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16 de dezembro de 2019

O que acontece com um casamento quando a mulher decide viver seus desejos?

O filme "História de um Casamento" retrata sem clichês ou romantização a história de muitas nós
história de um casamento
Cena do filme “História de um Casamento” (Imagem: Reprodução)

Tem gente que diz que você só conhece alguém de verdade é nas horas ruins. Acho que a mesma lógica se aplica aos relacionamentos: você só entende de verdade uma relação, quando ela chega ao fim. O filme História de um Casamento, que estreou semana passada na Netflix, é bem sobre isso: mostra a história do que foi uma relação a partir do momento em que ela termina. E esse filme mexeu demais comigo, porque a todo momento eu via na tela a minha história. 

E imagino que seja a história de muitas mulheres que já se casaram com homens. É um filme sobre o que acontece a um casamento quando a mulher decide viver seus desejos e entende que isso não cabe dentro daquela relação que foi construída em cima de sua anulação. 

A produção mostra a trajetória de uma mulher em busca de protagonismo na própria vida e a dificuldade de um homem em lidar com isso. E a beleza está na forma como isso é construído, com tanta sutileza e sem maniqueísmo. É como a história de muitos casamentos de tantas nós. Um relacionamento que parece legal, um cara legal, não há violência, nem abuso. Ninguém é mau, ninguém agride ou ofende ninguém. 

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Ainda assim, Nicole (vivida por Scarlett Johansson) passou anos se anulando, abrindo mão dos seus desejos, para viver os do marido. Porque existe um desequilíbrio de poder nas relações heterossexuais, no qual isso pode acabar acontecendo: os desejos do homem conduzem a vida do casal, enquanto a mulher nem percebe que está abrindo mão de si. Isso não é dito. Ele não pede, ele não exige, ele não manda, simplesmente tem uma balança invisível que pende para um lado. 

É algo tão sutil e difícil de explicar. Porque é uma dinâmica construída sobre séculos de patriarcado, onde a mulher aprende a dizer sim e o homem a demandar. E o filme tem uma delicadeza em mostrar isso. A própria personagem não sabe muito bem explicar no princípio. Até porque esse jogo de poder se baseia em escolhas dela também. Mas o fato é que ninguém consegue abrir mão de si para sempre, uma hora todo o desejo reprimido procura lugar para sair. 

E o filme conta o que acontece na vida dela e de Charlie (interpretado por Adam Driver), quando Nicole decide viver as próprias vontades. E o que acontece é uma separação. 

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Nesse processo de separação, vemos essa mulher, que por anos aceitou tudo que o marido queria, começando a demandar sua vontade. E é um processo muito peculiar. De novo, a identificação com a personagem chega a doer. Porque é muito difícil dizer “estou fazendo isso porque eu quero”, quando por anos você abriu mão de querer. 

Nicole terceiriza essa responsabilidade no começo: está se separando por causa de um trabalho. Toma decisões por causa do filho. Deixa a advogada ter as conversas difíceis por ela. Porque é duro reconhecer e admitir que aquelas são suas escolhas, depois de tanto tempo sem fazer escolhas. 

Mas um dos grandes brilhantismos do filme mesmo é mostrar a dificuldade do homem em reconhecer que a mulher é capaz de fazer escolhas. 

Charlie é um cara legal, diretor de teatro, sensível, inteligente. E simplesmente se recusa a aceitar que a mulher se tornou sujeito da própria vida. Ele demora meses para aceitar que ela está se mudando de cidade, mesmo com ela afirmando isso com ações e palavras diversas vezes. “Mas nós vivemos em Nova York”, afirma ele inúmeras vezes, em Los Angeles, com o filho matriculado em uma escola lá e a ex-esposa já vivendo lá. Ele tenta, de muitas formas, se manter apegado a uma ideia de que aquilo vai passar. Porque é inconcebível para ele essa decisão da mulher de agir por vontade própria. 

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É bem ilustrativo sobre como os homens sensíveis (que muitas vezes chamamos de esquerdomachos) têm tido dificuldade em lidar com a tomada de poder de suas companheiras: eles negam o desejo delas, negam a expressão delas desse desejo.

Eles traem e, quando confrontados com isso, culpam a mulher pela própria ação. Eles se recusam a negociar e ceder. 

É até difícil acreditar que foi um homem que escreveu e dirigiu o filme. Mas foi e fico imaginando que Noah Bambauch já deve ter lidado de alguma forma com esse sentimento (e a história dele e da esposa Greta Gerwig, que atuou em seu filme Frances Ha e hoje concorre com ele em prêmios como diretora pode ser um indicativo disso), porque ele soube dosar esse lugar do homem muito bem. O filme não entra pelo clichê de pintar esse homem como vilão, porque ele não é. Ele só é um cara mesmo. Nem como um coitado. 

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E a mulher, mesmo ao se anular, tem um papel como sujeito nisso e cabe a ela, não a ele, mudar as coisas. Por isso Nicole não espera que Charlie entenda ou aceite, ela simplesmente age.

E nesse ponto o filme traz outra coisa que achei maravilhosa. Mostra que essa ideia de uma separação amigável é uma utopia. Em um cenário em que a mulher está começando a assumir as próprias vontades, aprendendo a ter forças para dizer “eu quero isso”, entrar numa briga de divórcio, ainda mais com guarda do filho envolvida, sem apoio, é entrar para perder. 

Porque vão estar em campo as mesmas forças que fizeram o jogo de poder daquela relação por anos. E vai ser difícil ela se impor. 

Então Nicole busca ajuda, conta com uma advogada que é a personificação de sua raiva reprimida por uma década. Uma advogada que demanda tudo que Nicole quer, sem ceder, mesmo nos momentos em que a cliente diz “deixa disso”. Sem essa ajuda, Nicole teria desistido, teria cedido e, com um filho em jogo, talvez até voltado ao casamento. Porque Charlie se nega a ceder e só abre mão porque outras forças estão agindo. 

Ah! É tão simbólico quando ele reclama do sofá que Nicole levou – e que era dela desde sempre – memórias que eu não devia expor estão lutando para aparecer agora.

Enfim, o resultado é um processo de divórcio difícil e cheio de dor, em que as duas partes machucam e saem machucadas. Uma separação que escancara os sentimentos velados de ambos e que mostra também como as pessoas se esforçam para negar os sentimentos e emoções que estão explodindo em seus corpos. 

Terminar um casamento ou relação nunca é fácil. Assumir responsabilidade por suas escolhas e por sua vida não é fácil. Aceitar que a outra pessoa é sujeito também não deve ser. E o filme traz de uma forma não clichê isso tudo, as possibilidades do fim, sem romantizar ou demonizar ninguém. E ainda ficou uma bela lição: para mulheres que buscam sair da anulação, às vezes é preciso terceirizar sua raiva para lutar, porque sozinha é difícil.

Helena é jornalista formada pela USP e com pós-graduação em roteiro pela FAAP. Já atuou em diversos veículos, como UOL, M de Mulher, Veja São Paulo e a Revista Sou Mais Eu. Especializada em cobertura de gênero, direitos humanos, diversidade e sexualidade, é editora chefe da Revista AzMina e também escreve a coluna quinzenal sobre sexo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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