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31 de outubro de 2026

Com quem fica o legado da eleição que entrou para a história?

Mulheres, nordestinos, juventude e idosos levaram Lula à vitória; mas a mobilização precisa continuar

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Imagem em estilo de colagem, em preto e branco, com intervenções gráficas em vermelho, rosa, verde-limão e preto. Um grupo diverso de mulheres aparece reunido em uma manifestação, algumas segurando cartazes e levantando os braços. No centro, uma mulher segura um grande leque aberto e outra aparece ao lado com o braço levantado. À direita, duas mulheres mais velhas aparecem lado a lado, uma segurando um cartaz com mensagens sobre proteção social. Ao fundo, há outras pessoas, faixas e registros de manifestações sobrepostos. No alto, aparecem os créditos: “Fotos: Walter Campanato, Lua Marques, Paulo Pinto, Tomaz Silva, Rafa Neddermeyer, Tomaz Silva/Agência Brasil”.

Toda eleição deixa marcas, e toda eleição é sentida e vivida como a maior da história. Dessa vez sabemos que essa eleição foi grande, mas acima de tudo podemos afirmar que ela entrou para a história.  Finalmente, quem deve estar no centro do debate, esteve: O POVO BRASILEIRO, protagonizando uma eleição diferente do que já vimos ao longo da história, em que  o papel central  se dá por um líder, ou um partido, ou uma mídia hegemônica. Dessa vez, sobretudo, quem decidiu o resultado político do país foi o povo, reencantado por acreditar que o que influencia nosso dia a dia pode ser o centro do futuro do poder. Quem elegeu Lula foi o povo, organizado, nas ruas e nas redes, em um segundo turno que condensou em poucas semanas o que muitas décadas de partidos, sindicatos e movimentos têm enfrentado dificuldade para rearticular.

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Feminismo bem informado

Não há dúvida que a preocupação cotidiana da população virou agenda e pauta na casa, no celular, na parada de ônibus, na boca do povo e no programa político de muitos candidatos. Foi a preocupação do dia a dia: quem pega o ônibus lotado, quem não tem folga para ficar com a família, quem faz a conta fechar no fim do mês. Esses temas ganharam peso e influenciaram partidos e políticos que nunca sequer entenderam o que é a rotina puxada de um trabalhador brasileiro. Em 2024, ouvimos da mídia hegemônica, sedenta por influenciar novas tendências no campo político, que a moderação ganhava a eleição. 

Em 2026, a resposta veio a galope para todos aqueles que desejavam uma política fria, apenas da busca pelo diálogo raso entre quem pensa diferente. No lugar disso vimos que a radicalidade ganhou o palco nessas eleições. A radicalidade de defender agendas que causam medo para uma democracia liberal e cheia de falhas. O terror dos patrões com o fim da escala 6×1 e a tarifa zero nos transportes em todo Brasil, duas pautas que ocupam as ruas do país há anos, e que pautaram a decisão de voto de milhares de brasileiras e brasileiros. Ao lado delas vieram o combate à violência e ao feminicídio, a isenção do imposto de renda até R$ 5 mil, o endividamento dos MEIs, o fim das Betse a defesa da soberania diante dos ataques de Trump. Não foi por acaso que a virada aconteceu quando a disputa saiu do medo e foi para o que as pessoas querem para a vida.

QUEM ESTÁ NO CENTRO DA LUTA PELA VITÓRIA

O Nordeste foi, como em toda eleição, assunto do país inteiro, e dessa vez alvo de uma enxurrada de ataques: em três dias, mais de 27 milhões de menções, links e compartilhamentos criticaram ou ofenderam as nossas escolhas. Repetiram o repertório de sempre, de que não sabemos votar, de que votamos por benefício, por cabresto. Para nosso campo, como o centro das boas escolhas, mas também dos grandes ataques. Mas acima de tudo foi possível mais uma vez ver o protagonismo que nos cabe na construção deste país, a resposta articulada com a construção histórica e nosso bom humor de sempre. Isso não é acaso nem folclore eleitoral, é herança. Foi no Nordeste que o Brasil se levantou tantas vezes: de Palmares, à República de 1817 em Pernambuco, à Praieira, Canudos, às Ligas Camponesas, à pedagogia de Paulo Freire. Cada um desses levantes que marcaram o Brasil deixou uma marca na construção da identidade nordestina, da política e da prática vivida. Uma marca tão forte que segue reencantando o jeito de pensar o poder através da arte, da tecnologia social e da grandeza do maracatu, do cavalo-marinho, do frevo, do coco e do carnaval de rua, que nasceram como frutos das revoluções e das convivências com a comunidade negra, indígena e sertaneja. Um povo que pensa criticamente porque viveu, e vive, as mudanças pelas quais sempre lutou: terra, água, escola, salário, voto, soberania. Quem conquistou cada direito com luta e encantamento sabe o que custa perdê-lo, e sabe distinguir quem fala em nome do povo de quem vive dele. Por isso, o Nordeste escolhe certo e marca a maior eleição da história rejeitando o fascismo!

Não é possível sair dessa eleição sem falar do protagonismo dos movimentos populares, que estiveram, mais uma vez, no centro da mobilização. Sou ativista há 17 anos e sempre vi os movimentos protagonizarem os momentos históricos em defesa do futuro: da resistência negra abolicionista à luta contra a ditadura; do levante das mulheres por direitos civis aos atos que tive a chance de construir e liderar, como o “Gigante acordou”, “Ele Não”, “Fora Temer”, “Fica Dilma”, as jornadas por tarifa zero, o Grito dos Excluídos.

Banner horizontal com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. À esquerda, em letras brancas e verde-limão, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO” e, em destaque maior: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. À direita, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Abaixo, dentro de uma caixa contornada em verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. O banner usa tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos ao fundo
Banner vertical com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. Na parte superior, em branco, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO”. Logo abaixo, em letras grandes e verde-limão: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. Na parte central inferior, em branco, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Na parte inferior, dentro de uma caixa com contorno verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. A composição utiliza tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos em azul e verde ao fundo.

Neste segundo turno, vimos mulheres, pessoas negras, estudantes e trabalhadores liderando uma campanha nas ruas, sem material, sem estrutura, sem apoio institucional. Apenas com a força revolucionária de quem sabe onde se faz política neste país: no chão da vida das pessoas. As mobilizações superaram em tamanho e engajamento tudo o que já tínhamos visto, e não foram fruto de um plano desenhado em gabinetes e salas fechadas. Foram planos estratégicos e táticos, pensados e executados com maestria por lideranças que aproveitaram um momento histórico para reencantar as pessoas.

ARTICULAÇÃO PARA VENCER NAS REDES

As redes sociais também viraram campo de batalha, e dessa vez nós quebramos a banca. Uma população cansada de ser manipulada por telas alienantes destravou o jogo. Inovamos com estratégias coordenadas, mas acima de tudo com arte, cultura, humor e o potente encontro entre pares, como ferramentas narrativas de transformação de mentes e corações. 

Aprendemos tanto que conseguimos encontrar algo em comum até com Janones. Um homem que nunca admirei, mas que cumpriu um papel na história ao conduzir, junto com tanta gente corajosa, a estratégia de comunicação que reuniu os campos democráticos em torno de mensagens unificadas, capazes de fazer frente ao algoritmo parcial e a intervenções das gigantes da tecnologia no processo eleitoral.

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O mais bonito disso, para mim, foi ver tanta gente colocar seu legado individual a serviço de uma imaginação coletiva de futuro, contribuindo para formar criticamente através da troca entre quem se parece, se conhece e consegue mais que ninguém trocar de forma genuína. A Meta assistiu perplexa a capacidade de um povo se juntar e enfrentar a cultura individualista com jeito e cheiro de gente viva.ente que não deita pra fascista!

Nós, mulheres, fomos também aquelas que definiram caminhos. Seja no discurso da mãe da menina Ana Clara, seja na fala da mãe, avó do grupo do zap que todos os dias durante quase 45 dias atuaram incansáveis para influenciar aqueles que escutam as mulheres. Desejamos um futuro melhor para todo o povo brasileiro, e lideramos tudo quanto foi ação pela vitória da democracia. Amo ver o poder, a criatividade e a capacidade intelectual que temos para propor um caminho diante do caos. A juventude trouxe a energia necessária para a batalha diária, o clima para cima, a resposta rápida, a criatividade e a empatia geracional. E a geração 60+ deu um show de memória, de disposição e, acima de tudo, de uma crença esperançosa, que lembra a quem chega agora que já vencemos antes.

O LEGADO QUE É NOSSO

Convém, porém, ler esse legado com os pés no chão. O que mobilizou milhões de pessoas a irem votar, especialmente no segundo turno, não foi apenas a identificação com o Lula ou o projeto de poder do PT, projeto esse que precisou mais uma vez reconhecer os limites e contradições para avançar com a campanha. Foi possível ver que os brasileiros perceberam de forma profunda o poder em enfrentar o neofascismo, enfrentar aqueles que traem a nossa nação e atacam nossos direitos conquistados. E essa energia tão potente de enfrentamento ao fascismo não se converte sozinha em força permanente após as eleições. 

Mas a extrema direita sai institucionalmente forte, com grandes bancadas no Congresso e governos estaduais. E sai também com um método que aprendeu de nós. Ela se apropriou das nossas ferramentas de mobilização, dos grupos de zap, das redes, do chamado à rua, e deturpou o sentido delas: onde construímos coletividade, ela fabrica rebanho; onde cultivamos comunidade, ela organiza o ressentimento e o medo do outro. O centrão continua sendo o fiel da balança em um sistema que sempre freou as conquistas populares, e a pressão do capital financeiro já aponta concessões perigosas nessas negociações. A sustentabilidade desse mandato depende de mobilização, não de governabilidade apenas.

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Seria um erro, porém, ler o resultado como se todo mundo que votou e ajudou a eleger conservadores soubesse o que escolhia. Há muita gente que votou sem entender o que o projeto da direita significa. Gente cansada, endividada, com medo, que encontrou nesse campo político algo que deixamos passar. Essas pessoas não são o inimigo, são o povo que precisamos cuidar, escutar e reconquistar pela presença no chão onde vivem. Há também quem apoia o projeto da extrema-direita por convicção, e o apoio desse grupo não é disputável. Respeitamos o direito à opinião, mas é necessário isolarmos esse projeto dos espaços que decidem sobre a vida de toda uma nação.

A MOBILIZAÇÃO É LEGADO ANCESTRAL

O próprio Lula sinalizou, durante o segundo turno e no discurso da vitória, que governar com as ruas é o caminho. É nessa radicalidade que precisamos converter nossa energia nos próximos 4 anos, com nosso papel central na liderança permanente dos levantes críticos nas ruas e agora também nas redes. E é papel deste governo fortalecer, apoiar e abrir diálogos em pé de igualdade para executar a melhor estratégia na disputa do futuro da democracia.

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Trabalhamos muito por um resultado que nos permitisse sorrir no futuro que começa hoje. É necessário celebrar cada pessoa que se levantou de onde estava, no trabalho, em casa, na escola, nas redes. Isso aquece nosso coração e renova nossa fé na construção coletiva, no movimento social, na capacidade do pensamento em comum mesmo diante das diferenças que sempre teremos. Agora são quatro anos, e o cenário do futuro é de luta: seguir avançando, seguir trazendo o povo para perto através da política que fala da vida vivida. Mas é preciso dizer com nitidez para quem fica o legado dessa eleição. Ele não fica com um líder, nem com um partido, nem com um governo. Fica com o povo brasileiro, que mostrou ao país que sabe se levantar quando é chamado a pensar o próprio futuro. 

Mais do que um resultado,fica a capacidade de nos organizarmos coletivamente. Esta sempre será a estratégia mais atual para avançar rumo a uma democracia do Bem Viver. Cada geração reinventa a forma, mas a essência permanece: quem se organiza junto disputa a imaginação política, e quem disputa a imaginação política constrói hoje o futuro.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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