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28 de outubro de 2026

Qual será o lugar das mulheres no novo mandato de Lula?

Elas foram decisivas na reeleição do atual presidente, mas seguem sub-representadas no governo

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  • O Exército do Lula foi o principal mobilizador da virada histórica, mas as mulheres tiveram um papel essencial, sendo as maiores opositoras do bolsonarismo;
  •  Em 2023, 3º mandato de Lula, tomaram posse 11 ministras, de um total de 37 pastas, mas com as reformas, elas perderam espaço;
  • Apesar de ainda serem sub-representadas, as mulheres ganharam espaço no legislativo e podem ganhar protagonismo nas próximas eleições presidenciais. 

Arte conceitual e colagem gráfica mostrando a silhueta de uma mulher negra ao lado de uma cabina de votação da Justiça Eleitoral, com sobreposições geométricas rosa e amarelas.

Lula acaba de ser eleito presidente pela quarta vez e, como vimos, não fez isso sozinho. O Exército do Lula foi o principal mobilizador da virada histórica, mas as mulheres tiveram um papel essencial desde o primeiro turno: foram elas as maiores opositoras de Flávio Bolsonaro, inclusive a sua madrasta, Michelle Bolsonaro. Se somos capazes de fazer o trabalho doméstico, trabalhar fora de casa, criar filhos, cuidar de idosos, e manter a aparência; o que é incluir mais uma tarefa, tipo, lutar pela democracia? 

Quando o assunto é mobilização as mulhere s não temem a escala 7×0: nós nos abstemos menos na hora do voto (segundo o TSE, apenas no primeiro turno, 22% dos homens não votaram contra 20% das mulheres) e nos mobilizamos mais que os homens (apenas para citar um dos estudos, de acordo com Raio-X das Iniciativas Periféricas, levantamento produzido pelo Ministério das Cidades lançado em março de 2026, 64,3% das iniciativas periféricas pesquisadas têm atuação majoritariamente feminina).  

Por isso, nada mais justo que mulheres ocupando cargos importantes no mandato que se inicia em 2027, certo? Juro que não quero jogar água no chope de ninguém, mas o passado recente mostra que talvez a vontade de ter uma representação feminina à altura da mobilização que fizemos ainda esteja um tanto longe de se concretizar. Um mini flashback dos últimos quatro anos:

Em janeiro de 2023, com o início do 3º mandato do presidente Lula, tomaram posse 11 ministras: Ana Moser (Esporte), Anielle Franco (Igualdade Racial), Cida Gonçalves (Mulheres), Daniela Carneiro (Turismo), Esther Dweck (Gestão e Inovação), Luciana Santos (Ciência e Tecnologia), Margareth Menezes (Cultura), Marina Silva (Meio Ambiente), Nísia Trindade (Saúde), Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas). À primeira vista, o número até parece expressivo. Mas, considerando os 37 cargos ministeriais existentes na época, as mulheres representavam apenas 29,7% do primeiro escalão, contra 70,3% de homens.

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Feminismo bem informado

Ao longo do mandato, outras sete mulheres assumiram cargos de ministras titulares: Macaé Evaristo e Janine Mello (Direitos Humanos e Cidadania), Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Márcia Lopes (Mulheres), Miriam Belchior (Casa Civil), Fernanda Machiaveli (Desenvolvimento Agrário) e Rachel Barros (Igualdade Racial). Ao todo, foram 18 mulheres identificadas entre as titulares do período. 

Com as reformas ministeriais, perdemos espaço. Em quatro ocasiões, Lula substituiu ministras por homens: no Turismo, Daniela Carneiro perdeu lugar para Celso Sabino; no Esporte Ana Moser foi substituída por André Fufuca; na Saúde o cargo de Nísia Trindade passou a Alexandre Padilha, e nas Relações Institucionais foi a vez de Gleisi Hoffmann dar espaço a José Guimarães. Claro que também houve substituições no sentido contrário, como as nomeações de Macaé Evaristo para os Direitos Humanos e Fernanda Machiaveli para o Desenvolvimento Agrário. Mas foi a metade. 

Além das que já estão à frente de Ministérios, para o próximo mandato, surgem algumas novidades: Manuela D’Ávila é cotada para assumir a pasta das Mulheres, enquanto Cinara Wagner Fredo, apontada pelo atual ministro José Múcio como uma possibilidade para a Defesa. Breve pausa nos meus próprios argumentos porque, caso isso ocorra, ela será a primeira mulher a comandar a pasta (que sabemos:  é  reduto de machinhos). Gleisi Hoffmann, Simone Tebet e Marina Silva, ao que tudo indica, devem voltar às suas pastas. A ver.

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Por enquanto, tudo segue no campo das negociações e dos rumores de bastidores, é claro. Lula ainda não anunciou suas escolhas nem assumiu publicamente o compromisso de formar uma esplanada paritária. Mas fica aí a sugestão.  

Bota na agenda (para depois cobrar) 

Essa é uma análise de dentro para fora. Agora, de fora para dentro, Lula prometeu em seu plano de governo reforçar o combate à violência contra as mulheres com a conclusão de 30 Casas da Mulher Brasileira e 15 Centros de Referência, ampliação das Salas Lilás (acolhimento e atendimento especializado de mulheres e meninas em situação de violência), monitoramento de agressores e capacitação de policiais para tipos de violências contra a mulher. 

Na economia, as propostas incluem fortalecer a igualdade salarial, ampliar o acesso ao crédito para agricultoras, incentivar o empreendedorismo feminino e investir na qualificação profissional e na participação de mulheres na ciência. Mas nada com números e propostas efetivas.

Na saúde, o programa prevê ampliar a oferta gratuita de contraceptivos de longa duração pelo SUS, combater a mortalidade materna, especialmente entre mulheres negras, e fortalecer as políticas de dignidade menstrual e prevenção de doenças. Também promete construir creches, ampliar as Cuidotecas e fortalecer a Política Nacional de Cuidados. Embora defenda os direitos sexuais e reprodutivos, o plano não menciona expressamente o aborto nem apresenta propostas para ampliar o acesso ao procedimento legal. Mas sabemos que este é um tema espinhoso (principalmente em período eleitoral). Enfim, baby steps, baby steps. Mas só para constar nos autos: estamos de olho. 

Sucessão: agora que são elas…?

Ok, sabemos que futurologia é só com tarô, mas uma coisa é certa: ambos lados saíram dessa eleição com a certeza de que é preciso dar um jeito, meu amigo. Nem direita, nem esquerda, nem centro (se é que isso ainda existe) tem sucessórios a altura de seus líderes. 

Como já foi amplamente divulgado, as mulheres tiveram grande destaque também dentro dessas eleições (ainda que com passos de formiga e sem vontade por grande parte dos mandatários dos partidos). Mas será que chegou a nossa vez?   

A craque da rodada foi, sem dúvida, Michelle, que, de tão grande, já pode até dispensar o sobrenome. A ex-primeira dama (que já havia feito história ao discursar em libras na posse do marido) bateu recorde de votos ao Senado pelo DF, com seus 938 mil votos. Mas sua notoriedade nessa campanha veio antes de sua vitória. A publicação de um vídeo acusando Flávio de tê-la maltratado foi um claro sinal de que pretende (e tem força) para voar solo. Ela ainda usou como pivô uma mulher, a vereadora Priscila Costa (PL) que, na sua opinião, era o melhor nome para concorrer a um pleito no senado. Madrasta e enteado fizeram as pazes publicamente, mas Michelle não engajou nem um pouco na candidatura do enteado.

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Além da sua candidatura, ela alavancou consigo a senadora Bia Kicis (PL) e a governadora Celina Leão (Progressistas), que por pouco não ganhou no primeiro turno. E, na política, sabemos que a campanha não é feita apenas em período eleitoral. Podem ser alternativas? Não colocaria minha mão no fogo, mas nunca se sabe… 

Já do lado petista, Lula não pode concorrer à reeleição em 2030 por conta da Constituição Federal, que permite ao candidato concorrer apenas dois mandatos consecutivos. Isto posto, não há um sucessor claro para o seu legado. Ainda que tenha sido uma escolha pessoal do presidente, as urnas deixaram claro que Fernando Haddad (PT) não tem força política para disputar um cargo eletivo, o que pode abrir frente para alguma mulher (bom, não custa sonhar).  

Erika Hilton (PSOL-SP) atualmente é a mais forte. Também pudera: este, sem dúvida, foi o ano dela na política, que já chegou fermentada para a disputa eleitoral após ter tido grande projeção com a campanha pelo fim da escala 6×1 ao Congresso Nacional. O impacto da sua atuação no Congresso foi tamanho que ela conseguiu furar a bolha e foi reeleita como a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados. No segundo turno ela foi uma das convocadas para reforçar a atuação de Lula nas redes sociais no segundo turno, além de mobilizar atos em São Paulo, Fortaleza e João Pessoa. 

Ainda que tenham perdido a eleição aqui em São Paulo, Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) podem ser alternativas viáveis no campo feminino, ainda mais por não estarem tão associadas ao PT (o que pode trazer boa parcela dos votos antipetistas). Ambas têm interesse no cargo de presidente da república, vide que ambas já foram candidatas, mas a dobradinha meio improvável entre agro e meio ambiente precisa de lapidação nos próximos anos. 

Para ficar de olho

Mas, como diriam os comentaristas esportivos, “a categoria de base veio forte” do lado progressista. Despontam nomes que, podem até não resolver a incógnita da sucessão em 2030 (até porque sequer terão alcançado a idade mínima para assumir a presidência da república, de 35 anos), mas parecem ter o potencial de serem futuras lideranças femininas na política. Entre elas está  a deputada Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), que se destacou não só nas urnas, mas também nos bastidores da campanha. Mulher mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados e a deputada federal mais jovem já eleita no país, a influenciadora também teve um papel importante na campanha do segundo turno (ela foi uma das responsáveis por ter incentivado Lula a ter um aparelho celular). No entanto, em 2030 ela terá 25 anos e a idade mínima para assumir a presidência é 35 anos. 

Banner horizontal com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. À esquerda, em letras brancas e verde-limão, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO” e, em destaque maior: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. À direita, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Abaixo, dentro de uma caixa contornada em verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. O banner usa tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos ao fundo
Banner vertical com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. Na parte superior, em branco, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO”. Logo abaixo, em letras grandes e verde-limão: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. Na parte central inferior, em branco, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Na parte inferior, dentro de uma caixa com contorno verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. A composição utiliza tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos em azul e verde ao fundo.

Ainda no campo da juventude, temos Ana Júlia Ribeiro (PT-PR). O respaldo que a futura deputada federal ganhou dentro do PT durante o segundo turno foi tamanho que, no palanque do discurso de vitória, ela ficou entre o presidente Lula e o “general” André Janones. Nativa digital, ela viralizou na internet em 2016 com seu discurso na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), quando acusou os parlamentares de que suas mãos estavam “manchadas com o sangue de Lucas”, em referência ao assassinato de Lucas Araújo da Mota, de 16 anos, durante a ocupação de um colégio em Curitiba na manifestações secundaristas em 2016. Em 2030 ela terá 30 anos.

Se tem uma coisa que essa eleição mostrou é que as mulheres estão ficando cada vez mais longe do papel de coadjuvantes da política brasileira, mesmo sendo a maioria do eleitorado (52,8%). Mobilizam, disputam, elegem, fazem campanha e, quando necessário, ainda administram as brigas de família publicamente. Ambos os espectros políticos entenderam a importância do protagonismo feminino neste ano. Isso ficou bastante claro. Mas o que também ficou óbvio é de que querem o protagonismo, mas também não querem tantas protagonistas. Aí já é demais. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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