- O número de mulheres negras candidatas à uma vaga na Assembleia Legislativa da Bahia caiu 33% em relação as eleições de 2022.
- A representatividade no pleito não reflete o índice populacional do estado, onde oito a cada dez pessoas são mulheres.
- Nenhuma mulher negra concorrer ao cargo de governadora no estado.
As mulheres negras representam o maior grupo populacional do país, mas há um lugar em que sua presença se destaca: a Bahia. No estado mais negro do Brasil, elas são 41% dos habitantes e praticamente oito a cada dez mulheres. Nestas eleições, elas também representam 80% das candidatas à Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). Porém, os números que mais chamam a atenção são outros. Em 2022, havia 250 candidatas negras a deputada estadual. Agora, elas são apenas 168 – uma queda de 33%. Pior: não há nenhuma candidata negra para o cargo de governadora.

Os dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que a diminuição de candidatas ao cargo de deputada estadual acompanha o ritmo nacional. Em 2026, o Brasil conta com 11.101 candidaturas às assembleias estaduais, sem distinção de gênero e raça – 5.636 a menos que no pleito anterior. Entre as mulheres negras, foram 3.054 candidaturas em 2022 e são 2.048 em 2026, o que também representa uma queda de 33%.
De acordo com a cientista política Daniele Costa, um dos fatores que ajudam a compreender essa redução é o cenário deixado pelas eleições de 2022, marcadas por uma alta taxa de reeleição. Para a pesquisadora, “a força dos grupos já estabelecidos e o peso do poder econômico podem desestimular novas candidaturas, sobretudo de quem entra na disputa para desafiar nomes com maior aporte eleitoral.”
Olhando especificamente para a Bahia, ela aponta que a queda também pode partir de uma maior discussão sobre as cotas partidárias: “Isso está relacionado aos debates públicos sobre autodeclaração racial de candidaturas, que ganharam repercussão a partir de casos como o de ACM Neto, que se autodeclarou pardo nas eleições de 2022 – consequentemente, negro. Isso gerou uma repercussão e atenção dos movimentos e da população sobre os limites das políticas de ação afirmativa.”
No país, mulheres negras representam cerca de metade das candidatas às assembleias legislativas. Na Bahia, são quatro em cada cinco. Mas, apesar da composição racial do eleitorado baiano, ainda é difícil transformar essas candidaturas em ocupação efetiva das cadeiras da ALBA.
Em 2022, das 308 candidatas mulheres, 250 eram negras (81%). Porém, elas tiveram o mesmo número de eleitas que as brancas: quatro. Em outras palavras, menos de 2% das mulheres negras converteram a candidatura em mandato, versus 7% das brancas. Os homens brancos, enquanto isso, tiveram uma taxa de sucesso eleitoral de 17%.
Vanessa Vitorio, mestra em Gênero, Poder e Políticas Públicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), avalia que o percentual de candidaturas de mulheres negras para o cargo de deputada estadual na Bahia deve-se, em parte, às mudanças nas regras de distribuição dos recursos eleitorais: em 2020, o TSE determinou que os partidos distribuíssem o Fundo Eleitoral proporcionalmente entre candidaturas negras e brancas.
Os resultados, porém, apontam para a permanência das desigualdades na distribuição dos recursos que efetivamente aumentam as chances de eleição, segundo Vanessa. Entre eles, estão o próprio financiamento – já que o regramento não raro é burlado –, o tempo de propaganda, o apoio partidário, a estrutura de campanha e a inserção das candidatas nas redes políticas.
Laila Oliveira, doutora em Sociologia e doutoranda em Estudos Étnico-Raciais, faz coro. Para ela, a diferença nas taxas de sucesso eleitoral está relacionada ao racismo estrutural e à forma como os partidos apoiam, ou deixam de apoiar, as candidaturas de mulheres negras. Ela ressalta que, apesar de muitas dessas mulheres colocarem sua trajetória política e sua atuação à disposição de projetos partidários, elas não recebem o mesmo investimento quando decidem disputar um mandato.
“Muitas vezes, os partidos não conseguem compreender a importância de se apoiar essas candidatas que sempre estiveram ali, fortalecendo, apoiando, fazendo desde o trabalho de segurar bandeiras, até atividades em relação aos projetos”, avalia.
Baixa taxa de sucesso eleitoral se repete em outros estados
O paralelo com as Assembleias Legislativas do Pará, Maranhão e Sergipe ajuda a observar como a presença de mulheres negras nas candidaturas se relaciona com os resultados eleitorais em outros estados com elevada proporção de população negra – 80% no Pará, 76% no Maranhão e 75% no Sergipe.

Dos três, o Maranhão apresenta o contraste mais expressivo. Com 132 candidaturas de mulheres negras em 2022, pouco mais da metade do número registrado na Bahia, o estado elegeu nove mulheres negras, mais que o dobro do resultado baiano. Ele também é o único dos quatro casos em que a taxa de sucesso das mulheres negras (7%) ficou acima da taxa das mulheres brancas (6%).
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No Pará, foram 150 candidaturas de mulheres negras e quatro eleitas, com taxa de sucesso de 3% para elas, e 4% para as brancas. Já Sergipe teve o menor número de candidaturas, 76, e só uma mulher negra eleita, com taxa de sucesso de 1%. Para as brancas, essa taxa foi de 10%.
Laila Oliveira reforça que a presença de mulheres negras nos espaços de poder importa, porque pode produzir efeitos concretos sobre as demandas e políticas que chegam ao poder público: “Quando a gente ocupa esses espaços, seja no Legislativo, seja no Executivo, a gente vê avançar as nossas demandas, as nossas pautas, as nossas políticas. Conseguimos desenvolver realmente um mandato voltado para as questões das minorias”.
Para Vilma Reis (PT), candidata a deputada estadual na Bahia, a mudança na representação política depende de transformar a presença nas disputas eleitorais em ocupação efetiva dos espaços de decisão.
“Eu imagino uma Bahia e um Brasil em que as mulheres negras não estejam mais pedindo licença para ocupar espaço, mas ocupando de fato: nas Assembleias, nas prefeituras, nos governos estaduais, na Presidência. Um futuro em que os 28% da população brasileira que somos as mulheres negras se traduzam em, no mínimo, 28% do poder de decisão”, afirma. “Isso não vai vir por generosidade de ninguém. Vai vir de organização, de continuarmos nos apresentando, elegendo umas às outras, protegendo umas às outras”.
“É por isso que o slogan da nossa candidatura é ‘ocupar a política’. Ocupar é um verbo de ação coletiva, não um convite que a gente espera receber.”
Mesmo entre as mulheres negras, observa-se uma diferença entre pardas e pretas. As pardas emplacaram 160 candidaturas na Bahia e três eleitas em 2022 – Soane Barbosa (então no PSB), Ludmila Fiscina (então no PV) e Katia Oliveira (UNIÃO). Já as negras tiveram 90 candidatas no estado, mas conquistaram apenas uma cadeira – de Olívia Santana (PCdoB). Isso representa uma taxa de sucesso de 2% para pardas e de 1% para pretas.
No Pará, 101 mulheres pardas disputaram e três foram eleitas (3%), enquanto 49 mulheres pretas tiveram uma eleita (0,4%). No Maranhão, 100 candidatas pardas resultaram em nove eleitas (9%), mas nenhuma das 32 mulheres pretas chegou à Assembleia. Em Sergipe, uma das 58 mulheres pardas foi eleita (2%) e nenhuma das 18 mulheres pretas conquistou uma cadeira.
A diferença entre pardas e pretas também exige atenção ao modo como a identificação racial é registrada nas candidaturas. Para a cientista política Daniele Costa, a autodeclaração racial é resultado de uma construção histórica dos movimentos negros no Brasil, contudo, racismo brasileiro tem forte dimensão fenotípica e pessoas negras de pele mais retinta estão mais expostas à discriminação racial.
A consulta formulada em 2019 pela deputada Benedita da Silva (PT) ao Tribunal Superior Eleitoral também é apontada pela pesquisadora Daniele Costa como um marco nesse processo. A medida levou à decisão de que a distribuição dos recursos do Fundo Partidário, do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão deveria ser proporcional ao número de candidaturas negras apresentadas pelos partidos. Essa regra passou a valer a partir das eleições municipais de 2020.
Daniele Costa também expõe a necessidade de mecanismos que garantam maior fidedignidade às declarações de cor/raça feitas no registro eleitoral.
A Resolução TSE nº 23.729/2024 passou a permitir que partidos, federações e coligações criem comissões de heteroidentificação para analisar os elementos fenotípicos de candidatas e candidatos que se autodeclarem pretos ou pardos.
“Até 2026, o PT era o único partido a ter adotado esse procedimento. O fortalecimento dessa medida pode contribuir para dar maior consistência às políticas de ação afirmativa.”
Zero candidatas negras ao governo da Bahia
Em mais de 140 anos de República, o Brasil teve somente duas governadoras negras. Fátima Bezerra (PT) foi eleita governadora do Rio Grande do Norte em 2018 e reeleita em 2022. Já Benedita da Silva (PT), antes vice-governadora do Rio de Janeiro, assumiu o posto de governadora quando Anthony Garotinho renunciou para concorrer à presidência em 2002.

É na comparação entre a Assembleia Legislativa e o governo estadual que a especificidade baiana aparece com maior força. Em 2022, as mulheres negras representavam metade das candidaturas femininas aos governos estaduais naquele ano, com candidatas em 14 unidades federativas espalhadas pelas cinco regiões brasileiras. Em 2026, pouco mais de um terço das candidatas mulheres são negras, e elas concorrem em nove estados.
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A Bahia não estava entre eles em nenhum dos dois pleitos. A última candidatura de uma mulher negra ao Executivo baiano foi a de Célia Sacramento, pelo REDE, em 2018 – depois de assumir o cargo de vice-prefeira entre 2016 e 2018, enfrentando barreiras para sua atuação. O dado coloca em perspectiva o caminho percorrido pelas mulheres negras dentro da política. Na Assembleia Legislativa, existe presença nas candidaturas, porém, ela não se converte na mesma proporção em mandatos. No governo estadual, a dificuldade é maior antes mesmo da eleição, na própria ausência de mulheres negras entre as candidatas.
“Existe uma diferença importante entre a disputa proporcional e a disputa majoritária. Nas eleições proporcionais, os partidos lançam várias candidaturas, o que amplia a possibilidade de incluir mulheres negras e também pode funcionar como uma demonstração de diversidade. Já na disputa majoritária, existe uma concentração muito maior de poder em torno de um único nome, e essa porta de entrada se torna muito mais estreita. Então, quando a gente passa da candidatura proporcional para os cargos majoritários, existe um verdadeiro afunilamento”, explica a especialista Vanessa Vitorio.
Este ano, há três mulheres negras candidatas a vice-governadoras da Bahia: Neuzimar Camacam (DC) é vice do candidato José Estêvão (DC); Meire Lúcia (PSOL) é vice do candidato Ronaldo Mansur (PSOL); e Marília do MLB (UP) é vice do candidato Aroldo Felix (UP).
Vanessa, contudo, ressalta: “É importante observar a posição que essas candidaturas ocupam na própria disputa: são chapas com pouca competitividade e sem perspectivas reais de vitória ou de alcançar uma votação expressiva”.
Ela também afirma que não basta existir uma população negra numerosa, nem tampouco aumentar o número de candidaturas negras, para que isso resulte automaticamente em representação política: é necessário ir mais além e olhar para as condições políticas e institucionais que estão por trás da eleição.
“A presença negra pode ser numericamente muito expressiva na população e nas urnas e, ainda assim, existir uma distância grande entre essa presença e o acesso efetivo aos espaços de poder. E essa distância é justamente o que a comparação entre os estados ajuda a enxergar: o problema não é a falta de mulheres negras para ocupar esses espaços. O problema está nas condições institucionais e políticas que determinam quais dessas candidaturas conseguem atravessar o caminho entre estar na disputa e efetivamente chegar ao poder.”
‘A luta sempre vai valer a pena’
Candidata a deputada estadual na Bahia, a Professora Ilza (PCdoB) associa a disputa eleitoral à construção de uma participação política que ultrapassa o resultado das urnas. Para ela, a própria candidatura pode ampliar o debate público, criar alianças e fortalecer projetos para eleições futuras.
“Eu acho que a campanha ajuda a gente a fazer uma formação política da população para além da eleição. É óbvio que a gente vai para cima para ganhar. Mas, como não ganha em número de votos, a gente ganha em aliados pela luta democrática.”
A trajetória da candidata, que disputa eleições desde 2004 e conquistou seu primeiro mandato como vereadora em Cruz das Almas (BA) em 2016, confere outra dimensão à disputa por representação. A eleição define quem chega ao mandato, mas a campanha também pode ampliar a presença de determinadas pautas e preparar novos cenários. Ela resume essa perspectiva a partir da própria experiência eleitoral:
“Nunca saí de uma eleição com aquele aspecto de derrota, porque eu sei exatamente os desafios que há para uma mulher negra se eleger. Se você está no espaço de candidatura, de confiança, de que você pode representar a população, isso já é uma vitória. Agora, a gente vai agarrar a luta e deixar o caminho pavimentado para aquela que vem depois. Então, a luta sempre vai valer a pena.”
Se, nas candidaturas, mulheres negras ainda encontram barreiras para se transformar em mandatos, a discussão sobre representação também envolve o que está em disputa quando elas ocupam esses espaços. Para a especialista Laila Oliveira, a presença de mulheres negras na política faz parte de uma trajetória histórica de reivindicação por direitos e pode produzir efeitos concretos sobre as pautas que chegam ao Legislativo e ao Executivo.
“A questão está justamente no gargalo racial e de gênero. E desmontar essa estrutura de poder que vem alimentando esse racismo estrutural por anos é que é a grande dificuldade, mas alguns movimentos têm conseguido furar essa bolha, seja através do apoio ou do advocacy. Como a gente vê o Instituto Marielle Franco, Mulheres Negras Decidem, o Fórum Nacional Marielles, enfim, em diversas organizações que vêm trabalhando nesse sentido de fortalecer essas candidaturas de mulheres negras.”
Para a cientista política Daniele Costa, “ampliar a presença de mulheres negras na política também exige rever as regras do sistema eleitoral”. Ela aponta a possibilidade de uma reforma política estrutural, com mudanças no modelo de escolha dos representantes a partir de listas proporcionais fechadas. Nesse modelo, os partidos apresentam uma ordem prévia de candidatos, e as cadeiras conquistadas pela legenda são preenchidas segundo essa estruturação. A proposta retoma a questão central desta reportagem: aumentar o número de candidaturas é apenas um ponto de partida para ampliar o acesso aos mandatos.
Nota metodológica
Os dados eleitorais apresentados foram coletados diretamente no Tribunal Superior Eleitoral em agosto de 2026. Os dados de candidaturas de 2026 foram coletados após o prazo final de 16 de agosto. Para a classificação de mulheres negras, a análise considera a soma das categorias pardas e pretas, conforme o recorte adotado na base. Dados populacionais do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Sidra, tabelas 9605 e 9606. As taxas de sucesso são utilizadas apenas como indicadores descritivos da relação entre o número de candidaturas e o número de eleitos. No caso da análise de todos os cargos, eles reúnem disputas com características eleitorais distintas e, portanto, não representam probabilidade individual de eleição.
Esta reportagem é fruto do edital Mensageiras Confiáveis, que selecionou quatro jornalistas e comunicadoras para financiamento de reportagens sobre mulheres negras na política institucional. O edital é uma iniciativa do Movimento Mulheres Negras Decidem, e conta com parceria técnica da Gênero e Número, do Nós, Mulheres da Periferia e da Revista Afirmativa, com apoio do Instituto Ibirapitanga e da Fundação Rosa Luxemburgo.
Esse conteúdo faz parte da série de conteúdos produzidos por meio da “Coalizão Contra à Desinformação a Violência de Gênero e Raça nas Eleições de 2026”. A parceria envolve as organizações Artigo 19, Aláfia Lab, Gênero e Número, Instituto Lamparina, Instituto AzMina, Nem Presa Nem Morta, Transmídia e Quid, na intenção de evitar abordagens que reforçam discriminação e de construir contranarrativas visando uma cobertura mais responsável.