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Bandido bom é bandido morto? Mulheres propõem outra solução para a segurança pública

Medos e estratégias de sobrevivência das mulheres apontam caminhos para resolver os desafios do tema mais relevante das eleições de 2026

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Popularizada nas redes sociais e na boca de muitos políticos conservadores, a frase “bandido bom é bandido morto” traz uma resposta simplista para um problema complexo. Em destaque, a segurança pública continua sendo um desafio e tornou-se tema definidor votos nas eleições de 2026.

Realizada em parceria entre o Instituto UpDate e o Instituto Fogo Cruzado, a pesquisa“Mulheres, polícia e facções: o que está no centro do debate sobre segurança pública?” aponta que 92% dos mais de 2 mil entrevistados em todo Brasil percebem que as mulheres estão mais expostas a violência. Na experiência específica vivida por elas, acaba se encontrando a possibilidade de pensar novas soluções e outras dimensões da segurança pública para além do uso da força. 

“Mulheres são expostas a violência a todo momento, não só na rua, mas também em casa”, explica Maria Isabel Couto, diretora de Dados e Transparência do Instituto Fogo Cruzado. 

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado, em 2015. Segundo o Forúm Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram assassinadas por razões de gênero, sendo 62,6% delas negras. Em 67% dos feminicídios foram cometidos na residência da própria vítima. 

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Além disso, o medo feminino também é percebido através da segurança das pessoas que as cercam. “A preocupação com outras pessoas, faz com que elas sintam a violência de uma maneira mais complexa”, explica a pesquisadora.

De acordo com Maria Isabel, o que mais aflige os homens é a violência patrimonial, ter um carro ou celular roubado, por exemplo. “Além disso, eles se envolvem em muitas brigas de rua, o que está ligado a essa cultura antiga do Brasil de uma defesa da honra masculina”, aponta.

Já quando se trata das mulheres, embora a violência patrimonial também seja um problema, a violência doméstica, o abuso sexual, assédio e abuso físico ou psicológico estão entre os medos manifestados.

Estratégias de sobrevivência

Mesmo com um robusto arcabouço de leis voltados para proteção das mulheres e punição de agressores, uma cultura misógina ainda as coloca em situação de extrema vulnerabilidade. Não à toa, elas vivem em um permanente estado de hipervigilância. A preocupação determina decisões como caminhos a serem evitados nos trajetos públicos, horários específicos para circular, tipos de vestimenta a serem adotados e até a escolha de locais para trabalhar. 

As entrevistas realizadas para a pesquisa revelam que a insegurança acaba por orientar as decisões da vida das mulheres, o que pode levar a limitações econômicas e de ascensão social. Uma participante de Brasília relatou ter recusado uma vaga em concurso público porque o posto era noturno e em outra cidade.

No deslocamento, nenhum transporte público parece seguro. Seja nos vagões de trem ou no ônibus lotados, o assédio é um medo recorrente e muitas vezes difícil de identificar ou denunciar. Nos aplicativos de transporte, a sensação de segurança só é maior quando a motorista é outra mulher. “A gente chega e respira”,  relatou uma participante. 

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O estudo analisa que mulheres carregam um mapa mental da cidade, feito de rotas mal iluminadas, vias vazias e atalhos, que determinam sua circulação pelo espaço urbano. “Essa cartografia mental organiza, de forma silenciosa e exaustiva, a vida cotidiana de milhões de brasileiras – de todas as faixas de renda e origem, mas principalmente das mulheres negras das periferias”, conforme descrito no relatório. 

Diante da falta de soluções eficientes para problemas diários, acabam surgindo estratégias de autoproteção. Compartilhar a localização em tempo real com amigas e familiares, organizar grupos de carona exclusivamente femininos — como o “Vamos Juntas”, da Universidade de Brasília —, buscar aulas de artes marciais ou consumir conteúdos de autodefesa nas redes sociais tornam-se formas de reduzir  a sensação de vulnerabilidade são algumas das medidas relatadas. A maioria das mulheres rejeita a ideia de portar uma arma de fogo, mas algumas consideram recorrer a instrumentos como spray de pimenta ou taser. 

As estratégias de sobrevivência que as mulheres desenvolvem poderiam estimular a criação de políticas públicas preventivas e com impacto em outras áreas, como saúde, infraestrutura, educação e assistência social, caso suas percepções tivessem mais peso nos debates sobre segurança pública. De acordo com Maria Isabel, melhorar a eficiência de circulação e de uso dos espaços urbanos tem um bom desempenho entre mulheres e jovens. As medidas incluem desde melhora na iluminação pública até a ocupação dos espaços com estímulo ao desenvolvimento econômico. 

“São medidas que têm muito impacto na sensação de segurança. Não se trata de policiamento. Para as mulheres, você não vai resolver a segurança pública só com repressão e punitivismo. É preciso uma estrutura de cuidado dos governos”, ressalta a pesquisadora. 

Soluções além da punição

Os dados indicam que o caminho para reenquadrar o debate público sobre segurança pode estar no diálogo com mulheres e jovens (16 a 24 anos). Mesmo sendo os grupos mais afetados pela insegurança, são eles os que demonstram os maiores sinais de abertura para um repertório além da punição: 52% das mulheres e 62% dos jovens acreditam no caminho da prevenção. 

A opção por outros caminhos para resolver os problemas, no entanto, não é dada logo de cara pelos grupos entrevistados. Elas aparecem nas respostas qualitativas, em que é possível identificar nuances sobre o tema. Maria Isabel afirma que a demanda dos brasileiros por punitivismo e repressão está associada a uma questão de repertório. “Estamos a décadas dizendo que o que resolve o crime é polícia e encarceramento. Mas, isso não significa que as pessoas não acreditem em outras soluções”.

Na percepção de mulheres e jovens, o aperfeiçoamento do sistema de segurança já existente combinado a políticas públicas preventivas, se apresenta como alternativa às operações policiais violentas pouco eficazes a médio e longo prazo. “Nos grupos focais, percebemos que essa mudança de chave das operações da Polícia Federal, de combate ao crime organizado por um viés financeiro, é algo que aparece muito positivamente. Porque atende a esse anseio punitivista, mas faz isso de forma mais qualificada, colocando menos a população na linha de tiro, principalmente a população pobre”, destacou Maria Isabel.

Vozes legítimas

Embora suas experiências carreguem alternativas valiosas para pensar a segurança pública, a presença feminina no debate sobre o tema encontra resistência, principalmente masculina. Quando se pergunta se “as mulheres têm melhores ideias e soluções para a segurança pública”,  37% das mulheres ouvidas concordam plenamente; entre os homens, quase ninguém (0,3%). E 28% dos homens discordam por completo, contra menos de 1% das mulheres.

“O que percebemos é que as mulheres estão demandando mais voz no campo da segurança pública. Por um lado, elas começam a aparecer como referência para ideias e soluções, mas ao mesmo tempo, quando destrinchamos sobre quem está reivindicando esse espaço, vemos que são as próprias mulheres. Os homens invalidam esse lugar. Nos parece mesmo que é uma disputa por protagonismo, sejam elas mulheres progressistas ou conservadoras. Mas, os programas de governo dos candidatos parecem não estar dando conta disso”, explica a pesquisadora Maria Isabel.

A principal disputa é sobre o que se entende sobre segurança pública: uma política centrada quase exclusivamente na repressão ou uma estratégia capaz de combinar prevenção, inteligência, educação, planejamento urbano e perspectiva de gênero.

A ex-ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, avalia que o problema se reflete nas propostas (ou falta delas) apresentadas pelos candidatos à presidência. Alguns, como Renan Santos (Missão) , sequer cita o problema no plano de governo. Enquanto o candidato Augusto Cury (Avante), virou piada na internet ao propor o uso de drones como forma de combater os feminicídios.

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“A violência contra mulher é complexa e precisa de uma política de Estado. Não precisa só de drone ou que na época da eleição se prometa um monte de coisas”, comenta Cida, que também é consultora em políticas públicas de gênero e violência contra a mulher. “Uma política pública de Estado contém vários aspectos, como prevenção, por meio da educação; meios de comunicação com a população; ampliação dos serviços especializados e combate à impunidade. Precisamos avançar nesse sentido. Não adianta chegar com ideias mirabolantes. O problema está no comportamento e deve envolver diferentes áreas. É uma questão de segurança pública, mas não é apenas uma questão de polícia”. 

Essa reportagem faz parte da série de conteúdos produzidos por meio da “Coalizão Contra a Desinformação, a Violência de Gênero e a Violência Racial nas Eleições de 2026”. A parceria envolve as organizações Artigo 19, Aláfia Lab, Gênero e Número, Instituto Lamparina, Instituto AzMina, Nem Presa Nem Morta, Transmídia e Quid, com o objetivo de evitar abordagens que reforcem a discriminação e de construir contranarrativas que contribuam para uma cobertura mais responsável.

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