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17 de novembro de 2021

“Se eu era criança, como estava grávida?”

“Aprendi desde cedo que o meu corpo não seria só meu.”

Antes de qualquer fala, preciso esclarecer que sou uma mulher branca e cis gênero, e, por mais difícil, traumático e solitário que tenha sido realizar um aborto clandestino, estive cercada de inúmeros privilégios. 

Eu tinha 14 anos quando perdi a virgindade. Achava que tinha vivido uma história super romântica e memorável, mas com a maturidade e experiência que tenho agora, aos 26 anos, percebo que estava em um relacionamento abusivo e violento.

Marquei um ultrassom porque a minha ginecologista solicitou e eu começaria a tomar anticoncepcional. Fui fazer o exame sozinha. Assim que deitei o médico pegou o aparelho, colocou a camisinha e me disse para ficar tranquila pois seria rápido.

Quando o ultrassom começou a sala foi tomada por um barulho de batimento cardíaco. “De quem?”, pensei. Tinha impressão que era meu, já que o aparelho estava dentro de mim. Não. Não era. Eu ouvi a seguinte frase do médico: “Você está grávida! De seis semanas.” 

Nesse momento, além da sensação de que o chão abriu e eu caí em um buraco, comecei a me engasgar e querer chorar, chorar como uma criança. Acho que fui criança só até meus 9 anos de idade. Mas ali, depois de escutar aquelas palavras do médico,  com certeza me senti criança. E se eu era criança, como estava grávida?

Só conseguia pensar na minha mãe e no fato de que ela iria morrer ou me matar com a notícia, ou talvez os dois. Me lembro de ver que o número de batimentos que aparecia na tela era 102, e de um único comentário vindo do médico: “não conte para sua mãe ainda porque os batimentos cardíacos não estão muito bons, provavelmente não vai vingar”.

Saí do consultório pensando que eu precisava falar urgente com meu antigo namorado. Ele decidiu me encontrar na porta da escola pra gente conversar e ele ver o exame. 

Na época, a minha família vivia um momento muito delicado financeiramente. Eu quase não dormia pensando no que ia fazer (com essa gravidez). Encontrei algumas vezes com o meu ex namorado em meio a esse tempo. Em uma das ocasiões, ele levou a nova namorada, pra dizer pra mim que, mesmo eu estando grávida dele, ele iria ficar com ela. Dentro de mim ecoava o pensamento de que eu estava extremamente FERRADA.

Leia mais: Como é feito um aborto seguro?

Também resolvi contar para Renata, minha professora de geografia. Me emociono ao lembrar do abraço acolhedor dela. Minha barriga já estava aparecendo e ficava cada dia mais difícil esconder. Eu precisava decidir o que fazer. Eu só não sabia ainda que a decisão não seria tomada por mim. 

No dia que decidi contar tudo para minha mãe, ela estava no quarto sentada na cama, com várias contas na sua frente, escolhendo o que ia dar pra pagar e o que ficaria pra depois. Eu fiquei em pé na frente dela e falei: mãe a gente precisa conversar, eu estou grávida.

Ela ficou decepcionada, chocada e com muita, muita raiva. Já se passaram 12 anos daquele dia e, mesmo assim, eu ainda me lembro perfeitamente da expressão no rosto da minha mãe. A primeira reação dela foi querer me bater, jogar coisas em mim, gritar e me xingar de coisas inimagináveis. A segunda reação foi mandar o cara ir embora. Meu ex namorado tinha ido comigo e ela não queria ver a cara dele – o que hoje eu entendo bem! 

O meu padrastro deu a opinião dele: “o ideal era fazer o aborto logo”. Minha mãe ligou para uma amiga que vendia o remédio, dizendo que custava R$ 245, e que eu e ele tínhamos que arrumar o dinheiro até o dia seguinte, já que não dava pra esperar mais. A essa altura eu estava grávida de 8 semanas e pensei: “Como arrumar tanto dinheiro de um dia pro outro?”

A cobrança da minha mãe em arrumar o dinheiro começou a ficar cada vez mais constante, quase de 20 em 20 minutos. Não me lembro exatamente como, mas meu ex-namorado chegou no outro dia com o dinheiro, deixou na portaria e foi embora.

Na hora que o remédio já estava comigo, eu chorei e disse que estava com muita dó de fazer isso, que talvez seria uma boa tentar uma outra forma. Nessa hora a minha mãe esbravejou, riu, chorou e ficou incrédula, dizendo que eu deveria ter pena dela. 

Segui as instruções da amiga da minha mãe que vendeu e deitei. Acabei pegando no sono. Eu me lembro de acordar sentindo uma dor absurda, uma dor brutal, vinha de dentro da minha coluna e meu corpo todo sentia. Dava arrepios, a sensação era de que eu iria morrer. Nessa hora eu já nem pensava no bebê, eu queria que aquilo acabasse logo. 

Quando eu levantei, senti sangue escorrendo pelas minhas pernas, em uma quantidade absurda. Andei até o banheiro, fechei a porta, entrei no box e liguei o chuveiro. Quando eu fiquei pelada embaixo da água, bolhas de sangue imensas saíam de mim, faziam barulho quando caíam no chão. 

Me sequei, coloquei três absorventes noturnos descartáveis e me vesti. Não consigo lembrar de nada depois disso. Só sei que na minha família isso não foi falado mais. Talvez uma ou duas vezes em 12 anos.

Eu e a minha mãe não nos perdoamos ainda, não conversamos sobre isso, e provavelmente a versão dela é bem diferente. Depois, eu evitei pensar nisso durante vários anos. 

Uma vez, numa aula de biologia do cursinho pré-vestibular, o professor contava que várias empresas de tratamento de água tinham problemas porque fetos grudavam nos filtros – fetos que tinham sido jogados pelo ralo. Levantei e fui embora.

Outra vez, durante uma aula de direito penal na faculdade, quando a professora falava do crime de aborto, pensei que eu podia ter sido presa. Mas ela fez questão de pontuar que uma mulher com menos de 14 anos não poderia ser culpada, e sim os responsáveis por ela. 

Eu já estava com 22 anos e tinha começado a ler um pouco sobre feminismo, fiquei me questionando por que só a mulher seria presa e o homem não? Dessa vez não me levantei, fiquei até o final da aula.

Para quem está passando pela mesma situação que vivi aos 14 anos, primeiro quero dizer que, todos os dias, mulheres passam por isso, se veem sozinhas e se sentem desamparadas, e que isso é um resquício da sociedade patriarcal e machista em que vivemos.

Esse texto é pra trazer um pouco de acolhimento e abraço, essa situação passa assim como vários momentos ruins passam.

Hoje, tenho certeza que o aborto foi a melhor decisão, o problema é que não foi uma decisão minha. Foi uma decisão dos outros sobre o meu corpo. Aprendi desde cedo que o meu corpo não seria só meu.

Este depoimento foi enviado por email.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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