- Movimentos de mulheres se articulam com setores da ultradireita para promover restrições aos direitos de pessoas trans, usando o discurso de proteção a mulheres e crianças;
- A associação Matria surge como um ator central dessa articulação, atuando com advocacy, litigância e alianças políticas para influenciar decisões institucionais contrárias a pessoas trans;
- Especialistas apontam que esses grupos fazem parte da ofensiva antigênero global, que reúne setores religiosos, políticos e organizações que difundem pânico moral sobre pessoas trans.
Em diferentes partes do mundo, alguns movimentos de mulheres cis têm somado esforços com grupos da ultradireita para impulsionar políticas contra pessoas trans. Sob o pretexto de proteger mulheres e crianças, essas entidades se mobilizam para excluir travestis e transexuais de espaços femininos em banheiros, presídios e competições esportivas, e se opor a ações afirmativas e serviços de saúde especializados para essa população. No Brasil, esse movimento tem aumentado e se institucionalizado nos últimos anos.
Uma organização emergente nesse campo é a Matria – Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil. Registrada como organização da sociedade civil em outubro de 2023, a entidade tem cerca de 300 associadas e 50 mil seguidores nas redes sociais e trabalha principalmente por meio de advocacy junto ao Legislativo e órgãos de controle, além de litigância predatória (uso repetitivo de ações) no Judiciário.

Esses movimentos sustentam que as diferenças entre homens e mulheres são determinadas pelo sexo biológico, em oposição à identidade de gênero, considerada uma construção artificial. Os posicionamentos transfóbicos encontram ressonância na cruzada de setores cristãos conservadores e da extrema direita contra o que eles chamam de “ideologia de gênero”.
E a ressonância vai além do discurso, em alianças políticas e ações concretas. Abaixo, explicamos como esse movimento surgiu e tem se organizado no Brasil, suas ações, pontos de convergência com a extrema-direita e também como seu discurso se organiza para cooptar seguidoras.
Matria profissionaliza atuação antitrans
Organizações transfóbicas como Garra Feminista, Raízes Feministas e WDI Brasil (Women’s Declaration International) já existiam no país, porém tinham baixa capacidade de incidência junto às instituições. O quadro mudou drasticamente após o surgimento da Matria, como explica Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).
“A Matria veio para profissionalizar uma atuação antitrans, no sentido oposto do que a Antra faz em termos de mobilizar uma rede de instituições, entidades e perfis nas redes sociais para defender uma agenda única”, afirma Bruna.
A organização atua na disseminação de mensagens transfóbicas em redes sociais e eventos, mas seu profissionalismo se dá principalmente no trabalho de incidência nas instituições do poder, como o Supremo Tribunal Federal ou o Ministério das Mulheres, para tentar reverter direitos já conquistados pela população trans ou barrar novos direitos.
A organização também realiza ações como a promoção da vinda da relatora especial da ONU sobre violência contra a mulher, Reem Alsalem, para uma agenda antitrans em Brasília na última semana.
A Matria afirma que é financiada por recursos próprios e doações de pessoas físicas, e sustentada pelo trabalho voluntário de suas integrantes, que contribuem com mensalidade de R$50. Com sede em Joinville (SC), a associação aceita apenas mulheres adultas do sexo de nascimento feminino — a entidade evita mencionar o termo mulheres cis.
Sem se definir como feminista (apesar de muitas de suas integrantes assim se definirem), a Matria também não defende explicitamente bandeiras como aborto legal, combate à violência doméstica e promoção da igualdade de gênero. Além da pauta trans, a organização aborda temas como alienação parental e exploração sexual de meninas. Ao priorizar a agenda antitrans, a entidade busca a construção de pontes com setores da ultradireita.
Questionada pela reportagem, a Matria negou ser uma organização antitrans e afirmou que “não atua para ‘restringir direitos’, mas para assegurar direitos das mulheres com base no sexo, conforme previsto em marcos jurídicos como a CEDAW.”
“Nosso compromisso é com a escuta e a proteção de direitos de mulheres, crianças e adolescentes nas questões relativas às políticas de gênero e colisões com seus direitos”, afirma por e-mail Celina Lazzari. A resposta da diretora da Matria pode ser lida na íntegra aqui.
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A teoria por trás: feminismos essencialistas, TERFs e radfems
As correntes supostamente feministas que se opõem à inclusão de pessoas trans costumam se definir como radicais ou críticas ao gênero. De forma pejorativa, são chamadas de radfems ou TERFs (sigla em inglês para feministas radicais transexcludentes).
“É curioso pensar que, dentro do movimento feminista, a radicalização de certos princípios de explicação sobre a sociedade tenha gerado compreensões transfóbicas”, afirma Beatriz Bagagli Pagliarini, doutora em linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O feminismo radical teria suas origens nos anos 70 em meio a organizações de mulheres lésbicas, movimentos sindicais e grupos feministas sionistas em países anglófonos, conta Greta Lafleur, professora de estudos americanos na Universidade Yale. Sua agenda é contra prostituição, pornografia, tráfico de pessoas e violência contra a mulher, além da defesa da definição de mulher a partir do sexo. Mas essa postura não é unânime.
Leona Lopes dos Santos, psicanalista e doutoranda em filosofia pela Universidade Federal do ABC (AFABC), ressalta a existência de organizações feministas radicais que entendem que mulheres trans e travestis sofrem as mesmas violências que as mulheres cis.
Para evitar imprecisões e variações semânticas do termo feminismo radical, especialistas adotam outras nomenclaturas. O relatório de pesquisa Fronteiras Borradas: movimentos feministas e de mulheres e política antigênero no Brasil fala em feminismos essencialistas ou transfóbicos, apontando para a confluência entre essas correntes e as ofensivas antigênero mobilizadas pela ultradireita.
Publicado em novembro de 2025, o estudo foi produzido pelo Observatório de Sexualidade e Política (SPW), Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT+ da Universidade Federal de Minas Gerais (NUH/UFMG) e a Antra.
Para Greta há precedentes que ajudam a entender por que alguns movimentos defendem a transfobia como plataforma feminista. Ela cita o histórico de organizações feministas do norte dos Estados Unidos que abandonaram feministas negras para conquistar o apoio de mulheres brancas no sul do país, contribuindo para a manutenção das hierarquias raciais. “Infelizmente, o feminismo comporta muita opressão”, afirma Greta.
AzMina, acompanhando reflexões de grandes nomes do pensamento feminista, acredita que esses grupos não deveriam sequer ser chamados de feministas. Na obra Quem tem medo do gênero?, Judith Butler afirma que esses grupos se envolvem em formas de discriminação na contramão do compromisso feminista com a igualdade.
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Vínculos com a ultradireita global
Organizações de mulheres que consideram somente o sexo biológico são apenas uma parte do movimento mundial antigênero, que é organizado e também inclui cristãos conservadores e representantes da extrema direita. Apesar desses setores discordarem sobre direitos reprodutivos e liberdade sexual, eles se aliam contra a pornografia, a prostituição e os direitos trans.
O movimento antigênero foi lançado pelo Vaticano em resposta à perspectiva sobre gênero adotada na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo em 1994, e reafirmada no ano seguinte durante a Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU, em Pequim. Um marco da ofensiva do catolicismo ultraconservador foi a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe em Aparecida (SP), em 2007, que instrumentalizou a “ideologia de gênero” como arma retórica contra o casamento igualitário, o aborto e, mais tarde, as pessoas trans.
Em janeiro de 2025, a entidade americana WoLF (sigla em inglês para Frente de Liberação das Mulheres), parceira da Matria nos EUA, celebrou o decreto do presidente Donald Trump para reconhecer os sexos masculino e feminino como característica biológica imutável. Uma ação do grupo For Women Scotland, com apoio da escritora J. K. Rowling (autora da série Harry Potter), levou a Suprema Corte britânica a declarar, em abril de 2025, que mulheres trans não são mulheres.
Também há relações da Matria com a Aliança LGB, que propõe a separação do movimento de lésbicas, gays e bissexuais em relação às pessoas trans e intersexo. A Matria apoia o mandato de Reem Alsalem — a relatora especial da ONU sobre violência contra mulheres. Conhecida por posicionamentos antigênero, Reem esteve no Brasil na primeira semana de março em visita acadêmica a convite da Matria.
A Matria colabora com parlamentares cristãos e bolsonaristas pela aprovação de projetos de lei antitrans. A associação é parceira de litigância da Alliance Defending Freedom (ADF), grupo jurídico cristão que levou a Suprema Corte dos Estados Unidos a reverter o direito ao aborto como garantia constitucional em 2022.
A Matria e a ADF são representadas por sócias do escritório de advocacia Strozzi & Hoffmann como amicus curiae na ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) 7806, em que defendem a proibição de procedimentos médicos para crianças e adolescentes trans. A Matria também é representada por um advogado ligado à ADF como amicus curiae em uma ação na Suprema Corte dos Estados Unidos que busca restringir o acesso de jovens a serviços de saúde transespecíficos.
Os vínculos da associação com a ultradireita foram revelados em 2025 no Dossiê Matria: O lobby antitrans disfarçado de defesa das mulheres e crianças, organizado por Antra, SPW, NUH/UFMG e Coletivo Chama, com apoio de organizações como ONG Criola, Geledés – Instituto da Mulher Negra e Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), além de núcleos acadêmicos.
Dossiê expõe articulações da Matria com a extrema direita: “A Matria tem se esforçado em trazer para o Brasil representantes do movimento global antigênero, inclusive vozes que têm vínculos reconhecidos com a extrema direita. Em 1º de fevereiro de 2025, foi realizada no Rio de Janeiro a primeira edição brasileira do evento Let Women Speak, que teve como principal convidada a ativista britânica Kellie-Jay Keen, idealizadora da iniciativa. Também conhecida como Posie Parker, ela é líder do Partido das Mulheres do Reino Unido, que atua para erradicar o que chama de “ideologia de gênero”. Em 18 de março de 2023, Keen participou de uma edição do Let Women Speak em Melbourne, em viagem paga pelo grupo de lobby conservador CPAC Austrália — que é a versão australiana da Conservative Political Action Conference dos EUA. O evento atraiu integrantes da organização de extrema direita Rede Nacional Socialista que fizeram a saudação nazista na escadaria do Parlamento estadual. Autoridades australianas condenaram a manifestação antitrans de Keen e o protesto neonazista associado a ela.”
Conheça as armadilhas discursivas que elas usam
Dado esse cenário, não é de se estranhar que boa parte das argumentações usadas por essas organizações esteja completamente em linha com discursos ultraconservadores. Fazem, inclusive, uso da mesma lógica de gerar medo de supostas violências como armadilhas para atrair pessoas.
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1. Exclusão dos banheiros para prevenir violência: Movimentos transfóbicos defendem a segregação de banheiros com base no sexo de nascimento sob pretexto de impedir que agressores disfarçados de mulheres acessem espaços femininos. Esse argumento parece convincente para algumas pessoas, especialmente quem já sofreu violência sexual, mas não há evidências de que a exclusão de travestis e transexuais garanta a segurança de mulheres e crianças.
Mas há registros de agressões contra pessoas trans e mulheres cis fora dos padrões de feminilidade, como lésbicas desfem (do termo desfeminilização), que com certa frequência são expulsas violentamente de espaços femininos. “Trata-se de uma perseguição contínua que deslegitima, patologiza e violenta nossos corpos, com o objetivo explícito de nos silenciar ou nos extinguir”, afirmaram, em nota, Enzo Gomes e Erick Amurúz, diretores do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat).
2. Injustiça no esporte: Campanhas contra atletas trans falam em assegurar competições justas no esporte feminino, mas estudos verificam que não há diferenças significativas de rendimento. A perseguição se estende a mulheres cis e pessoas intersexo, como a boxeadora argelina Imane Khelif e a corredora sul-africana Caster Semenya. E pessoas trans são desestimuladas em categorias de base e no esporte amador.
3. Proteção das crianças: Discursos sobre proteção da infância apontam para o suposto risco de doutrinação e aliciamento como se ser trans fosse algo contagioso, citando casos de arrependimento ou destransição. Em vez do acolhimento de crianças e adolescentes, propõe-se que pais, educadores, médicos e psicólogos pratiquem repressão e abandono.
Segundo a antropóloga e transfeminista Hailey Kaas, pânicos morais usam o medo em relação às pessoas trans como estratégia política. Ela integra o conselho científico da Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura (Abeth). “A resposta é a educação para o gênero e a diversidade, para a liberdade de ser e de poder viver como se quer viver, sem prejudicar ninguém.”
*Transparência: a repórter colabora com algumas das organizações citadas na reportagem, como Antra, SPW e NUH/UFMG.
** Edição: Jane Fernandes, Joana Suarez e Helena Bertho /// Artes: Giulia Santos
***Texto revisado com uso de IA
Atualizações
- 17 de março de 2026 16:00
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Fizemos uma alteração neste trecho anterior: O movimento antigênero foi lançado pelo Vaticano em resposta à perspectiva sobre gênero adotada na 4ª Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU, realizada em Pequim em 1995. Substituído por: O movimento antigênero foi lançado pelo Vaticano em resposta à perspectiva sobre gênero adotada na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo em 1994, e reafirmada no ano seguinte durante a Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU, em Pequim.