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Amanda é uma mulher branca de cabelos loiros na altura dos ombros, ela usa uma blusa preta escrito Serenas e sorri.
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7 de agosto de 2025

Lei Maria da Penha: o que não ensinamos aos meninos, deixando espaço para aprenderem na Internet

Sem educação para novas masculinidades, meninos buscam aconselhamento nas IAs e redes sociais

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Colagem digital de criança sentada com a cabeça abaixada, cercada por flores. Ao redor dela, três silhuetas adultas: uma com a mão na cabeça, outra com a mão no rosto e outra gritando. A imagem, em tons de azul e roxo, expressa angústia e sofrimento.

Na semana em que celebramos os 19 anos da Lei Maria da Penha, vivemos um grande paradoxo: avançamos muito, mas seguimos estagnadas. E enquanto não trabalharmos novas masculinidades com os meninos nas escolas, mulheres continuarão apanhando – como se isso fosse apenas uma crise de ciúmes. Foi essa a justificativa de Igor Eduardo, preso em flagrante após agredir brutalmente sua namorada dentro do elevador de um prédio em Natal.

As imagens o mostram desferindo, sem pausa, pelo menos sessenta socos. Sessenta. O porteiro do prédio agiu conforme a Lei Estadual do Rio Grande do Norte que determina que síndicos devem comunicar a violência doméstica e familiar em condomínios. Em 2025, a sociedade parece começar a entender, ainda que devagar, que em briga de marido e mulher, se mete sim a colher.

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Feminismo bem informado

O que leva um homem a desferir 60 socos contra uma mulher? Antes de tudo, precisamos lembrar: esse homem foi um menino. E os meninos ainda têm crescido cercados por ideias distorcidas sobre o que é “ser homem”. Desde cedo, são ensinados a não chorar, a não demonstrar medo e a não parecer com o que a sociedade rotula como “feminino” – pior ainda, a odiar o que é feminino.

Essa repressão é sustentada por uma base cultural profunda. A cultura da violência contra meninas e mulheres é como um iceberg e o feminicídio é apenas o topo. A base – profunda, silenciosa e naturalizada – é feita de piadas, expressões machistas, conteúdos pornográficos, estereótipos e omissões. 

São esses elementos que moldam o olhar de meninos sobre meninas desde cedo, muitas vezes sem que se perceba. Quando ignoramos essa base, seguimos enxugando gelo. Não, homens não nascem assim. A masculinidade violenta é ensinada, mesmo que pela naturalização de comportamentos machistas.

E há um aspecto ainda mais profundo nessa estrutura: a violência de gênero no Brasil tem cor e etnia. São as meninas e mulheres negras e indígenas que mais morrem, que menos acessam o cuidado e as que mais enfrentam o abandono institucional.

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Mudança cultural é a chave para mudar o cenário

Com a certeza de que a prevenção é a chave para mudar o cenário da violência de gênero no nosso país, nós, enquanto Serenas, começamos ouvindo quem mais importa: os estudantes. É assim que fazemos nossos trabalhos Brasil afora, apoiando governos a incluir a prevenção das violências contra meninas e mulheres na agenda educacional.

Em uma roda recente com adolescentes, perguntamos a um grupo de meninos o que gostariam de repetir  ou evitar  nos próprios relacionamentos, a partir do que veem em casa. A maioria respondeu que não gostaria de repetir os comportamentos das figuras paternas com suas mães. Que querem ser melhores.

Perguntamos o que isso significava e ouvimos respostas como: “não trair”, “tratar com mais respeito”, “ser menos vacilão”. Quando perguntamos se a escola já tinha aberto algum espaço para falar sobre o tipo de homem que querem se tornar, disseram que não,  mas que gostariam muito.

Leia Mais: Advogados transformam defesa dos homens em ataque a mulheres

Inteligência Artificial vira espaço de buscar conselhos

E com quem eles têm conversado sobre isso? A resposta: “comigo mesmo, às vezes com os amigos… e com a IA”, deram risada. Mas é verdade. Muitos deles – assim como várias meninas – nos relatam que é com a IA que “fazem terapia, pedem conselhos sobre seus relacionamentos e tiram dúvidas sobre educação sexual”.

Se a Inteligência Artificial se tornou o espaço onde meninas e meninos buscam conselhos, apoio emocional e respostas sobre seus corpos e relações, precisamos entender como funciona.  Que tipo de informação eles estão recebendo? Qual a qualidade e valores por trás dessas respostas? E que imaginários estão sendo reforçados?

Mais do que julgar essa busca por informações nas Inteligências Artificiais, é preciso perguntar: por que tantos meninos e meninas não se sentem confortáveis para conversar com outros seres humanos? O que isso revela sobre os silêncios em casa e nas escolas?

É justamente no vazio dos diálogos humanos que os algoritmos avançam. A escritora e pesquisadora inglesa Laura Bates chama atenção para esse fenômeno inédito: pela primeira vez na história, o machismo é maior entre os mais jovens. Diferentemente do que vimos ao longo de décadas, quando ideias como “lugar de mulher é na cozinha” se concentravam entre os mais velhos, hoje os mais novos são os mais machistas.

Toda uma geração está sendo moldada por esses conteúdos que reforçam estereótipos de gênero violentos, contra os outros e contra si mesmos. O que deveria ser entretenimento virou sala de aula de uma cultura misógina. Estamos falando, por exemplo, de grupos masculinistas que se perpetuam em espaços como TikTok e Youtube, onde meninos consomem conteúdos diariamente.

E esses conteúdos refletem diretamente em violências de gênero na própria internet. No Brasil, segundo estudo da Plan International com meninas e mulheres de 15 a 25 anos, 77% já sofreram assédio online, principalmente no Facebook e no Instagram. Quase metade das entrevistadas afirmou enfrentar mais assédio nas redes do que nas ruas. As consequências são graves: estresse emocional, sensação de insegurança física e perda de autoestima.

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A educação precisa disputar narrativas

Mas mesmo diante desse cenário distorcido pelas redes, existe uma fresta, uma oportunidade. Esses meninos nos dizem não querer repetir as violências e opressões que viram acontecer contra as suas mães. E escutar esse desejo com profundidade pode ser o começo de um novo caminho. Por isso, a educação precisa ter coragem de disputar narrativas. 

Enquanto as redes de educação não implementam políticas educacionais antissexistas, antirracistas e voltadas à prevenção das violências de gênero, seguimos naturalizados os xingamentos contra meninas por sua aparência, vestimenta ou relacionamentos. Além da imposição a elas da ocupação dos espaços domésticos. A escola reproduz comportamentos sociais. Ela não é neutra.

Essas agressões podem até ser invisíveis para os indicadores da educação, mas não passam despercebidas pelos estudantes. As meninas se incomodam com os comportamentos sexistas e machistas. Os meninos são afetados pela criação de caixinhas de masculinidades onde é proibido expressar sentimentos ou negar atitudes agressivas. Nessa bola de neve, acumulam angústias que geram depressão e se traduzem em altos índices de suicídio – especialmente entre meninos e homens negros.

A escola é um dos raros espaços por onde praticamente todos os estudantes passam durante anos. Ainda assim, pouco se investe em torná-la um lugar onde se aprende a construir relações mais saudáveis – afetivas, amorosas e sexuais.

Para transformar esse cenário, é fundamental que as práticas pedagógicas incluam o desenvolvimento de competências emocionais e relacionais. Falar sobre consentimento, cuidado, emoções, sexualidade e autoestima não pode ser visto como algo extra ou diferente. É o básico.

Se quisermos interromper os ciclos de violência contra meninas e mulheres que atravessam gerações no nosso país, precisamos agir agora. Isso exige convocar uma escuta ativa e política nas escolas – uma escuta que reconheça os meninos como sujeitos de cuidado e de transformação. 

E esse caminho precisa passar por decisões concretas e compromissos políticos. As redes de educação devem promover projetos político-pedagógicos, materiais didáticos e formações que incentivem relações de gênero saudáveis e equitativas, baseadas no respeito e no cuidado. Dessa forma, substituirão práticas que reforçam o sexismo e a misoginia por vínculos mais justos dentro da comunidade escolar. Afinal, só assim faremos valer o verdadeiro legado da Lei Maria da Penha: o compromisso com o que ainda não fizemos prevenir.

*Publicação em parceria com Serenas

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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