talento e as minhas habilidades vêm acompanhadas da minha maternidade e no meu corpo e nas minhas tetas mando eu!

Eu sou uma melhor profissional por ser mãe do Cacá e sou uma mãe melhor por poder exercer meus talentos e habilidades no mercado. Quem não entende e acolhe isso invariavelmente vai perder algo de mim!

Aliás, você sabe porque estamos falando sobre amamentação justo hoje? É porque essa é a Semana Mundial da Amamentação.

Em todo o Brasil ocorrerão eventos e mamaços. Sim! Nos reuniremos para amamentar em lugares públicos e mostrar que não há nada de errado com isso.

De Macaé (RJ) a Lauro de Freitas (BA), de Altamira (PA) a Lajeado (RS), serão mamaços no país inteiro. Confira a lista aqui.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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