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25 de janeiro de 2019

Que tal fazer um turismo feminista no aniversário de São Paulo?

Roteiro propõe conhecer lugares marcados por mulheres que corajosamente construíram e ainda constroem a cidade que comemora 465 anos

“Essa rua tem o nome de um rio que a cidade sufocou”,  canta Luiza Lian na canção larinhas, trilha sonora do meu calorento verão de São Paulo.

Na primeira Vulva a Arte do ano comemoramos, hoje, os 465 anos da cidade que cobriu de concreto os rios, mas insiste em renascer das cinzas.

Para isso, proponho que façamos virtualmente (e quem sabe nos desafiamos na prática?) uma caminhada de aproximadamente 2 horas e 49 minutos, mas que poderia durar um dia inteiro, para conhecer áreas e construções marcadas por mulheres que corajosamente construíram nossa história.

Nossa caminhada tem início nas margens plácidas do Ipiranga? Não, do Rio Tietê. Tá aqui o mapa para não se perder:

Foi nessas águas (na época limpas) que uma das principais nadadoras brasileiras, a Maria Lenk (1915-2007), treinou suas primeiras braçadas. Dali partiria para piscinas de diversas Olimpíadas, trazendo o primeiro recorde mundial de natação para o nosso país.

Ali perto, às margens do Rio Tietê, está o clube da Portuguesa, batizado de Estádio do Canindé. Isso porque no local já existiu a Favela do Canindé, moradia e cenário da autobiografia de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) no livro “Quarto de Despejo”. A obra tornou Carolina uma escritora publicada em mais de 14 países, divulgando em forma de diário e denúncia a miséria e a fome vividas por ela, seus três filhos e sua vizinhança na década de 1960.

Virando para o sul, rumamos ao centro da cidade pela rua Cantareira. Passando pelo Largo São Francisco podemos conhecer a Faculdade de Direito da USP, onde Adalzira Bittencourt (1904-1976) se formou em 1927. A advogada e escritora foi uma das primeiras mulheres a escrever sobre importância das mulheres na literatura brasileira e na luta contra uma sociedade machista. Em 1929 lançou sua principal obra literária “Sua excelência: A Presidente da República do Ano 2500”.

Ainda no centro da cidade, seguimos para o oeste avistando o Teatro Municipal, construído em 1903. Com dezenove anos de existência o local abrigou a Semana de Arte Moderna com exposições, concertos, palestras e saraus de artistas modernistas, dentre os quais estava Anita Malfatti (1889-1964). A pintora abordava em suas obras temas sociais e cotidianos do país e defendia a criação de uma estética brasileira. Além disso, foi quem apresentou logo depois Tarsila do Amaral aos modernistas formando o grupo dos cinco.

Atravessando a Praça da República, chegamos ao Geledés Instituto da Mulher Negra, fundado há 30 anos por Sueli Carneiro (1950). A filósofa, escritora e ativista antirracista participou em 1983 do Conselho Estadual da Condição Feminina. Isso só porque, ao notar a ausência de mulheres negras no grupo de conselheiras, lutou para que abrissem novas vagas. Sueli também criou o único programa de orientação de saúde para mulheres negras do Brasil, abrangendo sexualidade, contracepção, saúde física e mental.

Rumamos à rua da Consolação subindo a Dona Veridiana, rua que não tem este nome à toa. Nela está o palacete construído e habitado por Veridiana da Silva Prado (1825-1910), uma mulher poderosa que marcou profundamente a vida política e cultural de São Paulo no fim do Império. Veridiana chocou a sociedade com seu divórcio na década de 1880 e com as festas que promovia recebendo intelectuais abolicionistas.

Atravessamos a Consolação chegando à rua Augusta, que dá nome à grande obra literária de Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989). A escritora, além de ter contribuído para os jornais Estado de São Paulo e Folha da Manhã, foi a primeira a integrar a Academia Paulista de Letras e recebeu dois prêmios Jabuti.

Vamos ao penúltimo ponto: subindo a rua Augusta e virando à esquerda na Avenida Paulista está uma das principais instituições culturais do Brasil, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, conhecido como Masp. Construído em 1958, o prédio foi projetado por Lina Bo Bardi (1914-1992), uma arquiteta ítalo-brasileira que também presenteou a cidade de São Paulo com obras como o Sesc Pompéia, Teatro Oficina e Casa de Vidro.

Andando um pouco mais pela avenida Paulista e virando à direita na avenida Brigadeiro Luís Antônio é só descermos sentido ao Parque Ibirapuera. Ali, descansamos na sombra olhando para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), onde a pernambucana Erica Malunguinho (1981) escreve história neste começo de 2019 sendo a primeira mulher transexual a ocupar uma cadeira de deputada estadual.

Encerramos nosso turismo feminista assim: olhando para o futuro.

E para acompanhar essa caminhada, uma playlist para homenagear a cidade:

Luisa Toller é musicista, educadora, colunista da Revista Azmina e mãe militante. Tem formação pela Unicamp e um mestrado sobre música e gênero concluído em 2018 na Eca-USP. É tricampeã do concurso de marchinhas Nois Trupica Mais Não Cai com composições feministas que viralizaram com webhits. Já desenvolveu atividades pedagógicas sobre desconstrução de estereótipos de gênero na Graded School, participou de mesas e palestras na Caixa Cultural, semana Delas na faculdade arquitetura da Mackenzie SP, comunicação da Puc-SP, jornalismo na UNB, Instituto Ruth Cardoso e na editora SM Educação. Além disso integra os grupos Meia Dúzia de 3 ou 4, Vozeiral e Bolerinho.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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