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4 de outubro de 2018

Mais um motivo para dizermos #EleNão

Candidato diz que para combater a criminalidade vai parar de financiar ONGs - foi em uma delas que Luisa conheceu sua afilhada em programa de apadrinhamento afetivo
Luisa e a afilhada. Crédito: Reprodução de vídeo do Instituto Fazendo História

“Temos vivido dias de discussões intensas sobre política, #EleNão, diversidade de candidatos e candidatas à Presidência, sobre a necessidade de um Congresso mais representativo e democrático e sobre as escolhas de planos de governo.

Temos também ocupado ruas e redes questionando uma candidatura que põe em risco nossa democracia tão jovem. Uma candidatura que ameaça os direitos das mulheres, da população negra, indígena e LGBTQ.

Pois bem.

Trago hoje no Divã – e não na Vulva a Arte, como de costume – uma experiência que vivo há três anos muito linda e celebrada pela sociedade e que também é ameaçada pelo plano de governo de Jair Bolsonaro: o Apadrinhamento Afetivo.

Explico. Em abril de 2015 vi um anúncio na internet, fiquei interessada e me inscrevi. Quatro meses depois fui à uma reunião que detalhava o projeto: apadrinhar (no meu caso, amadrinhar) uma criança ou adolescente em situação de acolhimento nos abrigos de São Paulo para que ela ou ele pudesse ter uma referência adulta e uma relação individualizada de afeto.

A proposta, já em prática em várias cidades, tem como intenção promover convívio familiar e participação ativa na comunidade.

O processo de formação foi longo: encontros, textos, filmes, tudo para entender o que significava me envolver, me comprometer e mais: que meu papel além de me relacionar com uma pessoa, seria educar a sociedade.

Sim. Somos muito deseducados a respeito do Estatuto da Criança e do Adolescente. Não se sabe nada sobre os Serviços de Acolhimento que hoje chamamos de abrigo. Ainda se fala em crianças “carentes” (quem não é?). A palavra orfanato ainda é usada até no jornalismo – quando apenas 4% das crianças acolhidas são órfãs.

O sistema de adoção é complexo e tem um longo caminho para se desenvolver no Brasil.
E até agora o aborto é criminalizado.

(Por essas e outras me dá um embrulho no estômago quando alguém se diz contra o aborto sugerindo que as gestações indesejadas se resolvem com adoções.)

Quando conheci minha afilhada, ela tinha 10 anos. Nesse três anos vivemos muitas coisas: conversas, passeios, viagens, brigas (por que não?), acompanhamentos em médicos, reuniões de escola, além de uma das nossas maiores afinidades: cantar e tocar. Nossa relação é profunda. Quero poder fazer o impossível para que ela realize seus sonhos.

Mas não escrevo isso para ganhar o prêmio Madre Teresa da vez.

Minha escolha em participar do projeto foi por necessidade minha, de criar raízes em São Paulo, de promover para mim também um convívio familiar já que meus parentes moram em outras cidades, de ter uma experiência alternativa à maternidade de me relacionar com uma criança.

De lá pra cá poderia contar mais de cem vezes em que parabenizaram por ser uma madrinha afetiva. Aceito os elogios, mas sempre penso: mal sabem eles o quanto eu aprendo todos os dias.
O quanto aprendemos juntas. O quanto penso nela todos os dias.

Nessas eleições, faço isso mais ainda. Porque minha afilhada, menina, negra, de treze anos, estudante da rede pública, participante do serviço de acolhimento, por essas características já seria prejudicada pelo plano de governo de Bolsonaro.

Mas vou além: nossa relação só foi possível porque existem projetos como esse, promovidos por ONGs. No meu caso, o Apadrinhamento Afetivo é um dos programas do Instituto Fazendo História.

E em muitas entrevistas o candidato afirma que uma de suas medidas para “combater a criminalidade” será não repassar dinheiro para as ONGs, que, segundo o mesmo, “prestam um desserviço ao Brasil”.

Gostaria de entender a lógica dessa frase.

Primeiro, porque se há alguma desconfiança de como é feito o apoio financeiro do poder público às ONGs, existem mecanismos de fiscalização. Se estes são falhos, lutemos para fortalecê-los.

Agora, sobre o argumento de que esse rompimento vai combater a criminalidade, fico curiosa (não seria o contrário?). Ou mais: fico desconfiada de que a exclusão social e racial é uma das metas desse plano de governo. Me parece que crianças e adolescentes – principalmente negras e pobres – são mais um dos grupos excluídos das políticas desse candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto.

Por isso, sigo dizendo não a este projeto de país. E respondo com amor. Eu amo minha afilhada. O Apadrinhamento Afetivo promove o amor.

Desserviço é chamar isso de desserviço.”

Natural do Rio de Janeiro, Luisa é musicista, professora e pesquisadora. Formada pela Unicamp, já participou de diversas bandas tocando em Festivais, Viradas Culturais, circuitos e prêmios como ProAC e BNDES. Foi curadora da Caixa Cultural e professora no Ensino à Distância da UFSCAR. Venceu três categorias no 8o Concurso de Marchinhas Nóis Trupica Mais Não Cai com a composição Marcha das Mulheres. Hoje cursa mestrado na USP, tendo participado do 13o. Encontro Mundos de Mulheres, e sua pesquisa (assim como tudo na vida) busca desconstruir padronizações e hierarquias de gênero. Além disso adora cozinhar e descobrir receitas e formas de vida mais orgânicas e menos industriais.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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