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12 de julho de 2016

“Tive uma história triste, mas encontrei a felicidade na adoção”

Não culpo minha mãe biológica por nada, respeito sua dor. Sou apenas grata à família que me adotou e deu tanto amor.

O Divã de hoje é da Marianna Muradas, que vai participar de um hangout ao vivo sobre adoção na quarta, dia 13, às 19h. Ela vai falar sobre adoção com a advogada presidente do instituto brasileiro de direito da família do DF, Liliana Marquez, e com Cris Bartis, mãe adotiva e uma das realizadoras do podcast Mamilos. Tem interesse em adotar mas muitas dúvidas? Elas respondem tudo pra você 🙂

Foto de Kathy.
Foto de Kathy.

Eu sempre soube que era adotada, mas pouco sabia sobre a história da minha mãe biológica. Foi ao morar fora do Brasil e ter de lidar com o desconforto que surgia de situações como uma simples visita ao médico, que comecei a ter vontade de entender minha história.

No consultório, o médico faz as perguntas do formulário: idade, fumante, doenças na família? Respondo que não sei, ele insiste: “Algum caso de hipertensão, diabetes, câncer”? Respondo mais uma vez “não sei, não conheço meus pais biológicos”. O pobre do médico fica muito sem graça e me pede desculpas. Esse episódio ocorreu várias vezes na minha vida, principalmente fora do país, e em todas as vezes, eu me questionei por que eles se desculpavam depois da minha resposta e o clima na sala ficava tão desconfortável.

O fato de eu ser adotada nunca foi um segredo na minha família, mas eu sempre fui um esqueleto no armário da minha família biológica.

No meu dia a dia, isso sempre era tratado com naturalidade, pois se eu não conto que sou adotada, ninguém percebe. Sou branca de olhos claros, assim como os meus irmãos. Nunca senti que estava num lugar ao qual eu não pertencia. Minha mãe me ensinou a rezar pela minha mãe biológica e ser grata a ela todos os dias.

Neste contexto, eu nunca tinha entrado em contato com o trauma da rejeição até que fui morar fora do país na adolescência e saí da minha zona extremamente amorosa de conforto.

Dentro de mim, a rejeição existe na forma mais genuína e a gratidão do acolhimento também e esses sentimentos se confundem e se mesclam o tempo todo. Acredito que a convivência deixa as pessoas parecidas e os laços amorosos de família são muito mais importantes e fortes que os sanguíneos. Mas, no fundo, o questionamento sobre o que aconteceu no dia da separação, o que levou para que o abandono fosse uma solução e afinal de onde eu vim ficam sempre latente na sua mente.

Eu soube as repostas a esses questionamentos quando estava na adolescência e senti a necessidade de contar para a minha mãe biológica que eu estava bem, era feliz muito amada e extremamente grata a ela. Sentia necessidade de que ela soubesse que eu não a culpava por nada. Até então eu não sabia quase nada da sua história e agora todos esses sentimentos me fazem sentido.

Minha mãe biológica foi abusada quando ela tinha 13 anos pelo motorista de uma amiga. O cara, na época com 22 anos, escapou do crime talvez alegando que não havia sido um abuso ou por conta da vergonha que os pais dela e ela sentiram ter sido maior que o senso de justiça.

Para mim, ela foi abusada várias vezes por ter mantido isso em segredo por toda a sua vida. Ela me deu à luz no interior de São Paulo, então os pais a levaram de volta pra casa sem mim e assunto encerrado. Fui adotada na maternidade três dias depois do meu nascimento.

Nos anos 80, adotar uma criança no Brasil era muito mais simples, você só precisava ter um contato de alguém de uma Santa Casa e pronto. Na minha certidão de nascimento diz que eu nasci em casa. Não tenho nenhum papel de uma adoção legal e imagino que muitas pessoas adotadas nessa época também não.

Mas afinal o que isso importa? Eu tive uma sorte enorme por ter sido criada num lar amoroso com todo o suporte emocional, moral e financeiro. Mas depois que soube a história da minha mãe biológica, passei a viver com a angústia de pensar se ela havia reconstruído a vida dela, se era feliz ou se o trauma tinha sido superado.

São respostas que eu nunca terei. Mas com todo esse processo de encarar minhas origens, eu aprendi muito que a comunicação clara e sincera é a melhor forma de se superar um trauma. O fato do tema da adoção ser tratado com um tabu muitas vezes só complica e cria grilos na cabeça. Saber de onde você veio, sua genética, história e origens é um tanto libertador.

As pessoas só não compreendem isso pelo fato de ser tão comum a todos.

Para todas as pessoas que são adotadas como eu e vivem nesse conflito de sentimentos da dor da rejeição e do amor do acolhimento: saibam que vocês não estão sozinhas e que conviver com esses sentimentos será sempre um desafio nas nossas vidas. Muitas vezes o dia do seu aniversário não será um dia muito feliz e você nem entenderá o porquê.

Hoje eu não quero mais ter a preocupação sobre como meus avós biológicos e minha mãe lidam com tudo, fui gerada por ela e sou grata por isso. Quero canalizar essa energia de gratidão para todas as pessoas ao meu redor. Além disso, ser o maior segredo na vida de alguém não é um papel que eu desejo exercer.

Para as mães que largaram filhos para a adoção: não se sintam culpadas, pois a falta de apoio e empatia só fazem que esses problemas se perpetuem. Busquem ajuda, conversem, superem os traumas de vocês, porque nós estaremos sempre de uma forma conectados e também batalhando para superar os nossos. E gostaria de ressaltar que com toda essa vivência continuo sendo a favor do aborto e do empoderamento da mulher para tomar as decisões que sejam melhores para si.

Saiba mais: Hangout ao vivo sobre adoção:

Com Marianna Muradas,  Liliana Marquez (presidente do instituto brasileiro de direito da família do DF) e Cris Bartis (mãe adotiva e uma das realizadoras do podcast Mamilos)

Quarta-feira, 13 de julho, às 19h

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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