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Violência obstétrica e mortes maternas: denúncias se acumulam no hospital de Marabá

Município tem taxa de mortalidade materna 39% maior que a estadual no Pará. Mulheres negras e indígenas denunciam racismo, negligência e abusos no parto

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Yapê, uma adolescente indígena de vestido vermelho caminha descalça por um terreno seco, carregando uma criança de fralda no colo.
Yapê Rê Anambé morreu 5 dias após o parto – Acervo da família
  • O hospital público de Marabá acumula denúncias de violência obstétrica e mortes maternas, incluindo omissão de cuidados e procedimentos traumáticos que resultaram em mortes de mulheres e bebês;
  • Mulheres negras e indígenas relatam racismo e negligência no atendimento, evidenciando a  relação da violência obstétrica com marcadores sociais como raça, classe e gênero; 
  • Marabá registra taxa de mortalidade materna acima da média estadual e nacional. Apesar disso, famílias enfrentam barreiras para conseguir justiça, e medidas do poder público são insuficientes.

A adolescente indígena Yapê Rê Anambé Guajajara morreu, aos 17 anos, em junho deste ano, cinco dias após parto que aconteceu no Hospital Materno-Infantil de Marabá (HMI). A unidade municipal pública é referência na região sudeste do Pará. O caso da jovem Guajajara, é um dos casos mais recentes de violência obstétrica e morte materna no HMI, mas não é o único. 

A equipe d’AzMina entrevistou 12 mulheres que relatam curetagens mal feitas, partos realizados no chão, bebês com membros fraturados no nascimento, negação de direitos, episódios de racismo e tratamento desumanizado, além da morte de mães e bebês. Os relatos compõem uma série de duas reportagens especiais.

Veja aqui a outra reportagem sobre o HMI

“O que mais me revolta é saber que eles [as autoridades responsáveis] conseguem vencer as pessoas pelo cansaço”, desabafa Regilanne, tia da adolescente, que denunciou violência obstétrica na morte de Yapê, mas ainda aguarda a justiça. Ela conta que quando deu entrada no HMI, em 16 de junho, Yapê “não estava sentindo contração, estava bem, saudável, só nervosa porque era o primeiro filho”. A gravidez foi resultado de uma violência sexual. A menina teria, inclusive, direito ao aborto legal nesse caso.

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Sem dilatação, a jovem estava com 9 meses de gestação e passou a noite recebendo medicamentos para indução do parto, o que a fez vomitar e desmaiar mais de uma vez, relata a tia. A mãe a acompanhava no centro cirúrgico, quando viu a filha convulsionar enquanto os médicos decidiam entre o parto normal e a cesárea. “Realizaram o parto normal sem ela ter condições, passando mal, convulsionando”, conta Regilanne.

A mãe foi retirada da sala, mas viu, pela fresta da porta, o médico retirando coágulos de sangue, diz a tia. O bebê nasceu às 9h53, segundo relatório da enfermagem. Yapê teve uma parada cardíaca às 10h30 e outra às 11h30, e só então foi transferida para o Hospital Regional de Marabá, onde morreu cinco dias depois.

A imagem explica o que é violência obstétrica, descrevendo-a como práticas abusivas, desrespeitosas, humilhantes, coercitivas ou negligentes durante o pré-natal, parto e pós-parto. Destaca que isso representa uma violação dos direitos humanos das mulheres, podendo causar impactos físicos, emocionais e psicológicos graves.
A imagem explica os principais tipos de violência obstétrica: Falta de informação e consentimento Quando as mulheres não são informadas sobre os procedimentos médicos que serão realizados durante o parto e não têm a oportunidade de consentir ou recusar esses procedimentos. Tratamento desrespeitoso Linguagem abusiva, insultos, gritos, humilhações, falta de privacidade durante procedimentos, discriminação com base em raça, etnia, idade, orientação sexual, classe social ou outras características pessoais. Intervenções desnecessárias Realização de procedimentos médicos invasivos sem justificativa médica adequada, como episiotomias, cesarianas, indução do parto, uso excessivo de medicamentos ou manobras agressivas. Falta de apoio emocional Negligenciar as necessidades emocionais das mulheres durante o trabalho de parto e parto, não oferecendo apoio adequado, desconsiderando preocupações, ou impedindo a presença de acompanhantes. Restrição de liberdade e direitos Impor posições durante o trabalho de parto sem necessidade médica, proibir movimentação, negar acesso a métodos de alívio da dor, impedir o uso de objetos pessoais como celular, ou negar direitos garantidos por lei. Violência física Uso de força excessiva durante procedimentos, realização de exames de forma brusca ou dolorosa, contenção física desnecessária, ou qualquer forma de agressão física.
A imagem explica as consequências da violência obstétrica: 
Físicas: lesões, infecções, complicações no parto, sequelas permanentes;
Emocionais: trauma, depressão pós-parto, ansiedade, medo de nova gravidez;
Psicológicas: perda de autoestima, sentimento de culpa, dificuldade de vínculo com o bebê;
Sociais: desconfiança no sistema de saúde, isolamento social;

Fonte: Cartilha de Violência Obstétrica do Núcleo Mulher e Promotoria de Justiça de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher, do Ministério Público do Estado do Pará, de 2024.

“Sharleana, o seu bebê está morto”

Aos 91 anos, Maria José Rodrigues Batista viveu o que nenhuma mãe deveria: em apenas um mês perdeu um filho em um tiro acidental e uma filha no HMI. Sharleana Rodrigues dos Santos, de 34 anos, enfrentava uma gravidez de risco e havia ido para o Maranhão cuidar da gestação, onde a cunhada trabalhava em um hospital. A morte do irmão a fez voltar para Marabá em outubro de 2020. 

Num domingo, 25 de outubro, começou a sentir fortes dores, estava com 4 meses de gestação. A irmã Raimunda Batista, de 61 anos, a levou ao HMI. Como ultrassons não eram realizados aos finais de semana, o médico informou: “ela está bem, nós vamos internar ela aqui só para fazer o ultrassom na segunda”, lembra Raimunda, que questionou a avaliação diante dos gritos da irmã. Ela não pôde acompanhar a irmã, por ser período de Covid-19, mas ficou na recepção aguardando notícias.

No dia seguinte, uma conhecida que trabalhava no hospital avisou por telefone que Sharleana estava indo fazer o ultrassom. Raimunda, então, burlou a orientação e entrou no corredor para vê-la. Foi quando  encontrou Sharleana numa cadeira de rodas, com os braços caídos, o pescoço e a cabeça abaixada. 

A imagem mostra uma idosa segurando um celular. No celular, aparece a foto de uma jovem fazendo um gesto de coração com as mãos. A senhora tem uma expressão séria e aparenta estar emocionada, com olhos marejados.
Maria José segura imagem de filha – Foto: João Paulo Guimarães

“Eu corri até lá. Quando eu levanto o rosto dela, vejo o lado todo roxo. O ombro roxo. Ela era negra, mas você via a cor. Estava na cor de açaí. Eu falei ‘meu amor, que foi isso que aconteceu com você?’, e a única palavra que ela falou foi: ‘caí'”, recorda. O ferimento, segundo Raimunda soube depois, teria ocorrido porque a irmã tentou pedir água, mas ninguém a ajudou. Então, mesmo fraca, ela teria decidido buscar sozinha. E caiu da maca.

Durante o ultrassom o médico deu a notícia: “‘Sharleana, o seu bebê está morto’, só que ela já não respondia mais”, conta a irmã. Mais tarde naquele dia, Sharleana deu entrada na UTI. A reportagem acessou o pedido de internação, que dizia “puérpera com TCE pós queda em quadro comatoso” — admitindo que Sharleana havia sofrido uma queda, apresentava traumatismo craniano e estava em coma. 

Leia Mais: Parlamentares sabem pouco sobre violência obstétrica

“Porque minha filha era negra. Deixaram morrer”

Às 22h, Sharleana passou por uma curetagem; e às 22h30, segundo anotações da enfermagem, teve uma parada cardiorrespiratória. Às 23h, uma equipe do SAMU foi acionada para transferi-la para o Hospital Regional, mas ela teve outra parada cardíaca. A morte foi constatada às 23h45 de 26 de outubro de 2020. 

No atestado de óbito, a causa é descrita como: “parada cardiorespiratória, edema agudo no pulmão, síndrome hellp“. “Hellp é uma complicação da pré-eclâmpsia, uma condição hipertensiva específica da gestação, que apresenta repercussões na saúde da mãe e do feto”, explica Jardeliny Côrrea da Penha, enfermeira obstetra e professora de enfermagem da Universidade Federal do Piauí (UFPI). 

Ainda segundo Jardeliny, “o pré-natal de qualidade, com estratificação do risco obstétrico, permite a identificação precoce de mulheres com fatores de risco para a pré-eclâmpsia, bem como daquelas com quadro hipertensivo, o que favorecerá a tomada de decisão, com implementação de cuidados em tempo oportuno”, visto que “a pré-eclâmpsia é uma das condições que mais adoece e mata mulheres durante o ciclo gravídico-puerperal.”

Entre lágrimas de revolta, a mãe de Sharleana, Maria José, desabafa: “a menina que estava do lado dela diz que ela gritava de sede. Acho que foi porque minha filha era negra. Deixaram minha filha morrer.”

Cinco mortes maternas por ano

A imagem mostra uma mulher com expressão séria segurando duas fotos: uma de uma jovem sorridente e outra de um bebê enrolado em um cobertor.
Regiane segura foto da filha e do neto – Foto: João Paulo Guimarães

De acordo com os dados do Painel de Monitoramento da Mortalidade Materna, do governo federal, entre 2014 e 2024, Marabá registrou 49 mortes maternas em hospitais por causas obstétricas diretas — aquelas relacionadas a complicações específicas da gravidez, parto ou puerpério. 

Ao longo desse período, a média anual de mortalidade materna no município foi de 78 mortes por 100 mil nascidos vivos. A taxa é 39% maior que a média estadual do Pará (56 por 100 mil) e 123% superior à média nacional (35). Os dados indicam que, proporcionalmente, Marabá teve desempenho sistematicamente pior que o restante do país.

Em 2024, dados preliminares mostram que a taxa de mortalidade materna no município foi de 80,6 por 100 mil nascidos vivos — 60% maior que a média estadual (50,2) e quase 140% maior que a nacional (33,7). Ao longo da série histórica analisada, Marabá apresentou taxas superiores às do estado em todos os anos, com exceção de 2022 e 2023. Ainda assim, mesmo nos anos em que os índices caíram, a taxa local seguiu acima da média nacional.

Os números têm nome, sobrenome e endereço. Tereza Bianca Nunes de Castro morreu aos 23 anos, com 8 meses de gestação, por complicações após um parto no Hospital Materno-Infantil (HMI). Antes de falecer, a jovem relatou à família que tentaram fazer um parto normal, mas ela estava aguentando de dor e desmaiou. “Aí, ela acordou de novo. Mandaram sentar e aplicaram anestesia nela e não viu mais nada”, fala Regiane Nunes de Castro, 41 anos, sua mãe.

“Quando Tereza acordou, já estava no quarto, sem o bebê”, que, tão logo foi trazido, retornou à UTI. Um documento obtido pela reportagem, feito pelo HMI, diz: “RN com úmero direito avaliado por ortopedista. Onde foi imobilizado o membro.” Isso quer dizer que o bebê teve fratura no braço.

A jovem de 22 anos e o filho receberam alta de manhã e voltaram ao HMI de madrugada.  “Deram alta para ela, vomitando sangue. O bebê chorava com febre e o braço engessado”, conta. Eram 4h quando Regiane encontrou a filha na espera da unidade hospitalar com a barriga inchada, gemendo de dor, enquanto o neto chorava ininterruptamente.

Leia Mais: “Sua raça é resistente à dor”: mulheres relatam racismo em atendimentos médicos

“Cuida dos meus filhos, não aguento mais”

Tereza e a filha só foram transferidas para o Hospital Municipal de Marabá (HMM), às 9h, onde começaria uma via-sacra cirúrgica que duraria meses. Documentos do HMM mostram que Tereza chegou à UTI com suspeita de abdome agudo inflamatório – condição grave que pode indicar infecção ou perfuração de órgãos internos. 

Ela fez uma laparotomia exploratória (cirurgia para investigar a causa de dores ou infecções internas), seguida de lise de aderências (remoção de tecidos cicatriciais que se formam anormalmente e podem colar órgãos entre si). O procedimento foi finalizado com drenagem de abscesso intracavitário (retirada de acúmulo de pus dentro da cavidade abdominal, causado por infecção). 

Durante a internação, uma psicóloga documentou que Tereza estava ansiosa e apresentava “fragilidades emocionais em virtude do seu quadro clínico e situações pessoais”. Além disso, registrou que ela recebia acompanhamento “para enfrentar possíveis efeitos negativos relacionados a eventos traumáticos, ao sentimento de insegurança, de medo intenso e ansiedade recorrentes.”

Regiane registrou um boletim de ocorrência na Delegacia Especializada no Atendimento de Crianças e Adolescentes (DEACA) de Marabá, por lesão corporal ao neto, e solicitou um exame pericial para investigar a fratura. Também fez uma notícia de fato no Ministério Público, pedindo a transferência da filha para o Hospital Regional. 

A mãe de Tereza revezava entre os cuidados com Tereza, em estado grave no hospital, os netos que ficaram em sua casa e as faxinas para sustentar a família. Regiane ficou com a responsabilidade de cuidar de todos, sem que lhe fosse oferecido qualquer suporte. Tereza morreu em 27 de janeiro de 2024, 96 dias após dar entrada no hospital para o parto do filho. A certidão de óbito aponta “choque séptico abdominal, abscesso pélvico, cesariana” como causa da morte. 

Durante a nossa entrevista, Regiane chorou ao revisitar as últimas memórias com a filha: “Ela falou, ‘mãe, eu não vou mais aguentar. A senhora cuida dos meus filhos. Acabou. Acabaram com a minha vida”.

O cenário da tragédia

O quadro de avisos mostra cartazes informativos sobre temas diversos, incluindo violência obstétrica, descarte de lixo, campanhas de saúde e ginástica laboral.
Quadro de recados do HMI – Foto: João Paulo Guimarães

O HMI ocupa metade de um quarteirão no bairro Velha Marabá, em um prédio verde cercado por grades. A reportagem d’AzMina esteve no hospital, em abril de 2025, e encontrou mulheres esperando atendimento: algumas em cadeiras convencionais, outras em assentos improvisados ou em pé.

Nos corredores, quadros de recados exibiam cartazes sobre violência obstétrica, citando a lei estadual que obriga maternidades a informarem sobre canais de denúncia. Outro lembra da Semana Municipal de Conscientização contra a Violência Obstétrica. Os recados não inibem as violações que familiares afirmam que acontecem ali dentro. 

Para além das experiências individuais, mulheres ouvidas pela reportagem relataram situações padrões: todas foram proibidas de usar celular na internação e tiveram o direito a acompanhante negado ou dificultado em procedimentos cirúrgicos. 

Um comunicado no mural da unidade diz que toda gestante em trabalho de parto tem direito a acompanhante no centro obstétrico, mas não inclui as demais que estão para avaliação e curetagem (intervenção para raspagem do útero após parto ou aborto). Embora socialmente questionável, a decisão era legal. A Lei do Acompanhante estabelece que é obrigatório acompanhante para a parturiente em todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto, sem mencionar outros procedimentos obstétricos. 

É por isso que, em maio deste ano (2025), foi aprovada a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, que, entre outras definições, assegura “a participação, durante o parto do natimorto, de acompanhante escolhido pela mãe.

Sendo assim, após essa data, casos de acompanhantes negados durante a curetagem, como os mencionados na reportagem, passam a descumprir a nova Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. Quanto à proibição do uso de celulares, a médica Suellen Oliveira, da FIOCRUZ, no Rio de Janeiro, é categórica: “você pode ter o seu celular com você durante a internação […] você não está num presídio”. A ressalva é não fotografar funcionários em exercício.

Mulheres negras e indígenas são principais vítimas

Entre as denunciantes há uma característica comum: a maioria é não-branca. Regilanne, tia de Yapê, acredita que a jovem foi vítima de racismo, assim como Maria José, que defende que a filha “não recebeu atendimento digno por ser negra.”

Para a psicóloga Carolina Aita Flores, doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social, “a violência obstétrica possui um caráter interseccional, em que os marcadores sociais de diferença se cruzam e criam experiências únicas de discriminação e violência.” Isso se comprova quando quem conta as mortes são outras mulheres: mães, irmãs, tias. A violência obstétrica é uma violência de gênero não apenas por ser cometida contra mulheres, mas por ter raízes patriarcais. 

A vivência de Lidiane Teixeira Cavalvanti, de 33 anos, é mais um exemplo dessa violência sistêmica: morreu após o parto em que o bebê nasceu com fraturas. Quem relata sua história é a irmã, Inês Teixeira Cavalcanti, de 47 anos.

Lidiane é uma mulher negra que mostra a barriga de gravidez sentada numa rede
Lidiane Teixeira morreu semanas depois do parto. Foto: Acervo da família

Lidiane chegou ao HMI em trabalho de parto com muita dor. Ao tentar chamar ajuda, ela teria contado que caiu no chão e o médico mandou deixá-la ali. “Uma enfermeira subiu na barriga dela e o médico ficou puxando o bebê”, diz Inês, que ouviu esse relato da irmã.

A prática de subir na barriga é conhecida como manobra de Kristeller, um procedimento que consiste em pressionar a parte superior do útero de uma gestante para tentar forçar a saída do bebê durante o parto. É considerada prática de violência obstétrica e a realização por enfermeiros é vedada pelo conselho profissional da categoria. O bebê nasceu com fraturas no braço e clavícula.

Após o parto, Lidiane enfrentou um quadro severo de hemorragia. Teve alta no dia 4 de novembro, mas voltou ao hospital no dia seguinte em estado grave: havia infecção por resíduos de parto no útero. A mulher foi transferida ao Hospital Regional e morreu em 11 de novembro de 2021. Na certidão de óbito, a causa foi: “choque cardiogênico, insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência renal aguda, infecção puerperal”. Deixou três filhos. O seu bebê sobreviveu, mas ficou com deficiência permanente no braço.

Ministério Público apura casos do HMI

A família da adolescente Yapê, caso que abre essa reportagem, enfrenta obstáculos burocráticos na busca por justiça. “Se a gente que tinha o jurídico ao nosso lado, passou por tudo isso, imagina as pessoas que não têm esse conhecimento”, questiona Regilanne, tia da adolescente.

A morte de Yapê expôs a ausência do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) em Marabá, essencial para analisar mortes suspeitas. Além disso, ao denunciar a violência obstétrica, a família foi desencorajada pelas autoridades locais, que alegaram ser “muito difícil processar médico”.

Em nota, o Ministério Público do Pará (MPPA) confirmou dois procedimentos: um para “apurar as circunstâncias relativas à ausência de SVO“. O outro “apura questões específicas relativas às implicações penais de eventual ocorrência de condutas negligentes, imprudentes ou carentes da necessária perícia” pelos profissionais que atenderam Yapê.

O Ministério Público Federal também investiga o caso e busca “atuação conjunta entre MPF e MPPA” na área cível, afirmou, por meio de nota. O MPF enviou ofício à Secretaria Municipal de Saúde cobrando medidas para prevenir violência obstétrica e dados sobre mortalidade materna no HMI.

A Polícia Civil informou, em nota, que “apura as circunstâncias da morte por meio da Seccional de Marabá. Perícias foram solicitadas e testemunhas estão sendo ouvidas”, e que Yapê foi transferida do HMI “em estado gravíssimo, já entubada e com histórico de hemorragia e duas paradas cardiorrespiratórias.

O filho de Yapê sobreviveu e está sob cuidados dos avós na aldeia. AzMina mostra na segunda reportagem sobre o HMI que há também casos de morte neonatal e violência contra recém-nascidos, revelando outra face da crise no atendimento obstétrico da região.

Prefeitura de Marabá confirma restrição a celulares 

Em nota, a Prefeitura de Marabá respondeu que “se entristece e se solidariza com os relatos das experiências traumáticas de mulheres e famílias que procuraram o HMI” e que “nenhum óbito materno ou perinatal evitável deve ser encarado como aceitável, mas motivo para indignação e de ações na busca de melhorias”. A administração afirmou ainda que busca “mudanças que promovam segurança nos cuidados a essas mulheres, assim como tratamento respeitoso”.

Sobre a proibição de celulares no centro obstétrico, a gestão justificou que a medida “baseia-se em norma interna do próprio hospital” devido à “falta de apartamentos individuais no centro obstétrico”, o que “implica em risco de desrespeito do pudor individual de cada mulher, pois durante o trabalho de parto, as partes íntimas da mulher ficam expostas a acompanhantes de terceiros que portam celulares”. A prefeitura prometeu que “a ampliação da estrutura física do hospital garantirá o porte do celular pelas mulheres e seus acompanhantes”.

A administração listou ações implementadas para combater a violência obstétrica, incluindo “adoção de protocolo assistencial”, “cartilha sobre violência obstétrica”, “1ª Jornada para redução da mortalidade materna de Marabá” e “interação com o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Mulher”. Além disso, afirmou que “já se posicionou com cuidados para o cumprimento da lei do luto parental, que tem seu prazo para adaptação hospitalar encerrado no próximo mês de agosto”.

A reportagem também solicitou, por e-mail, um posicionamento ao Governo do Estado do Pará e à Secretaria de Saúde do Estado, questionando sobre ações estaduais voltadas à redução das taxas de mortalidade materna e neonatal no município de Marabá. Até o fechamento desta edição, nenhuma das instâncias estaduais deu retorno. 

Buscamos o Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM-PA), por e-mail, para questionar o número de denúncias recebidas contra profissionais do HMI, incluindo os médicos citados em relatos obtidos durante a apuração, e se existem procedimentos ético-disciplinares em curso, mas, até o fechamento desta edição, não houve resposta.

Leia também: Bebês nascem mortos e mães sofrem na unidade materno-infantil pública de Marabá

*Edição: Jane Fernandes, Joana Suarez, Helena Bertho // Artes: Kath Xapi, Lory Costa

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