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7 de fevereiro de 2022

Gorda NÃO é tudo igual

Sem diversidade, a gorda daquele filme é sempre parecida comigo
gordas não são iguais

Vira e mexe é moda na internet esses joguinhos ou filtros que dizem “como você seria se fosse mais velha” ou “com que pessoa famosa você se parece”. Não bastasse que as permissões que a gente dá para entrar no hype vêm às custas de ceder nossos dados pessoais, sabe-se lá deux para o quê, os resultados nunca parecem fazer muito sentido. Para as pessoas gordas, então, menos ainda. E o texto de hoje é sobre isso.

Em 2015, eu estava em um evento externo com alunes da faculdade de Comunicação em que eu dou aulas. Depois de muito sol na cabeça, em um momento de descanso e descontração, um dos estudantes puxou papo, tentando saber mais da minha vida -a ‘prô’ que, aquela altura, tinha 31 anos, era recém-casada cisheteronormativamente, vivia de saia, vestido, sapatilha e maquiagem.

Eis que num determinado momento o abençoado me diz:

– Sabe, você parece com aquela personagem, daquele seriado…

E eu gelei. Antes mesmo de ele terminar. Porque claro, sabia que o que viria na sequência não seria agradável. Que personagem de seriado seria minimamente parecida comigo, uma vez que a representatividade gorda, ainda mais há quase 10 anos, é praticamente inexistente? O que veio na sequência confirmou meu receio:

– A Boo, do Orange Is The New Black!

Eu sorri constrangida, disse mais meia dúzia de palavras e desconversei. Levantei-me e segui com a vida para que aquilo não ficasse martelando na minha cabeça. Mesmo assim ficou, e sete anos depois ainda fica, porque tirando o cabelo curtinho que eu usava na época, AND O FATO DE EU SER GORDA, eu não tinha nada a ver, nem com a atriz, muito menos com a personagem à qual ele se referia.

Carrie “Big Boo” Black, interpretada por Lea DeLaria, uma mulher de 50 e tantos anos, é uma lésbica butcher, ou seja, com expressão masculina de gênero. Essa característica, também da atriz, é muito marcante em sua personalidade, e não passa batida nem aos olhares menos atentos. Mesmo assim, o menino avaliou que seria pertinente não só fazer tal comparação, como também verbalizá-la.

– E AQUI VALE UM DISCLAIMER: não se faz uma crítica à expressão butcher, mas sim ao fato de a comparação estar muito distante da realidade.

Leia mais: Gorda não é palavrão!

A questão que quero levantar é que as referências gordas são tão poucas, seja na mídia, seja em nosso círculo social, que tem sempre alguém dizendo que a gente parece com alguém… E quando vai ver, NÃO TEM NADA A VER, exceto o fato desse alguém ser… GORDE! Como se a forma do nosso corpo nos unificasse, e com isso, fossemos todes iguais. Spoiler alert: não somos, não.

Mas aqui temos um resultado prático da estereotipização das pessoas gordas praticada pela mídia: na falta de referências diversas, as que têm são tidas como reflexo da realidade. Toda vez que a gente vê uma gorda na rua, automaticamente associa com o que viu na novela, na série, no filme… E que, como sabemos, não são nada generosos com a gente.

“Xingada” de gorda

Tempos após a conversa com o aluno, e considerando ainda os estudos que fiz sobre gordofobia nesse período, observo a similaridade do título desta coluna com outro que usei em 2021: “Gorda não é palavrão“.

Nesse texto do ano passado, conto sobre um fato bastante importante que me fez mudar a percepção sobre o meu corpo, quando fui “xingada” de gorda. Na cabeça de quem gritou comigo na rua: “tinha que ser uma gorda”, meu comportamento submisso era esperado, porque assim as pessoas gordas são retratadas. Quando agi ativamente, veio a reação do agressor, em forma de ódio, confirmando outro padrão da gordofobia: o de que pessoas gordas não merecem, sequer, respeito. Por aqui CHEGA! E aí?

Esse texto foi escrito a partir de uma sugestão que a Monica (@mniiak) me enviou. Se você tem um assunto que gostaria de ver abordado aqui, manda uma mensagem pra mim no Instagram: @tamanhoggrande.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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